Do princípio ao fim (29)


escafandro,

(O Pedro Correia encerrou oficialmente esta série há pouco mais de uma semana. Não desejo reabri-la, mas não tive coragem para apagar este texto, alinhavado em meados de Novembro.)

 

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Saio dos melhores livros de Virginia Woolf com uma sensação de plenitude. Não recordo uma história, mas sei que o livro fez sentido. Cada frase, cada parágrafo, contribuiu para uma imagem global – e, neste caso, o termo «imagem» não é aleatório – que nenhuma sinopse tem o poder de encapsular. As melhores páginas de Virginia Woolf têm a lógica de uma melodia ou – cá vamos novamente – de uma pintura. Isto não acontece por acaso: Woolf deixou apontamentos que mostram a intencionalidade do efeito. Em The Waves (um livro difícil), a estrutura esforça-se por replicar os padrões do pensamento humano. Em Mrs. Dalloway e, acima de tudo, em To the Lighthouse (Rumo ao Farol), a intenção é mesmo replicar o efeito de uma pintura, na qual os detalhes podem revelar génio bastante para que se pare a analisá-los, mas onde acima de tudo interessa a sensação geral, frequentemente obtida aumentando a distância em relação à tela, num efeito similar a tantos acontecimentos na vida humana. A intenção é tão explícita que Lucie Briscoe, uma das personagens, vai realmente pintando um quadro enquanto observa o que se passa. No parágrafo final, termina-o. Encontrou uma imagem que, podendo não ter interesse nem fazer sentido para qualquer outra pessoa (ou até mesmo para ela, noutro instante), podendo transmitir uma mensagem difícil de aceitar (a da inutilidade da vida, por exemplo), fecha algo; permite um momento de compreensão. E não apenas todos os bons finais são momentos de compreensão como momentos de compreensão são tudo o que se pode desejar de uma pintura, de um livro, da vida.

 

Quickly, as if she were recalled by something over there, she turned to her canvas. There it was – her picture. Yes, with all its greens and blues, its lines running up and across, its attempt at something. It would be hung in the attics, she thought; it would be destroyed. But what did that matter?, she asked herself, taking up her brush again. She looked at the steps; they were empty; she looked at her canvas; it was blurred. With a sudden intensity, as if she saw clear for a second, she draw a line there, in the centre. It was done; it was finished. Yes, she thought, laying down her brush in extreme fatigue, I have had my vision.

(Lamento, mas não tenho uma versão em português.)

20 comentários em “Do princípio ao fim (29)”

  1. Também terminei o livro recentemente e achei-o brilhante.
    De cor retive isto:
    ‘…for it was not knowledge but unity that she desired, not inscriptions on tablets, nothing that could be written in any language known to men, but intimacy itself, which is knowledge…’

    1. Brilhante é o termo certo. E, lá está, a intimidade – ou talvez a plenitude – é um conceito difícil de colocar em palavras mas que toda a gente consegue perceber – como uma pintura ou uma música que, por alguma razão, fazem sentido.

  2. Ahahah, anda tudo a ler em Inglês. O Português fica para o futebol e o “subir rápido” e o “ir de encontro” e o “mais que” dos populares e dos “festivaleiros”. E p’ró PM e p’ró Lavoura. Ainda bem. O mundo é muita lindo.

    1. Leio em inglês há muitos anos. Mas é verdade que, desde a disseminação dessa praga que constitui o AO pela maioria das editoras nacionais, o faço mais frequentemente. Ainda assim, permita-me acrescentar que, se não tenho Rumo ao Farol em português, tenho Mrs. Dalloway em ambas as línguas; e que a versão em inglês é melhor.

        1. Não. É péssima. Sobretudo para ele. É menos uma Bíblia que me vende a mim e suponho que a muitos outros agora ex-interessados.

