Diferenças de estilo e não só


Sérgio de Almeida Correia,

costa passos debate.jpeg

“O dr. Passos Coelho e os seus fiéis julgam que fizeram uma grande obra. Já se esqueceram que a troika os forçou a fazer o que fizeram. Como se esqueceram, com certeza por intervenção do Altíssimo, que não cumpriram o programa (aliás, duvidoso) a que se tinham comprometido. Aumentaram a receita do Estado, sem inteligência ou perícia; e fugiram de reformas substanciais com vigarices, com pretextos e com uma insondável indolência.
Quando o dr. Passos Coelho, lá para Outubro, for delicadamente posto na rua, o Governo seguinte com um bocado de papel e uma caneta arrasará numa hora tudo ou quase tudo o que ele deixou.
Entrou provavelmente na cabeça do primeiro-ministro a ideia perigosa de “deixar um exemplo”. E deixou. Deixou um exemplo de trapalhada, de superficialidade e de ignorância. Ou seja, nada de original.“- Vasco Pulido Valente, Público, 24/10/2014

 

O que Vasco Pulido Valente escreveu há quase um ano está actualíssimo depois do debate de ontem. Os comentadores e analistas já decidiram quem ganhou o debate e porquê. Aos pontos ou por “K.O.” para o caso é irrelevante, porque a decisão final será tomada em 4 de Outubro pelos que se predispuserem a ir às urnas. Sobre essa estatística não me pronuncio.

Notarei, no entanto, que pela primeira vez se viu uma diferença abissal entre Passos Coelho e António Costa. Refiro-me ao estilo, à  abordagem das questões, na substância e na forma, em especial na clareza. Miguel Relvas dizia depois do debate que Passos Coelho tinha de ser mais agressivo e esta leitura já diz quase tudo. Agressivo? Em quê? Como? Era preciso que Passos Coelho tivesse argumentos.

Da ausência destes resultou a forma como se foi esfarelando sem glória ao longo do debate, o modo como se esgueirava às questões (aliás, habitual nele), querendo a todo o tempo repescar um passado que não contou com António Costa na proa para a sua triste caminhada para o abismo, trocando e rectificando os milhões – cinco milhões eram afinal cinco mil milhões e meio, confusões normais mas que antes serviram para se gozar com Guterres e Centeno -, com Judite de Sousa a insistir para que respondesse, uma, duas vezes, ele dizendo que a resposta era simples mas sem a dar, levando forte e feio por causa das despesas de 2015 continuarem no mesmo nível de 2011, encaixando o crescimento da dívida e a queda do crescimento, completamente aos papéis na acusação de que deixou o país mais endividado do que encontrou e fazendo como seu trunfo o cumprimento de um programa de ajustamento que qualquer outro governo na mesma situação teria cumprido, tal como outros antes dele também cumpriram. Com gráficos ou sem gráficos, na retórica de Passos – sem programa e sem contas, como Costa bem sublinhou – só cabia o discurso gasto, passista e passadista. E é evidente que Costa não poderia deixar passar em branco as suas vitórias eleitorais em Lisboa – é sempre aborrecido recordá-las – ou o programa de incentivos ao retorno para jovens emigrantes, verdadeiro número de ilusionismo político, digno de uma feira para parolos, destinado a abranger 20 pessoas num país que só em 2012 e 2013 viu sair mais de 200.000 pessoas. 

O erro de Passos Coelho e de quem o aconselhou foi o de pensar que tinha à sua frente para o debate mais um produto formatado numa jotinha, alguém do tipo “Sócrates”. Alguém a quem, com a sua verve e a experiência entretanto adquirida, seria fácil cilindrar com meia dúzia de patacoadas e o agitar dos fantasmas do passado. Enganou-se. António Costa é politicamente também o produto de uma jota, mas tem claramente a seu favor muito mais do que isso. Aquilo que Sócrates não tinha, e Passos Coelho também não tem, nem nunca terá, é a consistência curricular, académica e profissional. O que cavou o abismo foi a diferença entre ter uma escola, um passado e uma carreira que são conhecidos de todos, e não ter nada. Foi também a diferença entre depender de si ou depender de uma jota, dos padrinhos no partido, do subsídio de reintegração ou dos amigos para sobreviver, ir enchendo chouriços e se manter à tona da água até chegar a sua hora. Encostado às cordas por Miguel Macedo e a trapalhada dos “vistos gold”, a Passos Coelho faltou claramente a muleta de Paulo Portas. Está tudo explicado.  

