Do baú: Um conto infantil – Dona Esmeralda e a toupeira


claudiakover,

Entre vizinhos todos conheciam a Dona Esmeralda, que se queixava dos buracos das toupeiras. Tinha olheiras de quem passava à noite à coca e comichava do nascer ao por do sol. E, todos os dias, a vizinhança prestável, fazia o frete de ajudar na caçada cega.

 

Tempos passados a Dona Esmeralda abandonou o queixume e a vizinhança continuou a aguardar as suas lamentas. Queriam saber se os buracos do bicharoco ainda lhe fazia doer a vista e dar gritos de meia-noite.

“Não” retorquiu.

 

A Dona Esmeralda, porém, continuava pálida e de ar frustrado, mas, quando confrontada com as perguntas armadas da vizinhança, dizia:“Não,não . Não é grave”.


Tempos depois deixou-se de pôr olho na Dona Esmeralda. Buscou-se a senhora e encontrou-se o seu cadáver no jardim – perfurado pela amargura interna. Tinha túneis escavados pelo corpo – de enfiar o punho inteiro -, mas, enfim, tinha um jardim floreado e sem buracos de toupeira.

 

De facto o foro emocional era, naquela vizinhança, ainda mais privativo que o jardim das traseiras.

 

Julho, 2009 

14 comentários em “Do baú: Um conto infantil – Dona Esmeralda e a toupeira”

      1. Para amenizar o clima…
        (meus meninos adoram)

        “Ele foi cavando, foi cavando, pois sua profissão – coveiro- era cavar. Mas, de repente, na distracção do ofício que amava, percebeu que cavara de mais.Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que,sózinho, não conseguia saír.Gritou. Ninguém atendeu.Gritou mais forte.Ninguém veio. Enroqueceu de gritar,cansou de esbravejar,desistiu com a noite.Sentou-se no fundo da cova,desesperado. A noite chegou,subiu,fez-se o silêncio das horas tardas.Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia mais um som humano, embora o cemitério estivesse cheio dos pipilos e coaxaras naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos.Deitado no fundo da cova o coveiro gritou.Os passos se aproximaram.Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”
        O coveiro então gritou desesperado:” Tire-me daqui,por favor.Estou com um frio terrível!”. “Mas coitado !” –condoeu-se o bêbado — ” Tem toda a razão de estar com frio. Alguém tirou a terra toda de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando na pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.”

    1. Noutro dia tive de explicar à minha mãe que sou uma pessoa muitíssimo feliz, independentemente das coisas que escrevo. E, (prometo!) se alguma vez me vir na rua, não espere que seja gótica. 😉

  1. Gostei do “forro emocional”.
    Mas não consegui deixar de me lembrar de uma cena hilariante do filme francês que vi na semana passada (comentei-o aqui) passada justamente com toupeiras e um proprietário furioso, o que – e tu não tens culpa nenhuma disto – tirou toda a densidade dramática ao teu conto. Sorry. Mas mesmo com essa nota cómica não me atreveria a contá-lo a uma criança, a não ser que ela me tivesse esfaqueado um quadro de estimação… 🙂

      1. Cláudia, mas eu não te apontei uma gralha! Pensei mesmo que escreveste “forro” emocional de propósito e gostei muito da expressão, não estava a ser irónica! Cristo, as coisas que me acontecem… 🙂

          1. Já ouvi falar e quero e ver! era, ainda por cima, uma gralha antiga. Visto que este texto já tem dois anos. Teria sido uma boa ideias mas tenho de admitir que foi apenas uma gralha 😉

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