Um rapaz que tenha visto a mãe submeter-se ao pai talvez vá replicar o comportamento e exija da namorada o que nenhum ser humano deve exigir seja a quem for.
“Eu dou-te a liberdade para fazeres…” Há frases que são mortais e esta é reveladora do posicionamento face ao outro/a. Significa que aquela pessoa considera que, por estar envolvida numa relação amorosa, pode aprisionar e condicionar comportamentos, “certas liberdades”. Neste discurso cabe muitas vezes a palavra respeito e, como se sabe, o respeito implica liberdade, a tal que não se dá a ninguém e tão pouco se autoriza.
Ainda hoje conheço casais cuja relação não é paritária. Na maioria dos casos que conheço, são as mulheres que são desfavorecidas. Conheço maridos que controlam o smartphone da sua cara metade ou até mesmo a conta bancária. Conheço jovens que entendem que o namoro implica obrigações e até um dress code. “Vais assim à rua? Comigo não”. Também existe a variante do amuo que se presta muito a esta afirmação: “Tu é que sabes”.
Assim se fragiliza alguém, assim se destrói a auto-estima, assim se desvaloriza e diminui uma pessoa.
Uma relação amorosa digna desse nome impõe a ideia de compromisso, mas isso não significa deixar de se fazer o que se gosta e, muito menos, limitar a outra pessoa. Podia citar a tal canção do Sting, mas não vale a pena. Parece uma coisa óbvia. Insisto: não é.
“Tu não percebes que estás errada?” Talvez em tempos alguém entendesse a frase com candura. Não tenho como.
Importa educar os jovens na forma como se relacionam amorosamente. Importa dizer que o ciúme não é prova de amor, mas sim de posse. Que um namoro não é um ferro em fogo quente queimado no braço, como uma marca. Um casamento também não. As pessoas que se amam, confiam.

Em qualquer casal, penso eu, cada um deles gosta de exigir do outro que se vista de certa forma. Não é só o homem quem pede à mulher que se vista de certa forma. A minha mulher critica frequentemente a minha forma de vestir. A Patrícia está sempre de acordo com aquilo que o seu marido decide vestir?
a ideia de compromisso […] não significa deixar de se fazer o que se gosta e, muito menos, limitar a outra pessoa
Isto parece-me a modos que uma contradição. Se as pessoas se comprometem a fazer uma coisa, é porque fariam outra diferente caso não se comprometessem, o que quer dizer que ficaram com a sua liberdade limitada. Um compromisso significa a aceitação de uma limitação.
o ciúme não é prova de amor, mas sim de posse
Asneira. Como explica a Patrícia então o ciúme das crianças? O ciúme é um sentimento natural. Por exemplo, o meu filho mais velho é terrivelmente ciumento em relação ao mais novo.
As crianças competem pela posse, é inato, embora umas tenham mais propensão que outras. Posse do brinquedo, posse da mãe ou do pai, posse do espaço, posse da atenção. Não porque tenham noção de tal, apenas porque nascemos e durante os primeiros anos parte de nós tem as suas necessidades e vontades satisfeitas ao som do choro. A racionalidade ensina-nos a controlar essa falta de noção.
Não a todos, claro.
E não convém confundir aqueles casais que sugerem, mutuamente ou não, determinado vestuário por questões estéticas com os que o exigem por não se sentirem seguros com os olhares, hipotéticos ou reais, que os companheiros recebem.
Cara Patrícia, descreve situações que de facto existem e estão erradas. Conheço muitas mulheres que controlam o smartphone do marido/namorado, a conta bancária e mesmo o bolso das calças. Espiolham o facebook. E quando vão a casa dos pais/sogros também dizem “Vais assim?”.
Em relação ao dress code, sendo a realidade o que é, algumas roupas podem criar problemas – eu já disse essa exacta frase, “Vais assim à rua? Comigo não.”.
