… mas é a prostituição uma profissão? É o serviço sexual comparável a outro tipo de serviço? O princípio que justifica a existência do negócio do sexo é medieval: a aceitação de um mal necessário. De um lado, as mulheres “puras”, com a função de serem esposas e mães; do outro lado, as meretrizes, que se usam para não se “fazer mal” às primeiras. Sinceramente, como pode uma sociedade que apregoa a igualdade conviver pacificamente com tal discriminação?
De há uns anos para cá, tenho formado uma opinião sobre este assunto, que se confirmou, depois de ter visto um documentário transmitido pelo 3sat, um canal público alemão ligado ao ZDF, dedicado à cultura, ao documentário e ao debate de temas sociais (excluindo os fait-divers políticos e desportivos). Nesse documentário, comparava-se o sistema alemão, que legalizou a prostituição em 2002, com o sueco, que proibiu, em 1999, a compra de serviço sexual. Dizem os suecos que a prática da prostituição não é compatível com a dignidade humana.
Prostitutas inscritas na Segurança Social, com direito a serviço médico, subsídio de desemprego e reforma – que maravilha! A sociedade fica descansada, considera resolvido um problema tão incómodo. A realidade, porém, é muito diferente. A Alemanha tornou-se num verdadeiro centro de tráfico humano, as mulheres circulam por toda a Europa, tornaram-se num produto de compra e venda entre os donos dos bordeis.
Das cerca de 400.000 pessoas que se prostituem (um número que se calcula e cuja esmagadora maioria são mulheres), apenas 40.400 estão legalizadas. Passados quase vinte anos sobre a aprovação da lei, 90% das prostitutas na Alemanha continuam desprovidas de Segurança Social e de qualquer tipo de direitos e apoios. Não exercem a actividade por escolha própria e são mantidas à custa de muita violência, qualquer tentativa de desistência é resolvida com espancamentos e/ou chantagens. Muitas dessas mulheres nem sequer sabem falar alemão, vêm do Leste europeu pela mão de traficantes, não conhecem os seus direitos, os bordeis onde trabalham não estão legalizados, são exploradas e violentadas. Vêem-se num beco sem saída, não sabem a quem pedir ajuda e acabam por quebrar ao ponto de nada lhes interessar, de nem sequer saberem se querem desistir ou continuar. Sentem-se lixo.
As prostitutas que escolhem a sua profissão e a exercem, muitas vezes, por conta própria, é uma minoria irrisória. As assistentes sociais que lidam com o problema resumem a questão da seguinte maneira: 50% das prostitutas são viciadas em droga e sujeitam-se para pagarem o vício; a outra metade são raparigas e mulheres com um historial de abusos desde a infância, vidas cheias de violência e/ou de pobreza extrema. Jovens nesta situação são muito fáceis de manipular e acreditam nos traficantes, que lhes garantem uma mudança de vida num país rico.
Os clientes, por seu lado, não estão interessados em saber se a prostituta o faz obrigada ou por vontade própria. Eles não fazem ideia do que as mulheres sofrem, nem da complexidade das suas vidas. Pagam por um serviço e sentem-se no direito de o exigir.
Os suecos apostam numa mudança de mentalidades. Na verdade, eles não criminalizaram a prostituição, mas sim a compra do serviço sexual e os donos dos bordeis. Ou seja: a prostituição não é ilegal, mas pagar para ter sexo já o é. Não é a prostituta que comete a ilegalidade, mas sim o cliente, é sobre ele que a lei actua.
Sob o pressuposto de que a prostituição não combina com a dignidade humana, a Suécia aposta numa educação social que considera errado comprar serviço de sexo. Ao mesmo tempo, financiam-se programas que permitem às mulheres mudarem de vida. Nos últimos vinte anos, a prostituição de rua reduziu para metade e muitos traficantes passaram a evitar este país. Além disso, as assistentes sociais e outras pessoas que apoiam prostitutas e que difundem este novo tipo de educação social (também homens, claro) sentem a mudança das mentalidades e estão convencidas de que a situação continuará a evoluir nesse sentido.
Um ginecologista que colabora com uma instituição de apoio a prostitutas, na cidade alemã de Mannheim, confirmou que as mulheres estão sujeitas a muita violência, a vários tipos de doenças e obrigadas a práticas inaceitáveis. Um ex-inspector da Polícia Judiciária Alemã (Kriminalpolizei), que tinha a seu cargo a investigação do tráfico humano, declarou que é impossível separar este da prostituição e frisou que as mulheres não são vistas como seres humanos, mas como mercadorias oferecidas ao cliente, conforme os gostos deste, além de compradas, vendidas e trocadas entre os donos dos bordeis.
Na Alemanha, há quem lute para que o país adopte o modelo sueco, pois considera que o Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homem que ele tem direito a comprar serviço sexual. A prostituta é estigmatizada, o cliente não (é este pressuposto que os suecos pretendem inverter). A prostituição é extremamente desgastante do ponto de vista físico e psicológico. Ex-prostitutas mostram sintomas semelhantes aos traumatizados de guerra: tendem a depressões, pesadelos, e são praticamente incapazes de fazer uma vida normal.
O documentário encerra com a declaração da deputada do SPD Leny Breymeier: por mais que falemos de igualdade, de participação e capacitação das mulheres em todos os sectores sociais, a nossa sociedade nunca será igualitária, enquanto os homens se sentirem no direito de comprar uma mulher.
Nota: o documentário foi rodado em tempo de pandemia, mas os dados reportam-se à era pré-Covid. Apesar do confinamento, continua naturalmente a existir prostituição, mas, sendo ainda mais clandestina, torna-se mais difícil de controlar pelas autoridades e pensa-se que a situação das mulheres piorou.
No caso de passar por aqui alguém que saiba alemão e estiver interessado no tema, pode ver o documentário no seguinte link:
https://www.3sat.de/wissen/wissenschaftsdoku/210304-prostitution-wido-104.html

o Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homem que ele tem direito a comprar serviço sexual.
Não creio que seja assim. O Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homens e às mulheres e aos trans-géneros que podem comprar serviços sexuais (com IVA, para pagar a conta do socialismo). As mulheres e as outras criaturas misturadas também podem querer usar serviços de sexo.
