Do princípio ao fim (11)


Pedro Correia,

«Assim, na América, quando o sol se põe e me sento no velho molhe desmoronado do rio a contemplar os céus infindáveis por cima de New Jersey e tenho a percepção de toda aquela terra bruta que rola num único bojo enorme e incrível até à Costa Oeste, e toda aquela estrada a avançar, todas as pessoas que sonham na sua imensidão, e sei que a esta hora, no Iowa, as crianças devem estar a chorar na terra em que deixam as crianças chorar, e esta noite as estrelas serão visíveis, e não sabem que Deus é o Urso Pooh? a estrela vespertina deve estar a curvar-se e a irradiar a sua pálida claridade cintilante sobre a pradaria, o que acontece mesmo antes do cair da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, dá a forma de concha aos cumes e envolve a derradeira margem, e ninguém, ninguém sabe o que vai suceder seja a quem for, além dos trágicos farrapos do envelhecer, penso em Dean Moriarty, penso até no Velho Dean Moriarty, o pai que não chegámos a encontrar, penso em Dean Moriarty.»

estrada[1].jpg

 

Há quem não goste. Eu, pelo contrário, gosto muito. Li-o na década de 90 (edição Relógio d’ Água, com tradução de Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato), tempo de múltiplas mudanças, e senti-me transportado em milhares de quilómetros de asfalto e alcatrão reflectidos naqueles frenéticos parágrafos de Jack Kerouac e da sua escrita automática. Produzida por um viajante que nunca teve carta de condução.

Digressão sem freio pela América profunda, jornada iniciática ao fim de tantas noites coroadas em nebulosas madrugadas, banho lustral de travessias e transgressões imitado até à náusea por batalhões de escritores sem talento, On the Road é um romance singular, que tem como personagens um bando de nómadas à deriva, peregrinos sem rota nem mapa, desenraizados numa era em convulsão, geração beat ao som das batidas do jazz, os primeiros jovens da idade atómica.

Apostado em escrever apenas sobre aquilo que vira com os seus olhos, Kerouac – que até aos seis anos só falou francês com os pais, imigrantes do Quebeque em Massachusetts – é o herdeiro do melhor realismo norte-americano: aquele que se faz à estrada e transforma a rudeza do quotidiano em material romanesco de excepcional alcance, despido de artifícios e literatice. Material que subsiste como reflexo de um tempo e um espaço irrepetíveis. 

Jack-Kerouac[1].jpg

 

Lá vamos enquanto leitores Pela Estrada Fora, à boleia com Sal Paradise e Dean Moriarty, epígonos do autor e do poeta seu amigo Neal Cassady, parceiros de estúrdia e boémia naqueles anos pós-Hiroxima em que os sonhos pareciam condenados a sucumbir de morte prematura e o futuro se esgotava no primeiro sopro da manhã seguinte. Todo o romance decorre sob este signo da urgência, propiciado por um mundo acabado de sepultar e outro que tardava em emergir.

Prosa alternando rectas e curvas – tal como uma estrada rasgada sobre o mundo, tal como a estrada da vida de qualquer de nós. E que culmina num longo parágrafo crepuscular que é um dos melhores desfechos que conheço da novelística universal – melancólico e assombroso poema em prosa.

Ei-lo na versão original, que vale a pena ler uma vez e outra:

 

«So in America when the sun goes down and I sit on the old broken-down river pier watching the long, long skies over New Jersey and sense all that raw land that rolls in one unbelievable huge bulge over to the West Coast, and all that road going, all the people dreaming in the immensity of it, and in Iowa I know by now the children must be crying in the land where they let the children cry, and tonight the stars’ll be out, and don’t you know that God is Pooh Bear? the evening star must be drooping and shedding her sparkler dims on the prairie, which is just before the coming of complete night that blesses the earth, darkens all rivers, cups the peaks and folds the final shore in, and nobody, nobody knows what’s going to happen to anybody besides the forlorn rags of growing old, I think of Dean Moriarty, I even think of Old Dean Moriarty the father we never found, I think of Dean Moriarty.»

