Dois deputados que deixaram saudades


Pedro Correia,

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O 25 de Abril fez-se para fundar uma democracia representativa em Portugal, sufragada pelo voto universal e livre dos cidadãos. Mas raras vezes, ano após ano, vejo homenagear esse órgão concreto da democracia – com o qual tantos sonharam durante gerações – que é a Assembleia da República, símbolo supremo do nosso regime constitucional.

Espero que este lapso seja corrigido e que em 25 de Abril de 2024, quando a Revolução dos Cravos comemorar meio século, possam ser homenageados 50 deputados, de diferentes partidos. Deputados que nunca foram ministros nem secretários de Estado nem presidentes de câmara nem presidentes de governos regionais: apenas deputados. Seria uma excelente forma de assinalar a instituição máxima da democracia portuguesa.

 

Fui repórter parlamentar do Diário de Notícias durante cinco anos e, nessa qualidade, tive o privilégio de conhecer competentíssimos deputados em todas as bancadas. A pretexto do 25 de Abril, quero distinguir dois desses parlamentares que conheci pessoalmente: Maria José Nogueira Pinto e João Amaral. Ela claramente de direita, ele inequivocamente de esquerda.

Em legislaturas marcadas por fortes combates políticos, nenhum dos dois alguma vez cessou de tomar partido, envolvendo-se convictamente no confronto de ideias que é função cimeira do órgão parlamentar: sabia-se ao que vinham, por que vinham, que causas subscreviam e que bandeiras ideológicas sustentavam. Mas também sempre vi neles capacidade para analisar os argumentos contrários, com elegância e lealdade institucional, sem nunca deixarem as clivagens partidárias contaminarem as saudáveis relações de amizade que souberam travar com adversários políticos.

Porque a democracia também é isto: saber escutar os outros, saber conviver com quem não pensa como nós.

 

Lembro-me deles com frequência. Como me lembro das sábias palavras que Giorgio Napolitano proferiu em 2013, ao tomar posse no segundo mandato como Presidente italiano. «O facto de se estar a difundir uma espécie de horror a todas as hipóteses de compromisso, aliança, mediações e convergência de forças políticas é um sinal de regressão», declarou neste notável discurso Napolitano, que aos 97 anos ainda é um dos políticos mais respeitados da turbulenta e caótica Itália.

Palavras que deviam suscitar meditação entre nós. Palavras que a conservadora Maria José Nogueira Pinto e o comunista João Amaral decerto entenderiam – desde logo porque sempre souberam pôr os interesses do País acima de tacticismos políticos.

Quis o destino, tantas vezes cruel, que já não se encontrem fisicamente entre nós. Mas o exemplo de ambos perdura, como símbolo de convicções fortes que – precisamente por isso – são capazes de servir de cimento para edificar pontes. E talvez nunca tenhamos precisado tanto dessas pontes como agora.

30 comentários em “Dois deputados que deixaram saudades”

  1. Quem tem desrespeitado o jogo democrático e os acordos de cavalheiros implícitos em muitos processos da vida parlamentar é o PS — sobretudo desde que Costa conquistou o poder. A responsabilidade da degradação da vida democrática — tal como da vida real dos portugueses — é sobretudo dele e do seu partido.

    1. Este texto deliberadamente passa ao lado das tricas políticas actuais.
      Não é terreno para onde me apeteça ir hoje.
      Até pelo respeito que me merece a memória destes dois excelentes deputados, que tive o privilégio de conhecer bem.

  2. Maria José Nogueira Pinto foi vereadora da CML e João Amaral foi Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa.

    1. Maria José Nogueira Pinto foi subsecretária de Estado da Cultura.
      A ideia é homenagear vivos, não mortos. Mas vivos que tenham praticado valores de tolerância que estas ilustres figuras da nossa democracia parlamentar tão bem corporizaram, cada qual a seu modo.

      1. Então não percebo:
        “Deputados que nunca foram ministros nem secretários de Estado nem presidentes de câmara nem presidentes de governos regionais: apenas deputados”

  3. “Porque a democracia também é isto: saber escutar os outros, saber conviver com quem não pensa como nós.”
    Excelente homenagem aos que que conseguem ver para além da camisola que vestem.

      1. Se os Papuas viessem para cá… Estou mesmo a ver o Balio com um saco peniano e a adoptar a sua língua gutural, com tatuagens a um deus-tartaruga no rabo. Daquelas feitas com seiva das árvores de borracha. É uma imagem tenebrosa.

  4. Homenagear os que já faleceram é fácil… bem mais difícil será homengear aqueles que ainda estão vivos.

      1. Se calhar é mais fácil organizar uma homenagem deste género fora do Parlamento, uma vez que aí os ânimos andam e andarão exaltados, até ver. O Presidente da República poderia elaborar uma lista e chegar a um consenso com o Parlamento, mas se calhar não temos homem para isso.

          1. Considerando que o nosso presidente gosta de distribuir medalhas e comendas, não via mal que, na comemoração do 25/4, fossem homenagiados 50 deputados tidos por exemplares, de todas as cores se possível. Mas quem poderá, então, encarregar-se de elaborara tal lista?

  5. Nunca houve tanto facciosismo como agora, nunca houve tanto desinteresse por essa coisa tão insossa como o consenso. E no entanto sem isso só é possível governar para o curto prazo. As redes sociais vieram agravar muito mais esta tendência para as pessoas se organizarem (pensamento incluído) e distribuírem por silos. Não acaba bem.

    1. Nem é preciso sair desta caixa de comentários para perceber isso, Teresa. O discurso do ódio está cada vez mais à superfície.
      A coberto do anonimato que a Net propicia a qualquer cobarde.

  6. Verdade! Dois deputados a lembrar com Saudade. Trabalhei na S.C.M.L,onde a Dra. Maria José foi Provedora. Bom trabalho. João Amaral apesar das suas convicções políticas, era uma pessoa empática.

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