A Cristina está a dizer que só os homens é que são “maus” porque sim. Não é menos medieval dizer isto. A verdade é que, não havendo moral nos estados laicos, também não pode haver maldade.
Ou seja, o seu texto tem um alvo pré-definido e tem vítimas pré-definidas — e dessa forma não é possível uma análise verdadeira deste assunto.
Além disso a sexualidade é do foro particular das pessoas, e portanto ninguém tem nada a ver com o que os outros fazem ou deixam de fazer. Não é possível corrigi-la para descanso das mentes esquerdistas, tal como não é possível construir sociedades super-controladas por uma só ideologia. As que tentaram falharam e as outras tentam fazê-lo à bomba mas também não resolve grande coisa.
Como está bem explicado no post, baseei-me num documentário, focando a prostituição de mulheres de serviço aos homens heterossexuais.
No documentário ficou provado que a esmagadora maioria destas mulheres está sujeita a violência e a chantagens. Isto diz-nos respeito a todos, enquanto sociedade.
O que as pessoas fazem, no seu foro íntimo, não me diz respeito, enquanto tudo se passar com consentimento mútuo. Caso se prove o contrário, diz-me respeito, sim, a mim e a todos nós.
Como está bem explicado no post, baseei-me num documentário, focando a prostituição de mulheres de serviço aos homens heterossexuais.
No documentário ficou provado que a esmagadora maioria destas mulheres está sujeita a violência e a chantagens. Isto diz-nos respeito a todos, enquanto sociedade.
Neste caso parece-me um problema de polícia. Porque já está na Lei que uma pessoa seja ela quem for não pode ser alvo nem de violência nem de chantagem. Se a Lei não se cumpre então é um problema de regime, e só é um problema social na medida em que os problemas sociais se sobrepõem aos problemas da marginalidade e da condição sócio-económica (a parte da violência e da exploração)
E até arriscaria dizer que, em sociedades organizadas como a nossa, e baseadas no Direito, este problema tem origem nas excepções ideológicas que o regime tolera e que às vezes promove. Infelizmente essas situações são cada vez em maior número. São essas excepções que estabelecem uma falsa ordem moral (aqui é a falta ética que gera uma ordem moral, porque ética e moral são coisas diferentes) que criam obstáculos à acção de policiamento e da justiça.
Não há moral nos estados laicos? Essa é boa!
Há? Qual é?
Onde há humanidade, há moral. Mesmo num estado laico, há moral, onde há amor, há moral.
Moral e ética não são a mesma coisa, mas é o que nos distingue dos outros animais.
Mas ninguém governa com base no amor — sobretudo quando se permite que no mesmo espaço coexistam tipos de amor diferentes…
Mas uma moral é sempre um código religioso — e é própria de estados religiosos. Na Arábia Saudita, ou na Anatólia turca há uma moral. Há o Bem e há o Mal. Considerar as mulheres num plano inferior ao do homem não é mau por exemplo, até fazem grande questão nisso.
Em repúblicas laicas como o nossa não há moral. Há religiões e códigos de conduta religiosos vividos na individualidade ou numa comunidade, mas na ordem do Estado (na sociedade) só existe ética — o dever de cumprir a Lei, e o Bem e o Mal desaparecem para dar lugar ao legal e ao ilegal, no limite ao correcto e ao errado (que se definem pela articulação da moral ou da ética individual com a ética do estado). Se a sociedade é homogénea — só portugueses, por exemplo — a ética e a moral tendem a ser coincidentes e a confundir-se naquilo que devemos fazer embora nunca sejam totalmente coincidentes. Na Islândia será mais do que é aqui, por exemplo. Ou era. Se a sociedade é heterogénea — multicultural — a ética e a moral tendem a afastar-se e o poder supra-estatal normalmente é apenas policial ou judicial. Como no Estados Unidos, por exemplo.
“com IVA, para pagar a conta do socialismo”
Sim, para pagar a pertença à aberração Euro, os buracos todos da banca (a maioria privada), que por sua vez serviu para pagar o calote dos empresários portugueses, todos capitalistas, todos contentes com o regabofe que é o off-shore da Madeira (e outros na Europa) graças à livre circulação de capital (eufemismo para roubo descarado ou Extremo-capitalismo).
Alguém que lê uma artigo sobre o problema da prostituição e a primeira coisa que tem a comentar é o “IVA para pagar socialismo”, num Portugal alinhado com McCartismo de Washington, nas regras não votadas do EURO de inclinação NeoLiberal, só pode ser alguém com graves problemas mentais.
Se não fosse o socialismo que ainda resta dos anos 70, como é o caso do SNS criado por PCP, UDP (BE), e PS em 1979, com votos contra da direita fascista (o fascismo do PPD (PSD) nunca me enganou, nem mesmo quando durante o PREC se diziam “socialistas” e aplaudiam as nacionalizações só para ganharem popularidade), queria ver como Portugal teria enfrentado esta pandemia. De resto, podemos ver como actuam os sectores não socialistas na saúde: privados e seguros – que fecharam portas, mamaram os subsídios todos (ex: layoff), recusaram tratar doentes infectados, ou pediram rios de dinheiro para os tratar. Teria sido uma segunda crise sanitária a juntar à pandemia, caso não houvesse socialismo, em Portugal e na Europa e, enfim, em todos os países desenvolvidos (excepto o 3º Mundo que são os EUA).
* Ainda se fosse imposto cobrado só aos malandros dos pobres, para financiar um exército que matasse refugiados no muro da fronteira, eu aceitava. Agora cobrar impostos a todos (inclusive aos ricos que só têm mérito, nem que seja o mérito de ter herança) para financiar direitos humanos como a saúde? Como é que esses comunistas e socialistas se atrevem? *
– é assim que “pensam” os fascistas, se é que se pode apelidar tal estultícia de “pensamento”.
Quanto à prostituição, estou há vários anos dividido. Por um lado a legalização dá direitos aos trabalhadores do sexo, por outro lado a ilegalização de quem adquire esses serviços tem dado resultados na diminuição do tráfego humano. Não seria possível uma terceira opção? Legalizar os que provassem ser voluntários, e ilegalizar quem recorre a serviços dos não-voluntários? É que simplesmente proibir, seria como proibir o trabalho, qualquer que fosse, a fim de acabar com o tráfego de escravos, sem nunca reconhecer direitos a quem o faz voluntariamente. Continuo dividido, e só sei que não concordo nem com o modelo alemão nem com o sueco. A solução está algures pelo meio.
