Do meu baú (3)


Pedro Correia,

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Sou coleccionador compulsivo das entrevistas de falsos profetas. Sobretudo aqueles que profetizam desgraças e calamidades. Um dos mais simpáticos dentro do género, devo reconhecer, é João Ferreira do Amaral «economista conceituado», como o introduz Clara Ferreira Alves na entrevista (insolitamente apresentada como “almoço”) que assinou com ele na revista do Expresso, edição de 4 de Maio de 2013. 

O título de capa é um daqueles que vendem sempre bem: «Vamos sair do euro.» Assim mesmo, neste tom categórico, sem margem para dúvida.

Como se fosse pouco, lá dentro (página 37) a certeza torna-se ainda mais indubitável: «É claro que vamos sair do euro.»

 

«Num restaurante de Lisboa com vista larga sobre o rio, pediu cabrito assado com batatas. Água. Mais nada. Fala dos assuntos com a voz desapaixonada do técnico e do conhecedor.» Assim alude a ele a jornalista, em prosa quase poética, sem disfarçar o deslumbramento pelo entrevistado: «Lê-lo é um exercício de clareza e de esclarecimento, e tem razão em muitas coisas que aponta. A saída deverá ser controlada para não ser traumática, e será um benefício para a economia. Portugal continuaria na União Europeia e no espaço Schengen. A história já lhe deu razão em quase tudo.»

Caramba, é difícil um simples leitor não se sentir esmagado com tanta sapiência. Tudo isto nos parágrafos de entrada, ainda sem termos acesso ao pensamento do entrevistado. 

 

«Não ponho sequer a alternativa de ficarmos», debita o professor, que trabalhou no Palácio de Belém, entre 1991 e 1996, como consultor de Mário Soares. E nem seria necessário convocar os portugueses para referendar tão relevante opção política. Motivo? «Visto que não entrámos com um, não há razão para precisarmos de um para sair.»

Possíveis consequências, para o País, de uma “saída ordeira” da moeda única? Hipótese desenvolvida num trecho da entrevista: «Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior são os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem…» E noutro trecho: «Vejo imensos [riscos]. Pode correr mal. Pode gerar-se um pânico.»

 

Sete anos depois, ao revisitarmos este ameno bate-papo, ficamos esmagados com tanta acutilância e tanta presciência daquele a quem «a história já deu razão em quase tudo».

Fez bem, de qualquer modo, o Presidente Soares em não ter seguido os conselhos deste seu sábio consultor.

24 comentários em “Do meu baú (3)”

    1. Se o ilustre e presciente entrevistado só consumiu cabritinho e água, como relata a deslumbrada escriba, o ágape não terá sido excessivamente dispendioso. Mesmo com generoso óbolo a gratificar quem serviu à mesa.

          1. Comentário típico de um português que só vê o litoral e despreza o interior do seu país.
            Comer cabrito é contribuir para o pastoreio de cabras sapadoras que ajudam a manter o interior do país sem incêndios.

          1. Não duvido, até porque é um território que conheço muito bem. Mas aposto que este repasto decorreu no Café In.
            Ir a Cacilhas, “descendo ao povo”, não parece muito apropriado a tanta snobeira.

  1. Tanto «economista conceituado», nenhum deles pensou em criar uma empresa, aplicar os seus conhecimentos, e enriquecer (e ao país)?

    1. Excelente pergunta. Que ficará sem resposta, naturalmente. Os “economistas conceituados”, habituados a almoçar com jornalistas devotas em restaurantes “com vista larga sobre o rio”, jamais descem do pedestal.

    2. Realmente, esses académicos todos que estão para aí nas universidades a elocubrar teorias, deveriam mas era estar todos a trabalhar e produzir riqueza!

  2. Não vivem os dinamarqueses bem sem o euro? Não viveram (e vivem) os ingleses bem sem o euro?

    Não continuaram os dinamarqueses e os ingleses a dispor de política monetária e de política cambial?

    Os países que não dispõem destes instrumentos não se encontram, desde logo, manietados e cerceados na sua independência financeira e económica?

    Há ainda quem duvide que o euro, cuja conversão na Alemanha foi efectuada à taxa de 1 marco por cada euro, não é mais do que o antigo marco alemão? Mesmo com esta taxa de conversão bem à frente dos olhos?

    Por amor da santa. Mais pensamento crítico e esclarecido, s.f.f..

    1. Os ingleses já saíram da UE. Não fazem parte deste filme.
      De qualquer modo, fazendo uso do seu método, é perguntar aos portugueses se preferem o escudo ou a libra esterlina.

      1. “Não continuaram os dinamarqueses e os ingleses a dispor de política monetária e de política cambial?”