E não estou a ver o problema, ou o erro. Eu também tenho a liberdade de não ouvir coisas como “Tu ouviste o que aquele tipo disse? E o que é que vais fazer a respeito disso?” – e porque é que EU tenho de fazer seja que for? Ha.
Excelente comentário. Muito bem.
Conheço muitas mulheres que controlam o smartphone do marido/namorado
Ora bem. A minha mulher vai regularmente ao meu telemóvel ler os SMSs que recebi. E eu nunca mexi no telemóvel dela.
“Vais assim à rua? Comigo não.”
Uma frase que a minha mulher volta-e-meia me diz. Na praia, não quer que eu use calções de banho justos (como aqueles que as mulheres usam, ao fim e ao cabo), exige que use uns calções compridos e largis, que são incómodos para nadar.
Não tem que fazer nada, ou pode responder exactamente isso que disse aqui. Mas depois não tem chão para condicionar a roupa usada, e talvez isso o faça morder a língua – uma espécie de equilíbrio pela negativa.
Há a roupa do “comigo, não!” porque esteticamente é desagradável ou inadequada ao evento ou ao local; e há a roupa do “comigo, não!” porque quem o profere se enfurece ou intimida com os olhares que o companheiro recebe – e isto acontece por noção de posse ou de insegurança. Ou ambas.
Compete a cada casal tentar perceber qual é qual, e a cada indivíduo compete perceber as suas implicações. Porque todos os cúmulos começam com pequenos passos, embora nem todos os passos conduzam a cúmulos.
A quem se importa, compete debater e esclarecer e ajudar quem precisa, elas e eles.
A minha mulher não aceita que eu vá para a praia com ela vestindo um calção de banho justo, que ela designa como uma “tanga” e considera terrivelmente “ordinário”. A Patrícia acha que devo fazer queixa dela por violência doméstica?
A Patrícia não sei, mas eu aconselho o Luís a ir de tanga; à sua esposa, que assobie para o ar e finja que não o conhece, que isto de liberdade no vestir também passa por cada um passear as figuras que quer.
Mais uma vez contradições e mistura de intensidades e escalas.
Quem se ama é obviamente menos livre.
No fundo defende o amor tecnocrático.
“Tu não percebes que estás errada?” o que tem esta frase de especial além de poder ser empregue em vários contextos…?
O problema começa quando as pessoas não se amam – não conseguem amar os outros.
“Podes ir, eu não me importo de ficar a ver televisão”. “Como?????”
Por vezes as palavras são utilizadas quase sem que quem as use atente no seu real significado. Por hábito, por ouvir os pais, os avós, os tios – os e as. Há os que nem notam e há os que com o tempo usam o peso das palavras a seu favor.
Prevenir também passa por reeducar, por limar estes hábitos nascidos da desigualdade e da posse.
As palavras podem fazer nódoas negras se deixarmos.
A questão do compromisso, na vida real resume-se a isto:
Um gostaria de ter um Nissan Juke laranja, outro gostaria de ter um Opel Astra azul. Chega-se a um compromisso, um Golf cinza. E todos os dias andam ambos num carro que não agrada a nenhum. E isto vai desde a cor das paredes ao nome dos filhos.
Compromisso numa relação é a arte de criar uma vida onde nenhum encaixa.
Noto que este post tem poucos comentários. É bom sinal. Agora que a histeria acalmou talvez se possa trabalhar a sério nos problemas. O primeiro é o mito que algumas senhoras criaram de que os homens são todos umas bestas que passam o dia a beber e assediar, e chegam a casa e têm à espera uma família adorável e uma mulher dedicada com o jantar na mesa a casa num brinquinho, e as pernas abertas. Esses homens que quando atingem posições de grande poder, como servente de pedreiro, usam e abusam dele contra mulheres indefesas.
A vida não é automáticamente boa para os homens. Vejo o meu vizinho da frente bater tapetes e aspirar todos os fins de semana, o do lado a estender roupa, e eu sou “single father” de dois adolescentes. Ainda não ouvi nenhum chamar a isso escravidão. É a vida.
