No domingo à noite, certamente sem a mínima intenção de ofender, Júlio Magalhães perguntou a Marcelo Rebelo de Sousa se “ainda tem” planos para o futuro. O professor, que estava a ser confrontado inesperadamente com o tema em directo na TVI, a propósito do seu 62º aniversário, admitiu que sim, sem se mostrar melindrado. Mas pus-me a pensar como esta pergunta, só pelo facto de ter sido feita num país onde a esperança de vida é cada vez maior, revela bem como andamos obcecados com o culto da juventude e da novidade – como é evidente, desde logo, nos ecrãs televisivos, onde os cabelos grisalhos de Marcelo são uma excepção à regra.
Como não ter planos aos 62 anos? Ainda na véspera ouvira Manoel de Oliveira, com 102 completados nesse dia, falar entusiasticamente nos projectos que tem em mente e espera ver concretizados. Estas declarações, por parte de quem integrou o elenco do primeiro filme sonoro realizado em Portugal e tem idade para ser avô de Marcelo, pareceram-me uma extraordinária lição de vida: é possível sonhar em qualquer idade.
Outra lição de vida deu-nos ontem Mário Soares, em entrevista ao jornal i. “Todos os dias tenho a sensação, quando me levanto, que é um dia novo para viver. E eu gosto da vida e de viver. Sempre pensei que tinha coisas a fazer. Às vezes demais. Nunca tive um dia em que dissesse: ‘Que aborrecimento! Hoje não tenho nada para fazer.’ Desde rapaz sempre tive coisas para fazer, interesses, curiosidades a satisfazer…” Palavras do ex-Presidente da República, que acaba de festejar o 86º aniversário.
Júlio Magalhães não necessita de perguntar a Soares se “ainda” tem planos…



Também reparei na pergunta feita a MRS, Pedro. Era bom que alguém com 20 anos fizesse a mesma pergunta ao pivot…
Eheheh. Teria graça, Joana. Aliás, isso acabará por suceder, mais cedo ou mais tarde.
Nunca ter um dia de aborrecimento, sem nada para fazer, é bem capaz de ser o segredo da longevidade…
Quando ouvi a pergunta nem quis acreditar.
Mas um dia de aborrecimento, de tédio profundo — há quanto tempo não tenho um! — pode ser muito criativo. Uma pessoa demasiado ocupada nem tem tempo para pensar (o que pode ser bom aos 82 anos, reconheço).
De facto, o tédio pode ser criativo. Ou não. Varia muito de pessoa para pessoa. O mais vulgar é haver quem confunda tédio com pasmaceira e vazio mental.
É isso mesmo Pedro, não se deve confundir tédio com pasmaceira. Acordar de manhã e pensar: “que aborrecimento, este dia vai ser tão chato como todos os outros, sem nada para fazer” é nocivo, é um mal de que, por exemplo, os desempregados de longa duração padecem.
Por outro lado, o stress também pode ser muito prejudicial. Mas, quando o Mário Soares diz que sempre teve coisas para fazer, penso que não se refere propriamente ao stress em que uma pessoa se vê cheia de trabalho, sem tempo para fazer aquilo que quer. Refere-se sim ao facto de ter objectivos na vida, coisas por que lutar (no bom sentido), que o mantêm ocupado.
Penso o mesmo. E – pelo menos nesta matéria – é um exemplo a seguir.
Não sei se já o revelei aqui.
O meu pai licenciou-se (Filosofia) há cerca de dois anos.
Tinha então 72.
Profissão que exerceu toda a vida?
Contabilista.
Planos para o futuro?
Continua a acompanhar as aulas porque está a ponderar a hipótese de tentar o Mestrado.
E eu estou chamar-lhe preguiçoso porque ainda não se matriculo nem começou a preparar a tese.
Uma revelação e um sorriso. É agradável ter notícia de pessoas que, como o pai do Pedro Coimbra, continuam a perseguir os seus projectos.
Sem dúvida, Sílvia. Um caso exemplar. Infelizmente, pouco frequente neste país onde a ‘terceira idade’ prefere ficar a contar os dias que faltam para a morte algures num banco de jardim.
Nos bancos de jardim e nos bancos da memória, do que passou.