DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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José Navarro de Andrade: «O 25 de Abril, por mais que haja quem o incomplete em lamentos, o nosso foi afinal podermos ter crescido assim, foi terem-nos sido permitidas, pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos, todas as tropelias em que alegremente nos empenhámos. Queríamos mudar o mundo, e a verdade é que contribuímos para mudá-lo, mas não assim como pensávamos, porque foi em preservá-lo tal como o habitámos que o mudámos realmente.»

 

JPT: «Já é noite, avançada até, oito e tal, subo os corredores da faculdade para a última aula do dia. Vou como vou, a gripe voltou, a telha mantém-se, longa, ríspida, como sempre o é, neste amarfanhar do trapo. Pior, serão pormenores mas tanto moem, reparo agora que tenho uma enorme mancha na camisa, café decerto, mas não tenho tempo para me mudar, vou assim aparecer diante dos alunos, qual ogre abatido. Cruzo uma colega, saúda-me, arranjo alento – esse que falta quando só – para umas palavras sorridentes. Simpática, felicita-me pelo dia, “25 de Abril”, lamenta-me, companheira, por não gozar o meu feriado, mas para logo mudar, como se até arrependida, “bem, mas para ti o 25 de Abril não é nada! tu não és disso!“, qualquer coisa assim …. Fico gelado, transido, balbucio qualquer coisa como “então …?”, ou nem mesmo isso, e sigo trôpego para a sala, maçar quem me espera com qualquer coisa tão distante, umas quaisquer ideias de XIX, e antes de lá chegar ainda penso “que terei eu dito?, algum dia?, para ouvir isto?”»

 

Eu: «Estamos no reino da ficção, mas convictos de que esta se entrelaça muitas vezes com o real, enquanto testemunho de uma época ou reflexo de um avassalador impulso existencial. À semelhança do que Steiner disse sobre Hamlet, como sublinha também Vieira Amaral, “as grandes personagens de ficção são mais reais do que nós”. Partilhei inesquecíveis horas da minha vida com algumas delas que aqui reencontro de forma inesperada – e, até por isso, ainda mais gratificante. A dilacerada Clarisse de Domingo à Tarde (Fernando Namora, 1961), recriada por Isabel de Castro na magnífica adaptação cinematográfica de António de Macedo, expoente do efémero ‘Cinema Novo’. A irresistível Léah, do conto homónimo de José Rodrigues Miguéis, um dos meus autores de eleição, tão injustamente esquecido. A esfuziante Madalena d’ A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis, 1868). Há quanto tempo as não via…»

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