0 comentários em “Diferenças de estilo e não só”

  1. Se é necessário que Costa ganhe então ponha-se Costa a ganhar. Um chamado debate onde o 1º ministro fez engolir todas as artimanhas metidas descaradamente por Costa. Até as chamadas a Sócrates foram induzidas por este, como naquela habilidade escandalosa para enganar tolos sobre quem provocou e pediu a entrada da troika, o que obrigou Passos a refrescar-lhe a memória. Acho que vou ter que me refugiar na minha ignorância e estupidez, ou então não passo de um passista doentio. Espanto meu ao ver Marcelo dizer que Costa ganhou o debate, e percorrendo todos os painéis constatei que de forma mais ou menos envergonhada praticamente todos os comentadeiros cavalgavam a mesma onda. Devo estar a precisar de consulta médica urgente para por os carretos em ordem. Ou então era necessário que continuassem a carregar Costa ás costas e foi notável a prontidão da sua tropa das canetas e microfones que não se poupou em bondosas bonificações mesmo quando o homem se espalhava ao comprido em cima de fardos de palha meticulosamente montados para o poupar a remendos na pele.

    1. Não se preocupe, estas coisas não são para levar muito a sério. Não vale a pena escandalizar-se.
      Os participantes da sondagem do Observador e o historiador Rui Ramos também viram o debate numa televisão igual à sua. Assim ganham todos, mas eu se fosse a si escrevia ao prof . Marcelo. Não há direito.

      1. Já escrevi. No que respeita á permanência como comentador interessado em acto eleitoral para PR nem me respondeu mas deu a entender que dali não arreda pé

  2. O debate não foi decisivo para alguém decidir o voto. Vejamos as votações nos diversos meios de comunicação que dão a vitória no debate a Costa, em que a Coligação Portugal tem 36 a 40%, o que é normal sabendo que toda a esquerda votou Costa.

    1. Alem de que foi visto por quem provavelmente já tem opinião e se lermos o que dizem comentadores informados (Etv) , demonstram as maiores falacias(mentiras) do debate, cujo autor mais expressivo foi A.Costa ,com mais indiferença de PC em rebater com dados disponíveis.Ou seja no “jogo” a que os analistas se entretém a mostrar que o seu pugilista esteve melhor, vem depois o comité tecnico e muda o resultado! dá para todos os likes.

      1. Do que me recordo AC aos 24 estava licenciado, dava aulas e foi depois assistente na Faculdade de Direito de Lisboa, uma escola pública, não propriamente uma daquelas chafaricas criadas por alguém de má memória para passar diplomas e dar equivalências. Entretanto tornou-se advogado, com escritório ali para os lados das Amoreiras.
        Não sei se por essa altura Passos Coelho já teria o 12.º ano completo ou se já então se limitava a apertar porcas e parafusos.

        Mais coisa menos coisa, é quase o mesmo. Por isso pode continuar a rir-se.

        1. Pois, qual era mesmo a profissão?
          E que tem a ver o facto de PC ter ou não ter o 12 ano aos 24 anos?
          Preconceito burguês, hem?

  3. Vai tudo muito bem esgalhado. Na realidade esta coligação não passa de uma coligação de malfeitores e de incapacitados que ainda pensa que um modelo governativo passa por alimentar a nação com retóricas falsas e mentirosas para encapotar um assalto ao poder que foi feito no derrube do PEC IV.

    Aconteceu o que aqui afirmei, isto é,que o uso de Sócrates seria a Ruína deles.

    1. Permita acrescentar, meu caro Sérgio, algo mais perceptível a este comentário. A diferença não é só de estilo, é de conteúdo. Já vi que muitos hoje preocupam-se com o pós eleições e com a configuração futura da assembleia. E quem está preocupado com isto, em regra, são os adeptos da coligação.

      Ora bem, sabendo que esse eventual “problema” é originado pela má governação da coligação só resta aos eleitores da coligação, que tão preocupados andam, votar no PS. Assim eles prestam o serviço à nação e libertam-se de preocupações.

      Mais ainda, se é verdade que a coligação herdou uma dívida por parte de Sócrates, não menos verdade é que Sócrates com essa dívida gerada deixou obras feitas segundo os critérios políticos e económicos europeus de então. E esta coligação aumentou a dívida sem ter feito nada para além de reduzir a riqueza e criar o caos social, também segundo o critério que eles enaltecem da nova política económica europeia desenhada por Merkel/Schauble. E isto na realidade define quem mal faz e quem é incapaz.

