Doze obras-primas dos museus de França (11)


Sérgio de Almeida Correia,

Tal como acontece como muitos outros grandes senhores da arte, Fernand Léger (1881-1955) fez de tudo um pouco. Ao longo da sua vida foi decorador, ceramista, autor de vitrais, escultor, desenhador, ilustrador e até cartoonista. Parte da sua obra relativa ao período entre 1902 e 1908 foi destruída pelo próprio, sendo que terá sido a partir desse anos e na sequência de uma retrospectiva dedicada a Cézanne, que teve lugar em 1907, que começou a ser decisivamente influenciado por este, para depois se aproximar do cubismo de Picasso e Braque. A procura do equilíbrio entre as formas, as linhas e as cores passou a ser uma constante. As suas formas geométricas ganham autonomia e dinamismo no espaço que lhes é destinado. Isso é particularmente visível num tema caro aos impressionistas e que se impôs na obra de vários artistas do seu tempo. O circo surge como um precursor dos grandes espectáculos de massas. Favorecido pela revolução industrial aparece de uma forma ou de outra nas obras de Degas, de Toulouse-Lautrec, de Picasso, Matisse, Seurat e outros. O circo, como Léger, explicou, foi o acontecimento da sua infância e permitiu-lhe, bem como aos seus contemporâneos, estudar o ritmo, o movimento e a cor. Chagall diria que o circo preenchia as suas horas nocturnas, ocupando o centro do seu quarto, de onde passou para as telas. O Circo Médrano (1918) é um reflexo de tudo isso e da influência que teve nessa geração de pintores, do envolvimento das formas e da cor, em especial da dinâmica do movimento em pequenos fragmentos de um espectáculo popular e moderno. Posteriormente, Léger, que em 1940 se exilou em Nova Iorque, onde vem a descobrir o circo Barnum no Madison Square Garden, com todas as suas pistas e espectáculos em simultâneo, dedicaria mais algumas telas à temática do circo (La danseuse bleue, 1930, Le jongleur et les acrobates, 1943 e Les acrobates en gris, 1942-44). No entanto, o Circo Médrano, uma metáfora da vida, ficaria como uma das suas obras de referência, a que não faltam o trapezista, o palhaço, o cão amestrado ou as bancadas.

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