O Expresso publicou este sábado um artigo de Marcos Perestrello, que pretendendo ser um exercício de análise aos resultados eleitorais do passado dia 7 de Junho, acaba por revelar-se uma tremenda manifestação de miopia, inaceitável em alguém com os seus conhecimentos e responsabilidades dentro do PS. Bem sei que o artigo em questão (“O Engano”) mais não faz do que sublinhar o entendimento de uma certa corrente do PS sobre as razões do insucesso. O articulista podia ter aproveitado para meditar sobre as razões para a sala do Altis estar vazia às 22h, e para alguns, como Mário Lino, se terem estrategicamente ausentado assim que perceberam que os resultados não seriam de feição para o PS. Ao invés, preferiu teorizar, como se os resultados de 7 de Junho pudessem ser apagados com uma esponja. Percebe-se da leitura do artigo que Perestrello vive noutro mundo. Se assim não fosse mal se admitiria que justificasse a hecatombe do PS com a chamada ‘nacionalização’ da campanha”, a qual, em seu entender, contribuiu para o aumento da abstenção ao conferir ao acto eleitoral “um cariz de inautenticidade com o qual a maioria das pessoas achou que não valia a pena perder tempo”. Quando li esta justificação pensei que Marcos Perestrello tinha confundido o Expresso com o respeitável Almanaque Borda d’Água. Atribuir à “nacionalização da campanha” as culpas pelo mau resultado eleitoral do PS em nada contribui para perceber o que se passou, nem para melhorar o miserável score das europeias nas próximas legislativas. Seria que bom que hoje, quando se reunir a Comissão Política do PS, os seus membros tenham presente que eleições como a do secretário-geral e resultados em congresso como os obtidos por José Sócrates normalmente pagam-se muito caro, em especial em inteligência. A razão de Perestrello esquece que o aumento da abstenção foi irrelevante, se comparado com a abstenção de outras eleições europeias, e que aquilo que deve fazer reflectir o PS é a perda de mais de 500 mil votos, o aumento da votação no Bloco de Esquerda e a elevação do número de votos brancos e nulos. Ignorar as verdadeiras causas do desastre, fazer de conta que o resultado de 7 de Junho se ficou a dever à incompreensão do eleitorado ou a um mero desconsolo deste com o nível de discussão durante a campanha, é querer fazer dos leitores do Expresso, e por antonomásia dos eleitores, perfeitos idiotas. Enquanto Marcos Perestrello e a direcção de José Sócrates continuarem a pensar, mal, que o resultado das europeias não se ficou a dever aos excessos do líder do partido e à forma acéfala como a direcção nacional quis que os eleitores “engolissem” Vital Moreira e os militantes aplaudissem os erros cometidos, colocando o país contra o PS e as tão necessárias reformas, deixando que a oposição se apropriasse de um certo discurso de “verdade”, desvalorizando o papel das oposições, internas e externas, apostando na carreirista unanimidade e contemporizando com o gracejo boçal e a ironia fácil de alguns dirigentes nacionais e membros do Governo, é natural que Marcos Perestrello conclua que “não é simples encontrar uma explicação para estes resultados”. Pois não. A crise financeira internacional e a conjuntura explicam alguma coisa, mas não explicam tudo. E menos explicam a sobranceria, os tiques de altivez, a demagogia de algumas apostas falhadas e a gritante falta de humildade – para não dizer honestidade intelectual e política – de alguns dirigentes. A unidade e a unanimidade acrítica em torno de um líder que conseguiu tornar-se fraco – não convém ter ilusões – e que se deu (e cedeu) ao flanco, não o torna forte. Os membros da direcção política nacional do PS tinham obrigação de ser os primeiros a perceberem isso e a transmiti-lo a José Sócrates. Por lealdade e solidariedade. Persistindo de forma tão grosseira nos erros de análise que o artigo de Marcos Perestrello evidencia, sou obrigado a concluir que o desastre das presidenciais, com a desconchavada escolha de Mário Soares, não serviu para nada. Tal como também não serviram o último Congresso ou as oportunas chamadas de atenção de alguns militantes menos comprometidos com os circunstancialismos eleitorais. Em 25/2/2005, Augusto Santos Silva, no rescaldo da maioria absoluta, escrevia no Acção Socialista que “a vitória do PS é em muito a vitória dos milhares de cidadãos que, primeiro no âmbito do gabinete de estudos e depois no das Novas Fronteiras, participaram activamente na discussão dos problemas do país e na construção de soluções. O PS continua a ser o único partido português com uma relação aberta e regular com a sociedade civil; e essa é uma enorme vantagem sua, sobre todos os outros”. A derrota de 7 de Junho foi a derrota desses milhares de cidadãos que confiaram em nós, socialistas, e foi essa relação aberta e regular com a sociedade civil que se perdeu no curto espaço de quatro anos. Seria bom que hoje a Comissão Política visse isto. Não ser capaz de fazê-lo é subscrever o artigo de Perestrello e ignorar que um partido existe para exercer o poder, para governar e unir as pessoas em torno de um projecto. E não para satisfazer clientelas que buscam numa legislatura a estabilidade económica e a promoção social que uma carreira profissional não lhes deu. Mas para isso, como para tudo na vida, também é necessária alguma lucidez. E coragem para lá da boca. Os erros não se corrigem com dislates.
Direito de resposta
Sérgio de Almeida Correia,

Excelente reflexão, Sérgio. De facto o PS – este PS – nada aprendeu com a estrondosa derrota nas presidenciais. O modo como Sócrates impôs a todo o partido, sem um sussurro de discordância, um péssimo cabeça de lista às europeias diz tudo sobre o funcionamento actual do partido.
Caro Pedro, isto até pode ser apenas uma suposição, mas já pensou no facto de a escolha de VM ter servido apenas e só para prevenir que a n.º 2 da lista fosse ela própria cabeça de lista? É que neste caso a desgraça seria ainda maior…
ou demitem o chefe ou demitem o povo.
e só mais uma coisinha, achar que se pode dirigir um país com campanhas de marketing tipo holmes place não dura para sempre. sobretudo, em alturas de crise. e seria bom que o PS, reflectindo tb. sobre os resultados a nível europeu, percebesse que os eleitores mais descontentes são os de esquerda. Por se sentirem traídos.
Mais assustador, porém, são os eleitores descontentes que desataram a votar na extrema-direita
Olá, Ana Cristina. Pelo que se vai lendo aí em certos blogues, o problema é mesmo o povo, que devia ser ‘remodelado’. Por isso alguns já tentam somar as abstenções aos votos no PS, como Salazar fez no plebiscito de 1933!
Tenho mais dúvidas sobre os «conhecimentos e responsabilidades» do Marcos Perestrelo do que sobre a sua «tremenda manifestação de miopia», Sérgio. Por isso, mantenho-o na conta de um analista mediano e o artigo dele a que te referes só podia ser uma anélise obviamente míope. Fica confirmado aquilo de que eu suspeitava.
Antes de mais, permite-me que te dê as boas vindas. Atrasadas, como já constatei, mas as últimas semanas deixaram-me pouco espaço para a bloga, pelo que só hoje me apercebi que já tinhas iniciado os teus Delitos.
Em relação a este post, subscrevo a tua reflexão. Lúcida e pertinente, como já nos habituaste.
Abraço