Se achar que o socialismo tem impostos a mais é ser fascista, então sou fascista.
Toda essa sua articulação de ideias e argumentário vem das más-leituras que anda a fazer, não me culpe por isso. É típico de imbecis como você achar que quem tem ideias diferentes (e no meu caso, melhores) tem problemas mentais. De resto estou-me a borrifar para o que você pensa.
Sei muito bem que se pudesse, como o José Mário-Branco, mandava prender toda a gente que não fosse de esquerda. Por isso é que vocês nunca poderão ganhar. As venezuelas não resultam, meta isto na cabeça de uma vez por todas. Se não for alguém a ter ideias e a trabalhar vocês ficavam todos na pré-história novamente. Tudo o que a esquerda faz é apropriar-se do que já existe, e depois quando ficam finalmente sozinhos e vitoriosos, enferruja tudo como em Cuba.
Paz à sua alma: 021/03/10/lou-ottens-fita-k7-morte/
https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2
1. A culpa não será de quem insiste no “género” para definir o que é «Ser-humano»?
Logo, decidir sobre o errado/certo dentro de uma moral e ética assente no corpo?
2. O corpo é um mero robot anatómico e molecular. Que já foi diferente, e voltará a sê-lo.
3. O actual “corpo sapiens sapiens” serviu para uma muito reduzida fase da evolução da Vida, em comparação com a duração que ela teve antes do dimorfismo sexual, e terá depois de ele deixar de ser adaptativamente necessário.
4. A decisão sobre o que está “certo” ou “errado” depende de uma moral e ética. E elas não dependem do contexto adaptativo da Vida, no qual o Ser-humano persegue a Continuidade da sua existência?
É como se a «Cristina Torrão», «SAP2ii” e todas as pessoas valessem apenas pelo corpo que têem…
Como está bem explicado no post, baseei-me num documentário, focando a prostituição de mulheres de serviço aos homens heterossexuais.
No documentário ficou provado que a esmagadora maioria destas mulheres está sujeita a violência e a chantagens e trabalha contra a sua vontade, o que não respeita a dignidade humana.
Sendo um assunto que sigo, nao consigo ter uma opinião formada. Não creio que a legalização tivesse grande impacto no tráfico, mas acho plausível que melhorasse as condições das mulheres que têm essa profissão.
Afinal, se há movimentos das próprias prostitutas a pedir o reconhecimento da profissão, saberão melhor que eu o que lhes convém.
É um assunto difícil, sim, concha, mas cada vez mais sou contra a prostituição.
Segundo o documentário, as prostitutas que escolhem a sua profissão, as que têm voz para reivindicar isto e aquilo, são uma minoria. O problema é que se trata de um negócio que favorece a subjugação e a manipulação. A situação das jovens do Leste europeu, que vivem em pobreza extrema e acreditam que podem melhorar a sua vida na Alemanha, é catastrófica.
A legalização, que já tem quase vinte anos, não trouxe melhorias. Apenas 10% das prostitutas estão legalizadas. Há inúmeras iniciativas voluntárias de apoio às prostitutas (foram essas as contactadas pelos autores do documentário), porque as estatais estão longe de conseguir atender aos problemas de todas estas mulheres (já que 90% são clandestinas). São mantidas presas, não saem à rua, são castigadas se o fizerem, pois podem tentar fugir. São escravas. Esta é a verdade!
. São mantidas presas, não saem à rua, são castigadas se o fizerem, pois podem tentar fugir. São escravas.
Também na agricultura. Na Europa. Dita civilizada.
É curioso, como se pode mudar de opinião a ler um artigo, Cristina.
Com o exemplo alemão, fiquei a pensar que o modelo sueco é melhor, porque tenta resolver melhor o problema, ou seja, criminaliza o explorador. Mas está longe de ser perfeito.
Mas é uma questão muito difícil de resolver. Até porque podem existir mulheres que preferem ser prostitutas a empregadas de limpeza, pela questão financeira…
Também nunca percebi bem por que razão a prostituição é a mais antiga profissão do mundo.
Não será pela “razão” que referiu no terceiro parágrafo do seu comentário?
Ou seja (generalizando com objectividade empírica), o corpo não foi o primeiro utensílio do ser-humano?
Logo, nesse sentido instrumental e técnico, e comummente a quaisquer géneros, não foi sempre prostituído? Não apenas nas relações sexuais, mas em todas as outras?
Difícil de resolver, sim, Luís, e o modelo sueco também não me convence totalmente. Mas acho interessante a tentativa de mudança das mentalidades, porque a que temos favorece a violência e a manipulação.
Há mulheres que escolhem ser prostitutas, mas, segundo as assistentes sociais consultadas e que trabalham em regime de voluntariado, são uma minoria.
O tráfico humano existe, é um negócio de milhões. E não são as prostitutas que enriquecem.
“Das cerca de 400.000 pessoas que se prostituem (um número que se calcula e cuja esmagadora maioria são mulheres), apenas 40.400 estão legalizadas”
Isto é, já 40 000 estão legalizadas. É muito pouco? Claro que sim. É preciso, pois, com imenso esforço e engenho, procurar legalizar os 90% restantes.
“A Alemanha tornou-se num verdadeiro centro de tráfico humano, as mulheres circulam por toda a Europa, tornaram-se num produto de compra e venda entre os donos dos bordeis”
E é legal. Se não fosse, imagine-se o grau infinitamente mais elevado de selvajaria.
“Não exercem a actividade por escolha própria e são mantidas à custa de muita violência, qualquer tentativa de desistência é resolvida com espancamentos e/ou chantagens”
O que é, obviamente, um gravíssimo caso de polícia. Tal como o dos trabalhadores asiáticos que vêm para o Ocidente ser barbaramente explorados, por exemplo, na agricultura.
https://lishbuna.blogspot.com/2018/12/bl og-post_95.html
Não se verifica que a situação tenha melhorado, depois da legalização. Por um lado, é pior, já que se aperfeiçoaram as técnicas de fugir a essa legalização. O problema é que, se as prostitutas fossem todas legalizadas, pudessem sair à rua e fazer uma vida normal, livre de violência, metade delas mudava de vida. E lá se ia o negócio.
Claro que, em todas as actividades “marginais”, a cada avanço da investigação policial, os traficantes e meliantes afins respondem com novos estratagemas de resposta. Mas, em cada uma dessas etapas de jogo do gato e do rato, alguma coisa se avança. É um processo muto lento e, por vezes, desesperante. Mas a ilegalização é sempre a pior solução. Nunca esquecer que a máfia encontrou o caldo de cultura ideal na “lei seca”.
Mais “food for thought”: https://lishbuna.blogspot.com/2010/03/8-d e-marco-e-quando-uma-mulher-quer.html
EÇA DE QUEIROZ: “Ele há muitas questões”, já avisava o conselheiro Gama Torres em “O Conde d’Abranhos”. Questões terríveis, como “a prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo”. A questão social, também foi posta noutros personagens.
Feita citação queirosiana, concordo com a postante.
“Ele há muitas questões. Questões terríveis”
Porém, negócios – continuam.
Duvido – muito – que terminem.
Franja marginal é demasiado vasta.
Como a mais miséria, que vai no mundo.
Há determinados assuntos que pela sua complexidade não podem ser analisados de forma simplista e emocionada. Este é um desses assuntos porque tem duas situações distintas.
A prostituição existe, é um facto. Qual será a melhor forma de criar condições sanitárias?
Tal como a legalização do aborto, a legalização da prostituição é a forma encontrada para proporcionar melhores condições higiénicas e sanitárias para quem exerce a profissão.
Existe a outra situação, que é o tráfico humano e exploração sexual. Mas aqui, tal como os trabalhadores da apanha da fruta e outros já é um crime de rede organizada e como tal punido por lei, não tem nada a ver com o facto de ser legalizado ou não.
Não se pode proibir a prostituição e esperar que ela não aconteça de forma clandestina, o que tem é de ser encontrada uma solução de forma a que todos saiam beneficiados, diria até que é mais um caso de saúde pública.
Vinte anos de legalização na Alemanha não trouxeram melhoras sanitárias. Porque as mulheres são mantidas à força, nem sequer podem sair à rua e fazer uma vida normal.
O que é preciso é uma mudança de mentalidades.
Totalmente de acordo Cristina.
Vou mais longe, pois em Portugal caso ninguém tenha reparado, estão instalados traficantes e exploradores sexuais por todo o pais. A prostituição tem tido uma subida que é vista já como uma banalidade no nosso país.
Para mim pena para quem paga e pena para quem recebe. Pois a taxa de quem trabalha por fora é enorme como viste, mas não todas/os tem explorador. Há muita gente que após ser legalizado quer trabalhar por fora e sosinhas/os pois não querem ser exploradas, daí o descrepancia dos números. Lá se vai a saúde pública o controlo do tráfico humano, dignidade da mulher, pois sim é uma imposição marxista que tem milhares de anos, isso sim, pois a taxa da prostituição assim o comprova. 80% da prostituição mundial é femenina. E poderia continuar com muitos mais contradições nesta temática tão importante.
Tenho um grupo no Facebook caso queiras participar.
Abolição à prostituição.
Engraçado, preocupa-se com as condições sanitárias e não se preocupa com o facto de muitas mulheres serem obrigadas a prostituir-se. A bem dos homens, sempre!
Não podemos é deixar que a emoção nos tolde a razão.
É evidente que o ideal seria um mundo onde todos vivessem em paz e fraternidade, mas a realidade é diferente e você concordará que não consegue mudar o mundo sozinha. E é perante um problema real (prostituição) que temos de encontrar uma solução real e em tempo real.
Se para resolver este problema em concreto só tivéssemos como solução a mudança de mentalidades provavelmente só estaria resolvido ao fim de várias gerações, e não deve ser isso que se pretende.
Ninguém consegue mudar o mundo sozinho, mas pode dar uma contribuição (ou, pelo menos, tentar).
Depois de milhares de anos, se o problema se resolvesse daqui a algumas gerações já não era mau.
Mas resolver, receio que nunca se resolva. Haverá sempre gente sem escrúpulos. Com uma mudança nas mentalidades, porém, talvez se pudesse melhorar bastante. Já muita coisa no mundo melhorou com mudança de mentalidades.
Já muita coisa melhorou no mundo, tem razão, mas será que foi a mudança de mentalidades que originou a melhora, ou terá sido a evolução natural a provocar a mudança de mentalidades?
A prostituição, o tráfico de órgãos, a escravatura (ainda existe,infelizmente), o tráfico de droga, e outros “cancros ” da sociedade só podem ser resolvidos se houver vontade politica para os resolver, e para haver vontade política a argumentação de defesa tem de ser eficaz porque há muitos lóbis envolvidos.
Neste caso concreto, a ajuda mais eficaz é a minimização dos danos e introduzir uma pequena melhoria.
Tenho um certo problema em aceitar que a evolução natural possa provocar a mudança de mentalidades. Até um certo ponto, talvez, na medida em que muda comportamentos. Mas nós humanos atingimos um ponto em que a mentalidade muda por si, há outros factores implicados, além das mudanças genéticas provocadas pela própria Natureza. A maneira como vemos a escravidão, a pobreza, a prostituição, desigualdade, a injustiça, etc. não tem propriamente a ver com evolução natural, mas com a nossa capacidade de pensar, raciocinar e discutir. A partir do momento em que nos guiamos por princípios morais e éticos, afastamo-nos da evolução natural propriamente dita.
Eu quando falo em evolução natural estou a referir a evolução derivada do maior relacionamento entre as pessoas. Neste momento temos conhecimento de tudo o que se passa no mundo em tempo real, e isso faz com que; ou por mimetismo, ou por comparação, altere os nossos comportamentos.
O modelo Sueco peca porque mascara uma realidade. É como no combate à droga, se multar o drogado e deixar o traficante em paz.
A prostituição existe, é uma realidade, e não podemos estar com falsos moralismos se queremos com seriedade humanizar esse tipo de ” profissão “.
Criminalizar o crime ( tráfico sexual), e criar condições para que a actividade se desenvolva com segurança para todos, penso que é a forma mais acertada de resolver o problema.
Cristina Torrão no seu melhor.
