Podem pensar o que quiserem. E até aplaudir a sua atitude. Porém, não poderia deixar de registar a perfídia que se revela na atitude de quem um dia conta a sua vida familiar nas páginas das revistas cor-de-rosa para num outro dia emitir um comunicado destes, aliás compreensível para qualquer pessoa normal. Afinal, a mesma pessoa que considera que os seus pagamentos à Segurança Social ou ao Fisco são matéria do foro privado, esquecendo-se de que é primeiro-ministro, para acabar, da forma mais espantosa, em antevéspera de eleições e depois de assinar um acordo de coligação, a trair a confiança do sócio que o mantém no poder e a autorizar a publicitação de pormenores de muitíssimo mau gosto sobre a doença da sua própria mulher, não a poupando à exposição pública que antes queria evitar. Outros primeiros-ministros colhidos pelo infortúnio da doença não agiram assim. Nem antes, nem depois.
O passado que era criticável, e que foi atempadamente por tantos criticado, com inteira razão, tem servido para tudo. Há quem aceite isso. Eu não penso assim. E acrescento que o esforço feito pelos portugueses para se cumprir o programa de ajustamento, tudo aceitando para não se desonrarem ainda mais, não pode servir para justificar o deboche que nesta pré-campanha é oferecido aos portugueses pelo seu primeiro-ministro para ganhar mais uns votos.
Quem ainda ontem criticava os maus exemplos de alguns mamíferos não pode agora ficar calado. Não pode simplesmente dizer Ámen. A não ser que se seja da mesma linhagem.

E é tudo para apoucar Passos? Fraco rebusco em vasto campo de ervas daninhas.
Eu nem sei o que dizer, isto é tão mau. E o futuro primeiro-ministro parece ser da mesma estirpe.
Este primeiro ministro é tão mau que perder-se tempo a falar-se dele, é tempo perdido. Quanto à coligação, existe para estarem no topo do topo porque infelizmente, nada fizeram nem fazem pelo país, a não ser enterrá-lo cada vez mais na penúria. É triste que para se estar no governo valha tudo, menos a dignidade.
Eu não vejo mau gosto absolutamente nenhum em ele divulgar a doença da mulher. Pelo contrário – aquilo que considero de péssimo gosto é a atitude usual dos portugueses, que procuram ocultar as doenças de que padecem ou os seus familiares padecem.
As doenças são factos naturais da vida, que enfraquecem as pessoas e que devem ser divulgadas. Não devem ser ocultadas. Não há vergonha nenhuma em estar-se doente ou em estar-se debilitado pela doença de um familiar.
Nest ponto como na generalidade dos outros, os portugueses são um povo de merda.
O problema não está em falar-se da doença da mulher, dos filhos ou de outrem, o problema, está em utilizar-se as doenças para se fazerem de mártires e coitadinhos e isto é o pão nosso de cada dia, o que é muito mau.
Subscrevo o que escreveu o Anónimo. Não tenho nenhum problema em ser do conhecimento público a doença da mulher do Primeiro-Ministro (já tinha ocorrido, aliás, com Guterres e com um desfecho trágico). E concordei plenamente com o pedido que fez Pedro Passos Coelho de respeitarem a sua intimidade. E, saíndo uma biografia, acho natural que se refira o episódio. Já o testemunha na primeira pessoa da senhora é francamente excessivo, cai mal, e não devia ser publicado num livro sobre o marido.
Mau gosto não é alguém, numa biografia, mencionar a doença de alguém que lhe é obviamente próximo. Mau gosto é, por exemplo, quando essa doença é noticiada nos jornais, haver amibas que comentam coisas como “É karma” ou “Pensas que só acontece aos outros” – ou muito piores.
Caro Sérgio, a perfídia nunca seria compreensível!! Perfídia!?!? Calibre lá a sua bússola! O meu caro comporta-se como um indigente, passo a explicar.
Por conhecimento pessoal, de muitas pessoas que me são próximas e familiares, e tudo para além ou contra a minha vontade, creia-me, percebi, compreendi, entendi, como quem entende intuitiva e metodicamente, é pelo menos assim que o posso entender, que há dois momentos distintos na batalha com o cancro, por quem por ele passa!!
No primeiro momento, o da declaração, o mundo e a vida reduzem-se a uma única palavra, de manhã à noite, contudo raramente pronunciada!! O cancro é o significado sem um significante autentico! O inominável para todos os circunstantes. Verdadeiramente, todos nos tornamos circunstantes, mesmo os mais próximos dos próximos!! Não se fala sobre o inominável! A doença, apesar de estar sempre presente na presença do doente, desaparece da comunicação. É um não assunto. A ninguém se confessa!
No segundo momento, se assim for admitido porque se não esgotou no primeiro, do pós guerra ou pós batalha, o derrotado é ostentado ao peito como insígnia de guerra!! É referido na segunda pessoa, como exorcizado. Apoteose!! Ascensão!! O cancro torna-se assunto, num misto de suplício vencido e de sobranceria infantil, rezando, contudo e secretamente, para que a morte venha com outras vestes que não aquela!! Há muitos e muitos fenómenos que relevam de cada indivíduo, especificidades e excepções à teoria geral que, da minha lavra, aqui exponho!!
E tudo isto para quê, questiona o caro Sérgio?
Porque não nos devemos debruçar sobre interpretações a confissões desta natureza. E muito menos com o proselitismo indigente que aqui emprega!!
Sinceramente, eu sei onde vejo perfídia!!
Volte a este seu texto mais tarde. Leia e releia.