      Como poderá verificar, o estilo não define tudo. É o conteúdo das propostas do PS que oferece um estilo humano e humanizante.

  4. Nas presentes circunstâncias, com uma economia global a desabar e, em risco de termos outra crise, ainda maior do que a de 2008 (ainda hoje a agência S&P corta rating do Brasil para “lixo”), somando uma China, de onde não se consegue saber quase nada mais, India, Bolsas, tudo a cair… isto, já seriam problemas mais do que suficientes mas, há mais, num mundo onde se vê uma escalada de violência, numa Europa que se prepara para largar mais umas bombas e, assim, “picar” o Estado Islâmico, temos a receita ideal onde, Tudo mas, mesmo, Tudo, pode acontecer e, mesmo sendo otimista, não esquecendo a Gronelândia a perder Km/s de gelo, pedaços que se podem ver do espaço, a derreter, elevando o nível dos mares e, pior… provocando a aceleração no caos climático… portanto, quem disser que pode fazer previsões a longo prazo, quando já nem se pode contar com o curto prazo, só pode estar a mentir ou é um idiota.
    Outra coisa que já aprendemos é que a AR até está num edifício muito bonito e modernizado energeticamente mas… quem manda, não mora cá, como se viu com a Grécia, aliás, vemos bem como os “testas de ferro” nos mandam as ordens, quantificam quotas e, por quantos anos… Tudo o que eles quiserem e lhes passar pela cabeça porque, quem deve, entrega a sua liberdade e, os países europeus, andam todos de “canga” bem apertada.
    Quanto ao resto, é tudo espetáculo e poeira para os olhos.
    Nesta perspetiva e, esperando chegarmos todos inteiros às eleições, sem nenhum asteroide “sem carta de condução” que vire no sítio errado ou um terramoto porque, quem andar atento ao chamado Anel de Fogo, os cientistas informam que anda muito ativo ou seja, se escaparmos a qualquer outra partidinha da Natureza porque é, realmente, a única que manda em todos nós, só poderei acrescentar que, nestas eleições, com a miscelânea de problemas com que vamos ter de conviver no futuro, até podemos votar; de olhos fechados, aplicar a técnica do bem-me-quer/mal-me-quer, do Na-na-ni-na-não/ficas-tu-ou-não e, realmente, até é pena, não haver um palhaço ou uma Cicciolina (eleita para o Parlamento Italiano em 1987) que seria uma boa maneira para animar um espetáculo tão triste e enfastiante.
    Como temos de nos contentar com o que temos, desta vez, vou perder a cabeça e, em vez de “espremer” os neurónios a escolher, entre o mau e o pior, vou AGIR e seguir o velho ditado popular usado para a comida, aquele, de que os olhos também comem… e aí, fica tudo muito fácil… voto na Joaninha
    porque, a ela, até tinha perdoado aquela que o Costa fez… sair de mansinho sem responder a perguntas dos jornalistas. Aliás, é o que ele faz melhor, votei nele para a Câmara, mandou o meu voto para o lixo, para ir “chutar” no Seguro e deixou lá alguém em quem eu nunca votaria porque ainda cheira a loção, fraldinha e cueiro, no entanto, também já sabe pôr “a mão na massa” e já criou um fundo de 2 milhões de euros para apoiar refugiados e, se for preciso mais… deve seguir os ensinamentos de quem o meteu lá… cria mais uma taxa… ou duas…
    10/09/2015 – 13:40

  5. Isso era tudo verdade não fosse o “milagre das rosas” que o Largo do Rato continua a querer impingir aos portugueses. E a razão prende-se com a distribuição que tem de ser feita. Já se começam a chegar à frente os primeiros “pardais” . As aves de rapina chegarão mais tarde ….

  6. Deliciosa, ao nível do hilariante, a bazófia mentirosa sobre a redução da dívida da CML e a sua ‘comparação’ com a divida nacional – esta ultima que foi sendo acrescida, desde 2011, com os calotes escondidos pela Socretinada com empresas da esfera do Estado e quejandos, os lastros das PPPs , e sabe Deus que mais.

