Corpo(II): Paintings of relief


claudiakover,

Deixo para trás a camada tenra da carne, à qual não adivinhava textura, enquanto mutilo a pele que me separa da ânsia do desprendimento. As unhas sujam-se e pressuponho que a agonia do estômago se prolongará até que a lavagem exacerbada me descasque das mãos as cutículas. Volto a focar a atenção, por momentos anestesiada.

 

Sinto o som ressoar por todo o corpo enquanto, em ausência de dor, me incomódo com o ocasional chiar do corte pouco certeiro. Suo devido à pujança embutida nos braços doridos e, impaciente, parto as últimas linhas de osso que ainda unem o membro ao meu corpo.

 

Enrolo um pano negro em torno do coto – os panos brancos manchados de sangue são o espelho da imaginação cinematográfica, que se serve dessa abundância da mensagem para se recordar constantemente do acontecimento-.

 

O telefone toca. Deito-me, aliviada por ter ceifado uma companheira permanente e desagradável.  Tinha deixado a banheira a encher, mas já nada me retorcia a disposição.

 

*Corpo: conjunto de textos estapafúrdios sobre acontecimentos invulgares

7 comentários em “Corpo(II): Paintings of relief”

  1. As minhas reacções, pela ordem em que ocorreram:

    1. Eh lá…

    2. Eurgh…

    3. Hmmmmm, uma rapariga com tendências mórbidas…

    4. Evitar qualquer jantar do ‘Delito’ em que ela esteja presente.

    5. E daí talvez não. Em vez da máquina fotográfica, levo é a faca de mato.

      1. Ana, adorava ter um jantar do Delito cá e adoro o facto de teres sempre um comentário simpático para todos os textos (até mesmo os mais negros). Há poucos leitores assim! Um grande beijinho

        1. Também eu adorava, Cláudia. E até sei de um restaurantezinho aí que era um primor para nós… enfim, fica para tempos de vacas mais gordas.
          Um beijinho para ti, e aproveita bem essa cidade linda.

  2. ” E a banheira encheu… encheu. Extravasou. A casa mais parecia A Lagoa Negra…
    Alguns dias depois:

    “Ela” jazia no chão da cozinha. Sirenes.Inem.
    – “Nadia si lo puede acer dr Ramon…
    – “Estou viend Lolita”…
    – “Caro inspector Moita Flores… nao vislumbro sinais de crime…
    -Também me parece… só depois da autopsia é que…

    –Meu senhor..
    – Quem é você?
    – Sou a mulher a dias… por vezes de noites..
    – Que ha?
    -Olhe um papel na mao da defunta…
    – Hum… deixe vêr…
    – Ó pá… isto é a factura dos SMAS…
    – Será que?
    “Elementar meu caro Moita…

    -Olhe só para os números!!!
    continua…

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