        Quer dar a máquina de imprimir moeda à cultura populista do regime do 25 de Abril?

        No entanto também é verdade que já fomos à bancarrota no Euro.

        Mais, é verdade que não aprendemos nada no Euro. Exportamos sempre as
        culpas para a Alemanha, as malvadas agências de rating, o subprime sem sequer termos a noção que somos subprime.
        Talvez se não for possível culpar o estrangeiro talvez aprendamos.

        Contra exemplo temos o exemplo da Argentina sempre na bancarrota ou quase, um país que no século XIX era dos mais ricos do mundo.
        Nunca aprendeu.

        lucklucky, o kulak

  3. É como nas Centúrias de Nostradamus. Faz uma profecia que irá seguramente realizar-se, porque é dada a interpretações. Desde 1555 que o Nostradamus só não acerta no totoloto. Tudo o que é tragédia ele previu e de tal modo que cada quadra pode augurar N situações diferentes, consoante quem a lê. Se lhe perguntarem agora sobre a dita entrevista, acredito que se lembrará bem do almoço e da companhia, porque sobre o resto nem convém vaticinar.

    1. Vou fazer eu agora também de profeta, mesmo sem vista larga sobre o rio: prevejo que Ferreira do Amaral fará novos vaticínios que a realidade, por mera casmurrice, teimará em não seguir.

  4. É claro que os dinamarqueses vivem bem sem o euro. É claro que os ingleses viveram (e vivem) bem sem o euro. É claro que houve outros países que não aderiram à “moeda única”, o “novo marco alemão” e que vivem bem sem ele.

    É claro que o euro, cuja conversão na Alemanha foi efectuada à taxa de 1 marco por cada euro, não é mais do que o antigo marco alemão. Não é apenas claro, é evidente.

    É claro que os PIGS, cuja baixa incorporação tecnológica ao nível produtivo é bem patente, são incapazes de competir com os países asiáticos, cuja competição é desleal sem que os seus produtos sejam onerados com taxas alfandegárias. Sem pertencerem ao grupo dos PIGS, os EUA já resolveram o assunto.

    É claro que a generalidade dos países, e não só os PIGS, têm défices comerciais com os países asiáticos. É claro que os países que apresentam superavits comerciais sistemáticos secam tudo à sua volta. Veja-se o exemplo da Alemanha. Para uns serem sistematicamente exportadores, outros haverá que são sistematicamente importadores.

    É claro que o euro impede os países aderentes de terem política monetária e cambial própria. É claro que, sem política monetária e cambial própria, os países se encontram, desde logo, manietados e cerceados na sua independência financeira e económica.

    É claro que, sem política monetária e cambial própria, eventuais ajustamentos terão que ser feitos por via fiscal. Já Keynes escrevia em 1931:

    “Precisely the same effects as those produced by a devaluation of sterling by a given percentage could be brought about by a tariff of the same percentage on all imports together with an equal subsidy on all exports, except that this measure would leave sterling international obligations unchanged”.

    Mas, na sequência da crise de 2008, não foi exactamente isso que foi feito.

    Aquele artigo da dupla Alesina & Reinhart, uma falácia posteriormente desmentida em virtude do tal bug no Excel, convenceu meio mundo que a austeridade fiscal era expansiva, muito embora já se soubesse desde o século XX que apenas ajustamentos feitos por via cambial, ou estritamente nos moldes estabelecidos por Keynes, a que já aludi, são expansivos.

    E já nem vou escrever sobre o erro no cálculo dos multiplicadores, que acabou por levar o economista-chefe do FMI, após o seu reconhecimento, à demissão.

    É claro que os PIGS, se pudessem enveredar por um ajustamento cambial, não teriam dúvidas em fazê-lo. Tal como o fizeram antes e com bons resultados. Mas o euro, que lhes retirou a política monetária e política cambial das opções, impediu-os.

    E em nenhum dos PIGS, entre outros, houve consultas populares a referendarem as grilhetas a que o euro os prendeu sem que os respectivos pagadores de impostos tivessem disso conhecimento.

    Defender o euro e criticar a austeridade eterna é como alguém lançar-se do 10º andar e esperar sobreviver. Incompatível.

    Por amor da santa. Mais pensamento crítico e esclarecido, s.f.f..

  5. Entretanto 3 Países da “União Europeia” com moeda própria apresentam as economias mais fortes da União….
    Aliás J.F. do Amaral poderá ter falhado no calendário preconizado mas não na necessária solução para os males deste País.

    1. Faz lembrar o falecido Zandinga e o excelso Professor Karamba: falhavam nos prognósticos mas “acertavam” sempre nas soluções.
      O equivalente à vitória moral no futebol pátrio.

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