12 comentários em “Do princípio ao fim (11)”

  1. Eu tenho a edição que saíu cinco anos mais tarde (em 2003, Colecção Mil Folhas) mas a tradução é a mesma e foi nessa altura que o li.
    Gostei, gosto muito de road books e de road movies – ainda não consegui ver o filme do Walter Salles, mas quero ver embora muitos digam que é uma desilusão.
    Com este escritor partilho o signo (há tão poucos) e o amor aos gatos (já há mais).
    O Pedro surpreendeu-me ao escolher este final, mas foi uma boa surpresa, confesso.
    🙂 Antonieta

    1. Este é para mim um dos romances fundamentais da literatura norte-americana do século XX. Tantas vezes copiado, sempre sem sucesso: o original é francamente superior a todas as cópias.
      Gosto imenso deste longo e vibrante e poético parágrafo final. Um dos meus preferidos, como se nota…
      Mas hei-de voltar com outro desfecho se esta série do DELITO prosseguir. Fica a promessa, Antonieta.

      1. «The creatures outside looked from pig to man, and from man to pig, and from pig to man again; but already it was impossible to say which was which.»
        Este é um dos meus finais favoritos, de um pequeno grande livro que comprei em 1985 (Signet Classic) e que nunca li em português, daí pôr a transcrição em inglês.
        Aposto que todos sabem qual é o livro e espero que alguém fale dele.
        🙂 Antonieta

        1. O célebre parágrafo que remata ‘O Triunfo dos Porcos’. Bem merece figurar nesta nossa antologia.
          Orwell, por sinal, foi ao longo dos anos muito (e bem) traduzido em português. Em editoras tão diversas como Livros do Brasil, Perspectivas e Realidades, Antígona e Dom Quixote.
          Julgo que já terá saído a reedição portuguesa do primeiro romance dele, ‘Burmese Days’, editada entre nós na década de 80 com o título ‘Dias da Birmânia’. Esta versão, da Relógio d’ Água’, chama-se ‘Dias Birmaneses’ – mania muito nossa de ir mudando os títulos já consagrados.
          É um excelente romance, que há muito estava inacessível no mercado editorial português.

          1. Eu li no site da editora que ia sair o primeiro romance dele, de qualquer modo eu ainda nem comprei os Ensaios…
            Pedro, e para a semana lá vamos ter mais um Nobel e depois o Man Booker – o tempo passa a correr – e eu ainda nem li os premiados do ano passado.
            🙂 Antonieta

          2. O romance é excelente, lembrando as memórias do passado colonial na Birmânia, onde nasceu.
            O monumental – e merecido – sucesso de ‘1984’ eclipsou outros excelentes livros dele, que merecem ser lidos e relidos.
            Quanto ao Nobel, confesso que já me interessei mais. A divulgação das actas do júri de Estocolmo, com meio século de distância, tem permitido confirmar os jogos políticos que condicionaram muitos juízos estéticos, excluindo grandes escritores como Borges e Graham Greene.
            Gostaria que o prémio fosse para Rubem Fonseca, Amos Oz ou John Le Carré. Mas julgo que deverei esperar sentado.

          3. Tem razão, não dá para acreditar em nada nem em ninguém.
            Enfim, é mais uma curiosidade, assim como os óscares.
            🙂 Antonieta

  2. Ainda mantenho o desejo que me nasceu com a leitura deste livro: fazer a América – isto é, os Estados Unidos – de costa a costa por via terrestre, sem percurso definido nem prazos. Claro que cada vez me resta menos tempo para pôr o plano em acção. Grande escolha, Pedro.

    1. Alimento o mesmo sonhilusão, Rui. Julgo que há sempre tempo: é a minha utopia pessoal. Porque as viagens começam a construir-se na nossa cabeça e lá decorrem em boa parte. Como dizia a minha avó paterna, num dos saborosos provérbios da Beira Baixa que me ensinou, “o melhor da festa é esperar por ela”.

  3. Uma obra imensa onde a liberdade circula nas veias , longas e pulsantes como a estrada.
    Um fim que afinal é um princípio que nunca terá fim.
    Muito bom.

    Animal Farm, que também só li em inglês, é ontem, hoje e amanhã e será sempre grande e profética, Antonieta. Um beijinho 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *