E se Obama usasse bigode?


Pedro Correia,

 

Faz agora cem anos, o inquilino da Casa Branca era um republicano de grande corpulência e bigodes farfalhudos chamado William Howard Taft. A imagem dele, vista pelos olhos de hoje, é totalmente anacrónica: Taft (na foto em baixo) foi o último presidente dos EUA a poupar nas lâminas de barbear. Os 17 líderes norte-americanos que se seguiram, de Woodrow Wilson a Barack Obama, apresentaram-se aos eleitores de face escanhoada. Barba, pera ou um prosaico bigode ficaram desde então arredados do número 1700 da avenida Pensilvânia, em Washington.
Com o atraso sempre habitual nestas coisas, os políticos europeus adoptaram a moda americana. Desde logo no Reino Unido, onde o rei Jorge V, falecido em 1936, foi o último monarca a usar barba, outrora um indispensável adereço da aristocracia britânica. Os filhos que lhe sucederam, Eduardo VIII e Jorge VI, disseram adeus aos pelos faciais: patilhas, cavanhaques, bigodes retorcidos tornaram-se símbolos de outros tempos, associados a vultos oitocentistas como Otto von Bismarck e Giuseppe Garibaldi.

 

Apesar de tudo, o bigode resistiu mais tempo no Reino Unido. O último chefe do Governo a usá-lo foi Harold Macmillan, um conservador que abandonou o poder em 1963. Seis anos depois, os franceses viam partir do palácio do Eliseu o general Charles de Gaulle, último chefe do Estado gaulês militar, último chefe do Estado gaulês com bigode.
Mais finos ou mais exuberantes, os bigodes estiveram associados ao poder totalitário. Talvez isto explique o facto de todos os líderes políticos subsequentes a Hitler e Estaline, na Alemanha e na Rússia, terem optado pela lâmina de barbear. Foi logo assim com o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, Konrad Adenauer (1949), e com o homem que em 1953 substituiu Estaline no Kremlin, Nikita Krutchov. E assim tem sido com todos os outros de então para cá.
Hoje seria quase impensável um político obeso e de grandes bigodes, como Taft (1857-1930), vencer uma eleição presidencial ou legislativa. Embora esta seja a regra, há sempre uma excepção que a confirma: José María Aznar, um homem de baixa estatura e grande bigode, foi primeiro-ministro em Espanha entre 1996 e 2004. Isto apesar de o bigode estar associado ao franquismo: Francisco Franco e outros destacados membros da sua ditadura tinham bigode, o que não sucede com o actual Rei Juan Carlos e já não sucedia com o seu pai, o conde de Barcelona – um antifranquista convicto.
É uma evidência histórica: as ditaduras estão em regressão acelerada. Até na América Latina, onde outrora pontificavam tiranos como Trujillo e Pinochet (que usavam bigode). E ninguém gosta de ser associado a elas, ainda que de forma subliminar. O próprio Aznar, que hoje viaja com frequência aos Estados Unidos, rendeu-se à moda: disse adeus ao bigode. De Taft aos nossos dias foi uma longa caminhada.

 

De D. Pedro a Santana Lopes

 

Em Portugal, o último chefe do Estado a usar bigode foi o marechal Óscar Carmona, falecido em 1951. Todos os dirigentes militares da ditadura instalada em 28 de Maio de 1926 – como Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o próprio Carmona – tinham bigode. A moda vinha de trás: os últimos reis portugueses, de D. Pedro IV a D. Manuel II, usavam um bigode bem característico da dinastia de Bragança. E entre os sete presidentes da breve I República (1910-26), apenas o almirante João Canto e Castro, inquilino de Belém entre 1918 e 1919, tinha a cara barbeada. Tal como viria a suceder com todos os presidentes e primeiros-ministros pós-25 de Abril. António Guterres chegou a usar um típico bigode mexicano e Pedro Santana Lopes gostava de aparecer de barba. Mas ambos se apresentaram de face escanhoada quando chegaram ao poder. Em política, o que parece é.

14 comentários em “E se Obama usasse bigode?”

  1. Dizer que Aznar tinha um “grande bigode” parece-me um manifesto optimismo. Já vi senhoras a vender peixe na praça com mais pêlo na beiça do que o bucinho do senhor.

  2. com bigode ele iria perder todo o encanto.
    gosto do sorriso franco que ele tem, com bigode não seria a mesma coisa.

    O presidente americano é uma prova de que se pode governar estando perto das pessoas e olhando-as bem nos olhos e rir-se muito sem perder a compustura

  3. Muito interessante, embora me deixe incomodado. No entanto, não rapo o bigode porque sem ele sinto-me estranho e porque se diz que um beijo sem bigode é coisa desenxabida. E como a moda vai e vem, pode ser que volte o tempo dos bigodes.

      1. Pois… Enfim, cada qual é para o que nasce. Antes de bigode que a tecer loas ao chefe do governo. Além do mais, o país começa a parecer-me excessivamente depilado. Vivam os bigodes!
        Agora a sério: fico sem resposta quando o meu neto mais velho me pergunta: Avô, porque é que usas bigode?) Então só me ocorre dizer-lhe: quando fores grande, também podes usar bigode. E lembro-me de que o meu avô, José Catarino, era o único homem de bigode que eu conhecia.

          1. Eanes surpreendeu-me. Mas fica-lhe bem. Dá-lhe, por estranho que pareça, um ar mais humano. Seria um bom motivo para deixar crescer a minha, não fora a comichão…

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