“Pagam por um serviço e sentem-se no direito de o exigir.”
Podia ser de outra forma? Pagarem o serviço e não serem servidos?
Há uma clara mistificação ao misturar duas realidades diferentes: a prostituição e o tráfico. O tráfico é sempre deplorável e, tanto quanto sei, é ilegal em qualquer país ocidental. As jovens do leste são uma terrível consequência dos efeitos do comunismo com a miragem – muitas vezes “fabricada” – do sonho alemão (ou europeu ou americano, veja-se a mesma realidade com latino-americanas nos EUA).
“… a nossa sociedade nunca será igualitária, enquanto os homens se sentirem no direito de comprar uma mulher.”
Desculpe Cristina mas já não tem idade para ser desculpada por naïveté. A quantos casamentos se aplica essa frase? O que pensa de Donald e Melania Trump?
E, quanto a mulheres indefesas obrigadas a sujeitarem-se a decisões autoritárias que nem as respeitam nem são naturais – pela diferença de idades – será que finalmente abriu os olhos e já concorda com André Ventura num dos mais flagrantes problemas da comunidade cigana? Se assim for, parabéns. Mais vale tarde do que nunca.
P.S. – Ainda conheci bordéis legais no tempo de Salazar e não consigo ter opinião formada sobre a questão. Mas, sem dados nenhuns porque, que saiba, não existem, sou sensível ao argumento que se trata de um serviço necessário aos que não têm possibilidades de praticar sexo de outra forma e que, privados dessa possibilidade, poderiam vir a engrossar o número dos agressores sexuais.
O ex-inspector que colaborou no documentário diz que é impossível separar o tráfico da prostituição.
Prostituição é exploração e violência.
O ex-inspector referia-se aos aspectos prácticos. Juridicamente, tráfico, lenocínio e prostituição são coisas distintas embora na práctica surjam misturadas.
Também, segundo reconhece, metade da prostitutas na Alemanha pretendem obter dinheiro para pagar o vício e ainda não vi ninguém a propor a extinção da prostituição como forma de combater o tráfico de estupefacientes.
Outra coisa que devia preocupá-la era a relação das prostitutas com os seus proxenetas e sobre isso já existem estudos. A síndrome de Estocolmo, que também existe, não é maioritária mas o que se passa é que é practicamente impossível obter a condenação de um proxeneta sem a colaboração da prostituta e, na realidade conhecida, as condenações de proxenetas são raras.
A propósito podia seguir a notável repórter da National Geographic Magazine, Mariana Van Zeller. Do artigo de divulgação da Visão cito: No capítulo centrado no tráfico de sexo, Mariana é guiada pelo chefe da polícia de Oakland, na Califórnia, a cidade com mais queixas e casos de lenocínio. “Foi muito difícil ouvir as histórias do que fazem às mulheres, como arrancar a planta dos pés para demonstrar quem manda”, lembra. “Só entendendo o porquê, chegamos à raiz do que está a levar ao crescimento desses mercados”, analisa.
Este é apenas mais um aspecto a ponderar. Se a sociedade não tem ou não quer atribuir meios policiais e judiciais para impedir violências inenarráveis sobre prostitutas então talvez uma qualquer legalização lhes possa oferecer alguma protecção.
Continuo a não ter opinião formada sobre o assunto.
Propor a extinção da prostituição a fim de combater o tráfico de estupefacientes não faz sentido, pois os viciados em drogas não se limitam às prostitutas. Elas são apenas uma parte.
Mas permita-me chamar à atenção que se falou das que se prostituem para poderem pagar o vício, como exemplo de mulheres que não escolheram essa vida de livre vontade, na posse de todas as suas faculdades mentais. É sabido que muitas se metem nas drogas para aguentar esse tipo de vida e entram então no círculo vicioso.
Depois de termos que aturar os pruridos morais da Igreja, que nos queria interditar o aborto, agora temos que aturar os pruridos morais das feministas, que nos querem interditar a prostituição.
É dura a luta pela liberdade.
Pois é. Rais parta as mulheres!
Nada tenho contra as mulheres, que nem referi no meu comentário.
Mas tenho tudo contra as feministas, quando elas se poem a querer impôr a sua moralidade aos outros.
Pela liberdade de quem?
Eu diria que é obviamente pela liberdade duns grandessíssimos filhos da puta, não fosse a alusão a tão rasca progenitura ser injuriosa para estas últimas.
Bem a despropósito, este comentário..
Pela liberdade de quem se quer prostituir, e pela liberdade de quem quer comprar um serviço de prostituição.
Por cá legalmente, com bordéis e tudo, acabou em 31 de Dezembro de 1962.
Num país ultra católico e ultra na família o lugar da mulher é no lar, trabalhar fora de casa masculiniza, nem estava mal. Não sei, e agora não vou pesquisar, como funcionava o negócio, os impostos que iam para o Estado, o se o IT (o iva daquele tempo) era pago em função de algum ‘taxímetro’ nas camas dos bordéis. Sabia-se que nos bordéis as prostitutas eram na grande maioria raparigas que vinha da província trabalhar como criadas de servir e com uma cantiga engravidavam eram expulsas das casas em que trabalhavam e com vergonha alinhavam naquela vida, para ficaram agarradas até criarem varizes.
Mas, com a proibição não acabou a prostituição antes começou outro negócio com as mesmas mulheres a serem colocadas na via pública em ruas conhecidas e nas estradas das redondezas com uma especial selecção de serem destinadas, praticamente, a quem tinha carro.
Com maior criação de empregos, principalmente fábricas em zonas da província, uma maior escolaridade e o ‘amor livre’ dos anos 60, a prostituição foi descaindo com raparigas novas ficando a actividade para mulheres mais maduras, as mesmas que foram envelhecendo e nunca mais ficaram ricas como lhes diziam: com um corpo desses ficas rica depressa. Coitadas.
Incrível, como estes comentadores não perderam uma palavra para a dignidade humana das mulheres que se prostituem, mulheres mantidas à força nessa actividade, sujeitas a violência e chantagens, mulheres que nem podem sair à rua e fazer uma vida normal.
O que interessa é prostituição com boas condições sanitárias para que os homens se possam divertir. Se a prostituta o é contra a sua vontade? Perfeitamente secundário. Se é legítimo sacrificar seres humanos para que outros vivam mais descansados? Claro que é!
Se é tão fácil de resolver o problema, se basta criar as condições sanitárias para que essa actividade fique digna e todos viverem satisfeitos, suponho que os comentadores que assim pensam nada teriam a opor, caso as suas mães, filhas e esposas se dedicassem à prostituição segura e limpa. Uma boa ideia para diminuir crimes sexuais e aumentar o rendimento mensal familiar, não acham?
O meu ‘coitadas’ é um lamento.
…e as muitas que preferem a prostituição a outro “trabalho”. Sim, ainda há pouco tempo deu uma reportagem na TV com várias e vários dessa profissão e na sua totalidade faziam-no porque preferiam. Essas/ esses passavam a ser foras da lei? qual é o seu direito de decidir por eles? (atenção não defendo nenhuma das partes, apenas acho que há um direito de escolha individual)
Não quero decidir por ninguém, quero chamar a atenção para as mulheres que o fazem obrigadas e vivem como escravas. Segundo as assistentes sociais questionadas no documentário, são a grande maioria.
Essa preferência dada em resposta, na tv , foi duma mulher que já estava ‘agarrada’. E quando entram ‘naquela vida’ é como se entrassem no vicio da droga, aliás há anos que as raparigas se iniciam na prostituição para arranjar dinheiro para a droga, arranjado a mentira para pagar os estudos universitários.
A Cristina também devia de falar da prostituição masculina que é um mercado que está a crescer a olhos vistos. O que também é preocupante não só em Portugal como em todo o mundo.
Rui Macedo
Certo, Rui Macedo.
Falei de um documentário que se dedicou à maioritária prostituição feminina. Isso não quer dizer que ignore a masculina. Se algum dia vir um documentário sobre o assunto, ou ler alguma coisa bem fundamentada e pesquisada, também poderei falar. Fica a ideia.
P. S. E ainda há a horripilante prostituição infantil, de ambos os sexos.
Infelizmente!
Rui Macedo
se comentasse que é chover no molhado, pareceria desrespeito duplo, o que nao é o caso.
A situaçao, mundial, é complexa.
Agrada-me a iniciativa sueca ( … “a prostituição não é ilegal, mas pagar para ter sexo já o é. Não é a prostituta que comete a ilegalidade, mas sim o cliente, é sobre ele que a lei actual “).
Ou seja, apesar de causa perdida, acho muito bem que se combata a industria que escraviza as mulheres. E tal como na pandemia, em que fecha tudo porque nao é possivel ter um policia em cada porta, em nome da dignidade das humilhadas, o estado, no caso o nosso, tem de combater (nao permitir) a serio os bordeis.
Num primeiro momento, parecia á generalidade das pessoas que a legalizaçao seria preferivel, o mal menor, mas como aqui se vE, e já ouvi outro especialista, escravatura é escravatura
O gravíssimo problema da prostituição no Leste da Europa, do qual a Alemanha é um dos primeiros países a apanhar por tabela, é da responsabilidade de pessoas como José Mário-Branco que gostam de impôr revoluções e regimes totalitários aos outros. Quando tudo falha, e já não há pão, eles continuam com as suas cantiguinhas libertárias, mas as pessoas passam fome e têm de se prostituir, entre outras inúmeras desgraças e miséria colectiva generalizada que esses amanhãs-que-cantavam produziram.
Quando é que começam a responsabilizar essa gente pelos problemas que criaram?
CT, deduzo que o seu “post”, apesar do título historicista*, se resuma apenas às diferentes abordagens, sobre como lidar com a prostituição, a partir das legislações existentes na Alemanha e na Suécia… o que me leva a deduzir que, pelo que sei, é apenas como estar a discutir como resolver o problema da fome a partir de estudos (ou documentários) feitos nesses 2 países. Ou seja, a questão passa apenas a ser abordada pelo prisma do moralismo: cerca de 400 mil em 83 milhões é a sua real expressão. Sim, claro, com cerca de 15.9% da sua população à beira de ser considerada, oficialmente, como pobre a coisa só pode ter tendência para aumentar. UzMjk4NDA2MTAzMjExMDABVkpiZnpaaDRwTEFKAT AuMQEBdjI).
Devo confessar que nada tenho contra a prática da prostituição, já contra qualquer formato de proibicionismo tenho tudo contra e isto, porque não me lembro de que qualquer um dos muitos levados à avante, ao longo dos tempos, tenha conseguir resolver o que se propunha a resolver – pelos exemplos mais conhecidos da História, deste tipo de abordagem “moralista”, no que invariavelmente deu foi em mais hipocrisias de todo tipo, em estigmatizações maiores das vítimas de que eles se arvoravam em defensores e claro, sem esquecer o mais do mesmo, os habituais lucros para os restritos grupos de “empreendedores” (geralmente associados aos outros) dispostos a correr riscos que as proibições desencadearam.
Está o “modelo sueco” a obter sucesso? Dizem que sim, pelo menos os seus defensores que continuam a ser uma maioria mas depois, todas as vozes que por lá contestam esse sucesso, são confrontadas com um silêncio até nunca antes visto na Suécia: ignoradas quando afirmam que aqueles que a tal lei pretendia dignificar não só perderam direitos, anteriormente conquistados, como passaram até a ser mais estigmatizados do que os “criminosos” utilizadores dos seus serviços, mesmo apesar destes, quando são apanhados, em vez de pagarem “o serviço” acabam apenas a pagar a suposta multa redentora… só que elas é que até ficam a zero!
Mas mais ensurdecedor é ainda o silêncio de que são alvo todos os seus oponentes que insistem que a lei até não só não conseguiu diminuir o tráfico humano com destino à prostituição (foi nessa base que a lei conseguiu angariar muitos votos a favor! Misturando imigração+prostituição+gangs estrangeiros), como até se viu confrontada com um aumento do mesmo (https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=forums&srcid=MTM0NjkzMTI4NTk2MjM5NjQ5NzQBMTAxMT
Muito haveria para dizer sobre esta questão mas, do meu ponto de vista, uma coisa é certa: a repressão quer dos prestadores desse serviço quer dos seus consumidores vai dar ao mesmo.
* Li algures que alguns estudos históricos tinham proclamado que “a mais antiga do mundo” até era a de cozinheiro – ninguém me tira a ideia de que é a “militar”: os cozinheiros só poderiam ter surgido em resultado de um grupo (classe) dominante que só poderia ter surgido a partir de uma ordem social imposta pela força, ou seja, por elementos organizados numa estrutura que estavam dispostos a exercer o que lhes pediam: força sem limites, violência sem qualquer julgamento moral ou ético, submissão completa às ordens dadas… enfim, o que sempre se esperou de militares..
Se uma profissão implica uma remuneração ou uma troca de serviços então as primeiras trocas não foram com certeza por sexo — até porque não devia ser necessário pagar por isso. Aposto mais na violação pura e simples, que até seria geradora de conflitos entre grupos, isso sim um elemento organizador das primeiras economias. Acho mais provável que fazer armas ou pequenos utensílios terá sido onde a “troca” de bens ou serviços terá começado.
Essa coisa da “profissão mais antiga do mundo” ser a prostituição parece-me mais um wet-dream dos camones dos hotéis dos anos 60 e daqueles escritores rascas tipo Henry Miller (muito provavelmente usava um fio de ouro grossíssimo).
Houve um tempo em Portugal – nas trevas do fascismo – em que não havia prostitutas nas ruas nem casas de tia legais.
E de tráfico não havia notícia.
De uma forma geral concordo consigo. Acho uma enorme hipocrisia legalizar a prostituição e a via sueca parece-me potencialmente boa. Considero ainda que num estado social legalizar a prostituição corresponde a considerá-la uma profissão como outra qualquer e portanto, caso se esteja desempregado e exista uma oferta de emprego nessa actividade, dado que não são precisas grandes qualificações para esse tipo de actividade, qualquer desempregado ficaria exposto ao risco de ter de aceitar prostituir-se para não perder o subsídio de desemprego. Por outro lado o conceito de violação, que constitui crime na maioria dos países, se bem que a Isabel Moreira considere, quanto a mim mal, no jornal Expresso de 13/Mar/2021, que esse crime deveria deixar de ser considerado crime público, com a legalização da prostituição a violação deveria passar a dar direito apenas a uma compensação monetária por um prejuízo avaliado pelo “valor do mercado” nos bordéis da zona.
Obrigada pelo seu comentário, j j. amarante. Muito interessante essa sua visão em relação aos desempregados, que prova que a prostituição não pode ser realmente vista como outra profissão qualquer. Tanto quanto sei, a recusa de uma proposta de emprego pode significar o fim do pagamento do subsídio de desemprego.
Como já escreveram comentadores anteriores, há aqui uma confusão entre coacção, que é crime, e prostituição. O crime deve ser combatido, como é óbvio. Quanto à prostituição a minha moral diz-me que é errado e pernicioso para os próprios indivíduos que a praticam (tal como o aborto). Mas nem tudo o que é errado deve ser proibido. O facto de ser a mais antiga profissão do mundo indicia que preenche uma determinada função social. Logo, sendo praticada de livre vontade não me parece que deva ser proibida. O aborto é um assunto bem mais problemático do ponto de vista moral e ético.
Para 10:39
“O aborto é um assunto bem mais problemático do ponto de vista moral e ético.”
Esta a brincar com coisas serias!
Com tantos problemas sociais que ninguém resolve ao longo de décadas, séculos e o aborto é um assunto problemático até dá vontade de rir a hipocrisia da humanidade. Nasce e depois ainda tem que aturar os mau tratos a indiferença dos país da sociedade, isto sim é a verdadeira chaga e problema moral e ético.
Conceição Abreu
Decidir sobre se um outro ser humano deve viver ou morrer é um assunto complicado sim. Sobretudo quando ele não tem voto na matéria. Há dois direitos fundamentais em conflito, o que não se passa na prostituição.
Para: 20:23
A vida é mais a base de conflito do que de paz. E de uma forma simples posso ter a minha opinião:
Abortar é preferível a um nascimento sem amor e com as respetivas consequências (financeira, social, etc…)
A prostituição também pode ter conflitos interiores graves com sequelas para toda a vida, muitas delas são prostitutas por circunstâncias da vida e outras por opção rápida de fazer dinheiro(acompanhante de luxo) mas tudo pode descambar para conflitos.
A prostituição existe porque o Homem é um ser imoral e no que respeita a sexo também se debate com o conflito animal da espécie.
Concluindo e resumindo: O ser humano é desprovido de ética é apenas um animal dito racional cheio de conflitualidade com o seu ego.
Conceição Abreu
Gostei imenso de ler o seu post, Cristina Torrão. Obrigada pela análise adulta e humana.
Também sou de opinião de que só se “melhora” a situação da prostituição com grandes mudanças nas mentalidades, não só da sociedade em geral e dos “clientes”, mas também das próprias mulheres que recorrem a esta “profissão” e que, atrevo-me a dizer, na maioria dos casos, têm uma auto-estima extremamente baixa e não acreditam que podem ter um rendimento próprio de outra forma (salvo, talvez, as “de luxo” e que trabalham por conta própria). Vê-se, aliás, pela maioria dos comentários ao seu post, que há muito que mudar nas mentalidades: atribuir o que se passa ou não sobre este tema a questões políticas parece-me redutor e “sacudir a água do capote”; falar dos direitos de quem se quer prostituir pode também ser falacioso (será que os “clientes” costumam perguntar a quem os vai servir se está a fazê-lo por vocação, por escolha de vida? Pedem licença para as práticas mais violentas ou que mais ferem a dignidade humana? Duvido.)
Tenho comentado várias vezes este assunto com o meu marido e, sinceramente, penso que a prostituição como a conhecemos é tão antiga e está tão arreigada na maioria das mentes como uma solução para pagar contas (principalmente por parte das mulheres) devido à tradição de séculos de não ser permitido às mulheres terem as suas fontes de rendimento provenientes do seu trabalho “digno”. Durante séculos, em muitas culturas e sociedades, às mulheres foi atribuído, principalmente, o papel de cuidadoras da família – trabalho que sabemos bem como é pago – não lhes deixando tempo e, muitas vezes, desconsiderando-as se quisessem ter um trabalho “normal”, acusando-as de estarem a querer roubar o trabalho aos homens, de serem masculinas, etc. Ou seja, durante séculos a “dependência” foi considerada e bem vista como uma característica feminina.
