Double standard


Pedro Correia,

Em Setembro, Joaquim Vieira era elogiado por ter denunciado com desassombro, enquanto Provedor do Leitor do Público, que a "claustrofobia democrática era uma realidade na redacção" daquele jornal. Quando estava em causa Cavaco Silva.

Em Fevereiro, Joaquim Vieira já é duramente criticado ("disparate", se li bem) e apontado a dedo por defender, com o mesmo desassombro, a "desobediência civil" dos jornalistas quando se trata de um assunto de relevante interesse público, que impõe o dever deontológico de imprimir a notícia. Agora está em causa José Sócrates.

Joaquim Vieira passa de herói a vilão, em menos de cinco meses, com o atestado de uma das vozes mais lúcidas entre as que se habituaram a defender o Governo na blogosfera. Nada que espante muito. O próprio Sócrates, em Novembro de 2004, proclamou na Assembleia da República que o então primeiro-ministro Santana Lopes devia explicações ao País a propósito da saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. "O primeiro-ministro deve uma explicação ao País e um pedido de desculpas ao País. Este episódio é indigno de um Governo democrático. É uma nódoa que o vai perseguir , declarou à época o secretário-geral dos socialistas. Que deve hoje muitas palavras de explicação ao País.

Alguém aí falou em double standard? Pois. É mesmo isso.

15 comentários em “Double standard”

  1. Apenas algumas observações:
    1. A defesa de Sócrates, em si mesma, não justifica a passagem de um atestado de menorizarão do discernimento e da lucidez de quem quer que seja – há quem o defenda com bons argumentos e há quem o acuse com péssimos argumentos;
    2. A forma como se defende ou acusa Sócrates ou qualquer outra pessoa, sim, pode justificar esse atestado. E, nesse sentido, a lucidez da blogger que refere tem sofrido alguns abalos;
    3. A blogger tem toda a razão, em meu entender, quando comenta a lista de bloggers que não aderiram à iniciativa (para quem vai a uma manifestação defender a liberdade, algumas alminhas têm uma noção muito caricata do que ela seja);
    3. Existem ‘double standards’ tanto em muita gente que defende Sócrates como em muita gente que o ataca (o que remete para a 1.ª observação);
    4. A passagem da intervenção de Sócrates na AR em 2004 é reveladora do carácter da figura;
    5. Espero(emos?) que Sócrates caia rapidamente, mas tremos ao pensar em quem lhe irá suceder.

        1. Sócrates esmagou o PS, rodeando-se de amigos imprestáveis que, pela falta de estatura moral e cívica, são os principais responsáveis pelo facto de Sócrates estar hoje reduzido a puré. Não há almoços grátis…
          Concordo que não há alternativa interna no PS. Sócrates foi o coveiro do PS, como já várias vezes afirmei. E concordo, também, que as alternativas dentro do PSD são iguais ou piores. Isso é que realmente me preocupa e consolida a ideia que estamos perante uma luta de gangs em busca de poder, a quem a política e o futuro do país pouco ou nada interessa.

    1. Não leu bem o que escrevi. Não questionei a lucidez de ninguém – nem é esse o meu estilo. Pelo contrário, elogiei a habitual lucidez da ‘blogger’ que V. defende nestas suas linhas.
      Para que conste, as acusações de “disparate e manipulação política”, referida implicitamente também ao autor destas linhas, partiu da referida ‘blogger’, por quem sempre manifestei a minha pública consideração. Se isso não é “um atestado de menorização do discernimento e da lucidez” não sei o que será.
      Recordo-lhe que comentei apenas a parte em que fui (in)directamente visado: a frase de Joaquim Vieira, que subscrevi e subscrevo. Não me pronunciei sobre qualquer outro tema incluído no ‘post’ em causa.
      Concordo com algumas coisas que V. escreve – nomeadamente quanto ao ‘double standard’ de muita gente que ataca Sócrates – e discordo de outras. Estamos aqui para isso. Sem debate a blogosfera não serviria para nada, como sempre acentuei e continuarei a acentuar.

      1. Caro Pedro Correia:
        1. A ideia de que eu defendo a blogger é sua. Isto não se divide em defender e atacar alguém; eu tento, nem sempre com sucesso, admito, analisar e, posteriormente, referir os pontos em que estou em acordo e os que estou em desacordo. Como é lógico, daí pode resultar uma apreciação global favorável ou desfavorável – eventualmente, neutra. No caso da blogger, não especifiquei, mas especifico agora: a apreciação global é desfavorável.
        2. Nem todos os meus pontos visavam o que V. escreveu. O seu ‘post’ serviu de ponto de partida para algumas considerações (ex.: critico que se listem os bloggers que não foram à manifestação e se tirem ilações dessa ausência, e certamente não é V. o visado pela minha critica, pois não fala disso no seu texto). Se não fui claro – eu penso que fui, mas posso estar enganado -, lamento.
        3. Se V. questionar a lucidez com que alguém aborda um determinado assunto, considero a sua atitude perfeitamente legítima – e eu, parecendo-me que V. o fez (acho que a parte final do 2.º parágrafo da sua resposta me dá razão), estava de acordo («… nesse sentido, a lucidez da blogger que refere tem sofrido alguns abalos»). Não considero legítimo questionar de forma global a lucidez de alguém, pelo que me abstenho de o fazer – e não disse que V. o fazia.
        4. Incrivelmente – porque não me fiz entender, V. não me entendeu ou ambas -, a apreciação global que faço do seu ‘post’ é favorável. Desnecessário será dizer que subscrevo integralmente a última frase da sua resposta.

  2. Assino por baixo, Pedro. Mas acrescento mais dois exemplos:

    Henrique Monteiro, director do Expresso, solidarizou-se com o jornal Sol, defendendo a publicação de informação obtida de modo ilegal (violação de segredo de justiça). Engraçado que o mesmo Henrique Monteiro se tenha recusado publicar o e-mail da Inventona de Belém, alegando estar a revelar correspondencia privada (dos jornalistas do Público) e as fontes dos colegas…

    O Correio da Manhã defende também a publicação da informação e critica a providência cautelar. Engraçado que o mesmo jornal se tenha recusado, tal como o Expresso, a publicar o e-mail do Público, alegando, tal como Henrique Monteiro, estar a publicar correspondencia privada.
    Octávio Ribeiro escreve hoje no CM que “o CM saúda todos os projectos jornalísticos livres, independentes e responsáveis. Todos os títulos que não recuam no dever de informar, vinculados à obrigação de não sonegar notícias relevantes.”
    Foi pena é terem sonegado o e-mail do Público…

    Abraço.

    1. Caro Ricardo,

      Compete a cada director de um órgão de informação avaliar, em dado momento, quanto à publicação de uma determinada matéria, ponderando devidamente o interesse público em questão. Esse é um direito inerente às funções mas – muito mais importante – é um dever deontológico. Esta matéria é de relevante interesse público, diga o que disser a ‘providência cautelar’ (expressão horrível). Tal como era de relevante interesse público a transcrição da correspondência privada entre dois jornalistas do ‘Público’, dada à estampa em Setembro pelo DN. Diferente seria se estivesse em causa, em qualquer circunstância, matéria da vida privada ou íntima de um cidadão, fosse ele o Chico dos Anzóis, o primeiro-ministro ou o Presidente da República.

      1. Precisamente Pedro. E o Expresso e o CM, perante dois casos quase iguais*, teve duas bitolas. Pergunto-me porque será…
        Abraço e bom fds.

        * Digo quase iguais, porque existe uma diferença: num caso, a informação publicada foi obtida atraves da violaçao da Lei, enquanto no outro, a informação foi obtida atraves da divulgaçao de um e-mail, que, no meu entender, nao estava abrangido pelo sigilo das fontes nem pela confidencialidade (quando é o proprio a enviar a terceiros)

  3. Pedro,

    Peço-te desculpa pela discordância, embora perceba o teu ponto de vista, mas há aí um equívoco, uma grave petição de princípio.
    Só se pode falar em double standard quando estão em causa realidades idênticas, de outra forma não há double standard.
    Não se pode comparar o caso Marcelo com o que se está a passar, sem deixar, evidentemente, de pôr em causa a reprovabilidade de ambas as situações.
    É que não convém misturar as coisas.
    Num caso temos um comentador afastado do ecrã por uma decisão da administração do canal televisivo devido, ou em resultado, de pressões de um membro do Governo ou dos receios do proprietário da estação. Neste caso tudo é público, conhecido, não envolve escutas, nem violações do segredo de justiça.
    No outro caso, temos uma (ainda não provada) tentativa de “silenciamento”, de algumas vozes ou linha editorial, “descoberta” pelo recurso a um crime ou com o atropelo das regras que todos aceitamos como fazendo parte da essência da democracia e do Estado de Direito.
    A única pergunta que há a fazer é se um crime pode ser justificado por outro, se tudo é legítimo ainda que feito em atropelo à lei?
    Se a lei está errada (eu penso que está) é preciso mudá-la. Se as manobras foram maldosas e canhestras (eu penso que foram) é preciso dá-las a conhecer. Se se os “gajos” são incompetentes (eu também penso que são e neste caso profundamente) é preciso “correr” com eles.
    Mas para tudo isto há regras, há princípios, há valores, pelo menos quando se aceita viver em democracia, quando se aceita as regras do Estado de Direito.
    Não podemos ser iguais a “eles” sob pena de ficarmos pior do que “eles”. E eu estou certo que não é isso que tu queres.
    Um abraço amigo,

    P.S. Como sabes, pelo que me conheces e tens lido de mim há muitos anos, o meu único dogma é a liberdade. Não devo favores nem benesses ao poder político ou a empresários, e sou insuspeito em tudo o que diz respeito ao que penso sobre o primeiro-ministro ou sobre o rumo do PS de há uns anos a esta parte.

    1. Muito bem, Sérgio. Com um ‘senão’, a meu ver: a violação do segredo de justiça não é necessariamente do(s) jornalista(s). Na posse da informação, compete a este(s) avaliar da relevância da matéria para o interesse público, à luz do dever deontológico de informar.

    2. Conheço bem a tua verticalidade e a tua coragem cívica, meu caro Sérgio. E não é de agora: é de há muito. Temos estado de acordo em muitas questões relevantes, como aliás se viu no DELITO durante a campanha eleitoral para as legislativas de Setembro. Neste caso as nossas opiniões não coincidem, mas respeito profundamente o teu ponto de vista. O meu, como deves entender, está em sintonia com a da esmagadora maioria dos responsáveis editoriais dos órgãos de informação, que transcrevo acima e a de camarads de profissão que muito respeito e considero, como o Joaquim Vieira e o Vicente Jorge Silva: é um ponto de vista que deriva das nossas obrigações deontológicas, como o João também já sublinhou nesta caixa de comentários. É uma opinião que mantenho neste caso como em qualquer outro análogo, seja quem for o visado. Já em Setembro não tive qualquer dúvida em defender o relevante interesse público das informações sobre a Presidência da República dadas à estampa pelo DN, violassem ou não um eventual direito à correspondência privada protegido pela lei. O valor da informação é quanto a nós, jornalistas, um valor superior sempre que estejam em causas questões de manifesto interesse público.
      Um grande abraço, sempre com amizade.

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