          1. V, deixe lá isso. Leio-a agora. Sublime, mas também frustrante. Jesus não tem só amor para dar. Amputações também lá estão. E quanto às mulheres?
            Roma tem razão. É um trabalho dos diabos isto de conseguir bilhete para a 1ºfila

          2. Não deixo não. Com o AO e seus seguidores não concedo nem um milímetro. Só pancada.

          3. Muito católico, esse comentário. Faz bem em a não ler, mas por outros motivos.

          4. Ser-se católico não implica que se seja parvo — é ser sobretudo ser-se contra o que é mau. Aliás, não sou católico, sou cristão apenas. Daqueles de espada e de armadura.

          5. Ser-se Cristão é confessar-se criança. Ser-se parvum, julgar-se pequeno. Tem de trabalhar a humildade.

          6. Verdade verdadinha não consigo deixar de ser pagão: só acredito em árvores, montanhas, gnomos e nevões. Mas isso é outra história.

          7. Mas com AO ou sem AO pelo que percebi o texto da nova edição é em prosa? Nah. Acho que teria mais interesse se se mantivesse o formato poético original (?). Assim soa um bocado a versão para jovens e crianças como fazia Andrew Lang com os clássicos na época do chá e dos scones.

      1. Tenho algures 2 livros de VW que nunca li não sei porquê. Mas gostei da sua recensão e vou procurá-los para ver se é desta. Creio que um deles é precisamente To The Lighthouse. Mas tenho dificuldade em ler livros hoje em dia — qualquer coisa que a “net” ou o “espírito do tempo” transformaram radicalmente, já não sinto a mesma tranquilidade ou apelo. A verdade é que com os computadores passamos o dia inteiro a ler isto e aquilo e sei lá mais quê. Se calhar é disso.

  3. Lembro-me de ler Virginia Woolf, ao mesmo tempo que me dedicava à poesia. Rezava assim, na altura:

    MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO, de Luiz Pacheco

    I
    Acordei um triste dia
    Com uns cornos bem bonitos.
    E perguntei à Maria
    Por que me pôs os palitos.
    II
    Jurou por alma da mãe
    Com mil tretas de mulher
    Que era mentira. Também
    Inda me custava a crer…

    III
    Fiquei de olho espevitado
    Que o calado é o melhor
    E para não re-ser enganado,
    Redobrei gozos de amor.
    IV
    Tais canseiras dei ao físico,
    Tal ardor pus nos abraços
    Que caí morto de tísico
    Com o sexo em pedaços!

    V
    Esperava por isso a magana?
    Já previa o que se deu?…
    Do além vi-a na cama
    Com um tipo pior do que eu!
    VI
    Vi-o dar ao rabo a valer
    Fornicando a preceito…
    Sabia daquele mister
    Que puxa muito do peito.

    VII
    Foi a hora de me eu rir
    Que a vingança tem seus quês:
    «O mais certo é práqui vir,
    Inda antes que passe um mês».
    VIII
    Arranjei-lhe um bom lugar
    Na pensão de Mestre Pedro
    (Onde todos vão parar
    Embora com muito medo…)

    IX
    Passava duma semana
    O meu dito estava escrito
    Vítima daquela magana
    Pobre tísico, tadito!
    DUETO DOS 2 CORNUDOS

    X
    Agora já somos dois
    A espreitar de cá de cima
    Calados como dois bois
    Vendo o que faz a ladina
    XI
    Meteu na cama mais gente
    Um, dois, três… logo a seguir!
    Não há piça que a contente
    É tudo que tiver de vir!

    S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
    XII
    – É de mais!… Arre, diabo!
    – Berra S. Pedro, sandeu.
    –E mortos por dar ao rabo
    Lá vêm eles pró Céu!

    CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
    NAS VOZES
    XIII
    Que morre como um anjinho
    Quem morre por muito amar!

    CORO, AGORA NARRATIVO
    OU EXPLICATIVO.
    Já formemos um ranchinho
    De cá de cima, a espreitar.