    A Câmara de Lisboa é a entidade mais subsidiada do país, uma das maiores proprietárias imobiliárias da nação, com um exercito de funcionários que, em grande percentagem trabalham em modo de auto-serviço, não para os lisboetas, mas para auto-justificar a burocracia camarária que os rodeia, uma entidade que sempre se apresentou na primeira linha de benefícios (e ainda beneficia mesmo na mingua de guito depois da pré-bancarrota) da ordenha aos grandes grupos do Estado e Para- Estado e quando se lhe acaba o dinheiro acaba sempre a berrar pedincha de financiamento ao Governo. Alguma vez isso é modelo para o país?
    Pelos vistos é, pois esta trupe, até se topar o logro Varoufakis e se ver a anedotização Syrizesca , andava a contemplar e anunciar a ‘mudança na Europa’, i.e. alargar a ordenha a uma mítica Gamela Europeia – eram mutualizações da Dívida, eram os Pugramas ” Europeus, o BCE a ser ensinado.
    A dívida da Câmara diminui devido a uma taluda, com uma daquelas privatizações de uma daquelas empresas que a xuxalada ‘ chique usava para ir distribuindo os seus ‘cargos’, e para o povão ‘ se vangloriava em abominar. E onde o Governo se comportou como parceiro leal e com decência e zelo ao não ‘etiquetar’ a verba para outras politicas que podia ver como prioritárias ou que poderiam servir a sua agenda politica ou alimentar ‘amigos’. E mesmo quando negociou essa verba, foi objecto de discussão e negociação entre governo e CML que esta receita extraordinária era para amortizar dívida.
    Onde é que está aqui o mérito da gestão socialista e da genialidade financeira do ex-president da Câmara?
    Só se for aquele mérito dos “Colombos” de Pessoa ” justa auréola dada/
    Por uma luz emprestada”!!!

    1. É pena que o patusco do primeiro-ministro não tenha aproveitado a oportunidade para dar umas vergastadas no Costa sobre a CML. Também estava à espera disso. Com tanto para lhe arrear admira-me que o não tivesse feito. Devia-lhe ter dado umas dicas para ele se preparar melhor.

  7. Costa mostrou a sua sublime dimensão de homem de estado em duas ocasiões que contribuiram decisivamente para ganhar o debate; 1ª quando afirmou sem se rir uma coisa que toda a gente sabe: quem chamou a troika foi o PSD através dos bons ofícios do Dr Passos Coelho e do Dr Eduardo Catroga; 2ª que ele, António Costa conseguiu usando para tal a sua lendária habilidade para fazer contas, reduzir a divida da edilidade da capital por ele superiormente dirigida durante vários anos, esquecendo-se, até por uma questão de humildade democática, de dizer que o estado se responsabilizou pelo pagamento de 43% dessa divida.
    Extraordinário! e disse isto tudo e por várias vezes sem se rir. Não senti a minha fraca inteligência insultada porque não tenciono votar nele, mas os que acham que ele é um ás da politica já não sei.

  8. Costa mostrou a sua sublime dimensão de homem de estado em duas ocasiões que contribuiram decisivamente para ganhar o debate; 1ª quando afirmou sem se rir uma coisa que toda a gente sabe: quem chamou a troika foi o PSD através dos bons ofícios do Dr Passos Coelho e do Dr Eduardo Catroga; 2ª que ele, António Costa conseguiu usando para tal a sua lendária habilidade para fazer contas, reduzir a divida da edilidade da capital por ele superiormente dirigida durante vários anos, esquecendo-se, até por uma questão de humildade democática, de dizer que o estado se responsabilizou pelo pagamento de 43% dessa divida.
    Extraordinário! e disse isto tudo e por várias vezes sem se rir. Não senti a minha fraca inteligência insultada porque não tenciono votar nele, mas os que acham que ele é um ás da politica já não sei.

  9. Sim, sim, sim, escola, passado, consistência curricular, carreira BEM conhecida por todos…
    Nem sou assim tão antigo, afinal os meus 50 anos de idade são o suficiente para me terem permitido assistir à ÚNICA verdadeira realização do António Costa, a corrida do Burro contra o Ferrari, ali da bela cidade de Loures para esta ainda mais maravilhosa cidade de Lisboa com o seu vetusto aeroporto, nacionalizado em 1940 pelo Salazar…
    Oh Serginho, já tinha saudades de o ler desde as últimas eleições… Prometo cá voltar daqui a 4 anos!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *