
Há algumas semanas não só uma qualquer dignitária da Comissão Europeia como, depois, o próprio presidente francês, Macron, enviaram públicas mensagens de apreço ao nosso primeiro-ministro. Em período pré-eleitoral pareceu um bocado intromissão externa. Nada de particularmente grave, por mais que nos queixemos a democracia portuguesa vai um bocado adulta (já trôpega?) e resiste a uns floreados metediços. Talvez por isso deu para este (e outros?) velhadas sorrir(em?), na memória do vero slogan “dos tempos”, aquele do “meu amigo Miterrand”, com o qual Soares capitalizava o apreço que no estrangeiro por ele tinham, aquilo do “A Europa connosco”, em particular a sacrossanta França, a sempre Pátria de Victor Hugo, como nos ensinou e ainda ensina aquele (de facto reaccionário) Eça de Queirós.
Mas esta “aisance” (assim mesmo, na língua de Gambetta) não foi universal. Li vários patrícios algo ofendidos com o atrevimento francófono e europeísta, isso de aparecerem políticos estrangeiros a congratularem o (de facto malvado) António Costa. Patrícios esses que nos chegam doutores e praticantes da opinião política, nos por enquanto órgãos de comunicação social e nas fervilhantes “redes sociais”.
Acalmado que foi o período eleitoral esquecidos foram esses momentos. Entretanto Trump vai à Grã-Bretanha, celebrar o 75º aniversário do heróico Dia D. No caminho diverte-se a pontapear o Medina londrino, a celebrar o André Ventura lá do sítio e a propor a liderança daquele antigo estudante da Escola Europeia de Bruxelas (quereis compreender o anti-europeísmo do rapaz?). Qual a reacção dos nossos patrícios, mui liberais, veementes direitistas? Ei-los nas redes sociais congratulando-se com a bela posição do presidente americano.
A gente não tem que ser coerente (na realidade até nem o deve ser). Mas para quem anda, até arisco, a botar sobre política, a publicar livros-manifestos, a abrir partidos, a propor novos caminhos, renovar e regenerar o envelhecido degenerado, convirá ter alguma … consistência. Um bocadinho, pelo menos. É que, em não a tendo, o pessoal depois não vai votar nestas “novidades”.

Entretanto, e só para aqueles mais conservadores, ligados aos valores patrióticos, de sacrifício pelo bem comum: utilizar a celebração deste tipo de heroísmo extremo para “mandar bocas” aos medinas alheios é mesmo sinal de pequenez. Reconhecível, excepto pelo mentecaptismo liberalóide.

Boa Posta!!
Muitos se congratulam com o facto de, em Portugal, ainda não existir um partido de extrema-direita no Parlamento, ao contrário do que acontece em muitos países europeus. Pois eu, ao ler o que se escreve nas redes sociais, admiro-me que isso ainda não tenha acontecido. Mais uma contradição deste nosso jardim…
Cristina, em Portugal somos demasiado preguiçosos para o jogo democrático…fundar partidos, ler programas, votar…náaaa. Por essa razão damo-nos tão bem com as ditaduras, os Homens providenciais. Nestas não precisamos de pensar, ler, ouvir. Apenas necessitamos de obedecer – também por esta razão nos damos tão bem quando vamos montar vida, aí para fora. Houvesse um golpe de Direita, e ninguém mexeria uma palha. A Democracia em Portugal está madura para a Ditadura.
“Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa… Tá bem, essa merda da Pide pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, hã? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, hã? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, hã? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada!”
Não há dúvida de que a ideia de um governo autoritário, que dá a impressão de ter tudo sob controlo, atrai muita gente.
Quem da direita dita liberal se congratulou com o que disse Trump?
Hoje em dia, todos ou quase, na Europa, se metem com o que se passa noutros países, sobretudo quando os acontecimentos não lhes agradam. Muitos criticam essas intromissões, sobretudo quando elas não lhes agradam. É assim, ponto.