As mulheres querem igualdade, nem que seja à força de quotas. Oxalá consigam, gostava sinceramente de discutir mecânica com uma senhora de fato-macaco sujo de óleo. Infelizmente nas oficinas as senhoras estão sempre em gabinetes a receber os pagamentos.
Também gostava de entrar numa Zara ou numa Sephora e ser atendido por um homem – sempre teria conversas mais informadas sobre after-shave e cueca vs boxers.
As mulheres têm todo o direito de se queixar, mas serem queixinhas não é bonito. E queixinhas é o que se tem visto mais.
Fui criado pela minha mãe e pela minha avó. O meu pai começou a asneirar e acabou com as malas à porta, não houve queixinhas nem compromissos. Talvez por ter sido educado assim nunca vi as mulheres como fracas ou indefesas. Talvez por isso despreze muitas das que se queixam por tudo e por nada, e que querem todo o melhor à força de leis.
Calhou-me ser homem, e nem por isso tenho uma vida fácil. Não gosto quando algumas mulheres começam com tretas do género “os homens isto”, e “os homens aquilo”. Não somos todos iguais.
Não somos todos iguais.
E sim, não existe “os homens” e “as mulheres”, como se de dois seres únicos falássemos.
Há reivindicações justíssimas e há reivindicações mesquinhas.
Mas há também uma herança cultural pesadíssima que sempre carregou nos ombros das mulheres.
Gostaria de ver mulheres nas oficinas? Nas aulas práticas de Motores não era raro ouvir o professor chamar os colegas “para que as meninas não sujem as mãos”. As estudantes fizeram queixinhas ao professor em causa e mais tarde ao chefe de Departamento. Isto há 25 anos.
Os prontos-a-vestir e sapatarias que frequento têm todos homens e mulheres. Mas conheço quem procure funcionários homens e mulheres para pronto-a-vestir e em quase 10 anos tenha tido apenas um candidato, apesar dos salários e prémios acima da média.
“É a vida”. É. De todos os homens solteiros e de talvez 10% dos casados/unidos com mulheres, porque de todos os casais que conheci e conheço conto pelos dedos de uma mão os que partilham realmente as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos. Metade, talvez, “ajuda”, como dizem – mas ajudar é aliviar a carga de outro, portanto continuam a entender, eles e elas, que a obrigação é delas. A verdade é que destes casais eles têm tempo para trabalhar até mais tarde e chegarem estafados e a precisar de descanso, mas quando são elas que o fazem chegam a casa numa pilha de nervos porque ainda têm roupa para passar ou outra coisa qualquer para fazer e só ficam estafadas no fim-de-semana, se conseguirem tempo para isso entre as actividades dos miúdos, a organização da casa (que para a maior parte inclui a limpeza, os maridões) e o trabalho que levam para casa; alguns deles resmungam, mas só sei de uma que pede desculpa “por se ter atrasado” – embora avise sempre o marido. Não será escravidão, apenas um segundo emprego mas não remunerado.
Um pai casado que falte para ir à reunião de professores é visto como um pai responsável; uma mãe casada não faz mais do que a sua obrigação.
E depois temos os tribunais de menores que acham quase sempre que as crianças, independentemente da idade, ficam melhor com a mãe porque “mãe é mãe”, como se o cromossoma X duplicado conferisse automaticamente capacidades parentais superiores.
E temos os homens vítimas de assédio que se queixam a serem uns “maricas queixinhas”. E as mulheres ou umas “putas” ou umas “vítimas” automáticas, conforme os hospitais, as esquadras, os tribunais – os judiciais e os da santa inquisição popular.
Tudo fruto de séculos em que as mulheres não foram queixinhas ou, se o foram, foram-no em voz muito baixa.
Igualdade de direitos não é só para as mulheres, e se há as que usam as “queixinhas” para conseguir mais do que igualdade de direitos, também há os e as que usam essas queixinhas para ridicularizar todas as outras e com isso oferecerem menos.