    XIV
    Passam meses, passa tempo
    E a bela não se consola…
    Já semos um regimento
    Como esses que vão prá Ingola!
    (ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
    «COITADINHOS!»)

    XV
    Fazemos apostas lindas
    Sempre que vem cara nova.
    Cálculos, medidas infindas
    Como ela terá a cova.
    XVI
    Há quem diga que por si
    Já não lhe topou o fundo…
    Outros juram que era assi
    Do tamanho… deste Mundo!

    XVII
    – Parecia uma piscina!
    –Diz um do lado, espantado.
    – Nunca vi uma menina
    Num estado tão desgraçado!
    APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).

    XVIII
    (Um estado tão desgraçado?!…
    Pareceu-me ouvir o Povo
    Chorando seu triste fado
    nas garras do Estado Novo!)
    XIX
    O último que chegou cá
    Morreu que nem um patego:
    Afogado, ieramá,
    Nos abismos daquele pego.

    O CORO DOS CORNUDOS,
    ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
    ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
    LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
    E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
    XX
    Mulher não queiras sabida
    Nem com vício desusado,
    Que podes perder a vida
    Na estafa de dar ao rabo.

    XXI
    Escolhe donzela discreta
    Com os três no seu lugar.
    Examina-lhe a greta,
    Não te vá ela enganar…
    XXII
    E depois de veres o bicho
    E as maneiras que tem
    A funcionar a capricho,
    Já sabes se te convém.

    XXIII
    Mulher calma, é estimá-la
    Como a santa no altar.
    Cabra douda, é rifá-la…
    – Que não venhas cá parar.
    XXIV
    Este conselho te dão,
    E não te levam dinheiro…
    Os cornudos que aqui estão
    Com S. Pedro hospitaleiro.

    XXV
    Invejosos quase todos
    Dos conos que o mundo guarda
    FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
    NOTA DO AUTOR: QUASE,
    PORQUE ENTRETANTO
    ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
    RABOLICES!
    Mas se fornicas a rodos
    Tua vinda aqui não tarda!

    RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
    ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
    ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
    DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
    VOZES PASTOSAS.
    DEVE LER-SE: VIIINHO…VÉLHIIINHO…

    XXVI
    Melhor que a mulher é o vinho
    Que faz esquecer a mulher…
    Que faz dum amor já velhinho
    Ressurgir novo prazer.
    FINALE, MUITO CATÓLICO.

    XXVII
    Assim termina o lamento
    Pois recordar é sofrer.
    Ama e fode. É bom sustento!
    E por nós reza um pater.~

  4. Fizeste bem em retomar a série, José António. E logo pela minha escritora favorita (não tenho muitas, confesso). De resto o meu “encerramento” era um balanço, não um cadeado. Pelas suas características, esta rubrica nunca pode declarar-se definitivamente fechada.
    Haverá pelo menos mais um texto, até porque eu gosto de números redondos. Isto significa que o n.º 30 vem a caminho, escrito seja por quem for.

  5. Woolf é sublime, Pedro. Quanto à série, estás à vontade para arredondar o número. Eu vou ficar por aqui – e acho que, se um dia escrever outros textos sobre o assunto, abordarei inícios e finais de livros pouco conhecidos. Por exemplo, este início, de um livro também escrito por uma mulher e que também mete um farol:

    My mother called me Silver. I was born part precious metal, part pirate.
    I have no father. There’s nothing unusual about that, even children who do have fathers are often surprised to see them. My own father came out of the sea and went back that way. He was crew on a fishing boat that harboured with us one night when the waves were crashing like dark glass. His splintered hull shored him for long enough to drop anchor inside my mother.
    Shoals of babies vied for life.
    I won.

    Lighthousekeeping, de Jeanette Winterson.
    https://prl9ebsc.wordpress.com/2011/06/11/a-menina-do-farol-de-jeanette-winterson/

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