Penso que é por aí, mudando este tipo de pensamento, cultivando uma auto-estima saudável nas nossas filhas, amigas, alunas, em todas as mulheres que se cruzarem no nosso caminho; cultivando o respeito pelas mulheres nos nossos filhos, amigos, alunos e em todos os homens que se cruzarem no nosso caminho; aumentando a consciência de todos para a liberdade de escolha, sim, mas que se entenda a liberdade de escolha como verdadeira liberdade (acredito que haja mulheres que se prostituem por gosto, mas essas, certamente, só aceitarão os clientes que tiverem prazer em servir e, se forem mulheres com uma auto-estima saudável, saberão estabelecer os limites do que aceitam) e não como uma espécie de “escolho a prostituição porque não tenho capacidade para me sustentar de outra forma” (um pensamento triste e que coloca quem o tem numa posição demasiado vulnerável para ser saudável).
Enfim, acredito que há muito a mudar nas mentalidades, sim, e felicito a Suécia por estar a pôr o valor humano acima de outros “valores”. Obrigada, uma vez mais, pela sua publicação tão humana e verdadeiramente civilizada.
Eu é que agradeço o seu comentário. Vou pegar apenas num aspecto, a fim de o completar:
Naturalmente, os “clientes” não perguntam a quem os vai servir se está a fazê-lo por escolha de vida, nem sequer pedem licença para as práticas mais violentas ou que mais ferem a dignidade humana. Esse foi aliás um aspecto focado pelo ginecologista que participou no documentário. Ele colabora com uma instituição que dá apoio a prostitutas “não-inscritas”, que não têm para onde se virar, nem médicos a quem recorrer (e presumo que essa instituição viva mais de doações do que de apoios estatais). Normalmente, são essas mulheres que foram traficadas e não escolheram a “profissão”. O médico foi muito claro a afirmar que elas estão sujeitas a práticas inaceitáveis e não têm o direito de recusar.
Uma outra prática repelente, nos bordeis alemães, é a chamada “flat-rate”. Este termo inglês começou por se usar neste país para definir um serviço sem limite, como o telefónico, ou da rede da internet, que, a troco de um pagamento mensal, permite o uso sem limite. Isso criou uma moda como os bares ou os restaurantes “flat-rate”. Ora, o que são os bordeis “flat-rate”? A troco de um pagamento, não há limite de tempo para um cliente passar com a sua prostituta, o que inclui fazer tudo o que ele deseja. A mulher não tem hipótese de decidir nada, é apenas mercadoria, vale o mesmo que uns tantos whiskies, ou comida de bufete.
É deprimente. E a lei permite tudo isto.
Todos sabem que a prostituição é fruto de algum tipo de violência.
Na sociedade moderna em que vivemos, em que a liberdade sexual é uma realidade, não sei porque as pessoas ainda procuram os serviços de profissionais do sexo, pois as necessidades fisiológicas podem ser supridas, pelos parceiros [ namorados, cônjuges,amigos, vizinhos, etc., etc.].
Creio que há aí um outro fator , normalmente não aceito por muitas pessoas, que é o sado-masoquismo, acrescido pela necessidade de alguns de mostrarem seu poder sobre o outro, ou seja, há muitas pessoas, de índole má ou repulsiva, que sentem prazer em subjugar outras, muitas vezes com violência física.
É evidente que mulheres de países pobres, que vivem sob condições miseráveis, sem nenhuma perspectiva de um futuro melhor, são vítimas de pessoas inescrupulosas, que se aproveitam da fragilidade econômica, social e psíquica delas, pra as colocarem num mercado sórdido, perigoso e na maioria das vezes sem nenhum retorno econômico ou social [a não ser para os traficantes de pessoas e os cafetões].
Neste rol de horrores, os clientes destas infelizes, são também, ou talvez os principais responsáveis por este comércio imoral e abjeto, pois permitem a continuidade deste negócio, que movimenta bilhões de dólares ao redor do mundo, dos quais apenas uma parcela ínfima vai para essas pobres mulheres.
Tendo isto como pano de fundo, creio que o modelo sueco, embora possa não ser o mais melhor, parece-me o mais adequado, pois, como está descrito no artigo, objetiva mudar o objeto de culpa, das mulheres para os homens, de maneira que eles se sintam constrangidos, e possam mesmo ser penalizados por procurarem este tipo de “serviço”.
Pode haver quem tente, mas as necessidades fisiológicas é fazer cócó e fazer xixi. Não podem ser supridas por outros.
Teria sido interessante perceber o perfil do cliente. O documentário não se debruçava sobre isso?
Por acaso, aflorou esse aspecto, sim. Foi feita uma entrevista a um homem (alemão, permaneceu anónimo), que, durante seis anos, pagou serviço de prostituição regularmente. Alegou ter passado por uma fase da vida em que o seu casamento não funcionava. Confirmou sentir-se no direito de exigir tal serviço e nunca lhe passou pela cabeça tentar saber se as prostitutas o faziam de livre vontade ou por serem obrigadas. Confessou, porém, que por vezes sentia um certo desconforto e, a partir de certa altura, se começou a perguntar se realmente se podiam encarar mulheres como produtos de consumo. Aí, resolveu deixar de visitar prostitutas, optando por fazer psicoterapia, a fim de aprender a viver com os seus problemas.
E eu pergunto:
Porque se exige às mulheres que aprendam a viver com os seus problemas e aos homens não?
É verdade que o documentário foi mais focado nas mulheres do que nos clientes. Foram entrevistadas várias ex-prostitutas. Uma delas, que começou nessa vida muito nova, influenciada por um namorado que a usava para pagar as próprias dívidas, contou que uma vez um cliente lhe disse que, pensando no dinheiro que tinha no bolso, ainda hesitou entre usar uma prostituta, ou ir comer um “Donner Kebab”. E assim se comparam seres humanos a sanduiches!
Há dias que queria vir aqui (tenho andado a mil e sem oportunidade de sequer ler o blogue). Só para dizer como louvo a ideia de teres trazido aqui esta discussão. Os suecos estão certíssimos, mas por alguma razão (imagino qual) não são seguidos por outros países.
Obrigada, Teresa.
(por vezes, também me falta o tempo)