Diário irregular


Sérgio de Almeida Correia,

18 de Fevereiro

 

Um homem nem sempre é a sua circunstância. Muitas vezes será aquilo que fizerem dele. Talvez por isso é que nem sempre nos apercebamos da dimensão de uma tragédia. Um simples gesto pode revelar muita coisa.

 

Esta manhã, quando fazia a minha ronda diária pela imprensa, fui confrontado com a notícia de um filho que esfaqueou a mãe. O filho tem 13 anos. A mãe 40. Que pode levar uma criança a esfaquear a mãe? A insânia não costuma escolher idades, mas também ela pode assumir diversas dimensões. Uma criança normal – aos 13 anos é-se criança – tem sentimentos como um adulto. Apercebe-se das coisas; e embora possa ser, e é, inimputável, na maior parte das situações será capaz de distinguir o bem do mal. E consegue distinguir uma acção justa de um acto tresloucado. Ultimamente são tantos os casos a que assisto, de criancinhas aos berros no supermercado, batendo com ambos os pés no chão e chamando todos os nomes e mais alguns aos pais, enquanto estes riem, até ao rapazola mal educado que só arranja problemas e de quem dizem ser “hiperactivo”, que dou comigo a pensar que estes casos começam a tornar-se assustadoramente banais. Eles lá saberão qual o caminho que estão a trilhar. E o que querem que eles trilhem.

 

O PS voltou a estar mal. É claro que a proposta do CDS/PP quanto à alteração do estatuto do gestor público e a limitação da remuneração dos gestores tinha muito de populista e de oportunista. Desta vez foram o BE e o PCP que quiseram cavalgar a onda de Paulo Portas. O Paulo é um cínico por natureza (politicamente falando) mas desta vez tinha razão. Eu esperava que a minha agremiação tivesse sido capaz de ajuizar a situação aos olhos dos portugueses. E aos olhos dos seus eleitores, começando a separar o trigo do joio. Mas não. Uma vez mais perderam a oportunidade de dar um sinal à sociedade num momento em que muita gente sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Mais dia menos dia isso terá de ser feito e nessa altura lá irão eles a reboque do momento. Depois não se queixem.

 

Aos poucos vamos conhecendo a verdadeira face do Bloco de Esquerda. Em meia dúzia de dias, e não terá sido só por causa das presidenciais e da moção de censura, perderam definitivamente o norte. Os métodos são os habituais. E se a razão foi o facto dele não ter apoiado Manuel Alegre o caso ainda é mais grave. Manuel Alegre devia dizer alguma coisa sobre isto. Oxalá que alguém lhe pergunte.

 

Nunca percebi por que razão para algumas pessoas é tão difícil reconhecer o erro, corrigi-lo e fazer melhor. Com os chineses compreendi que as questões de face são muitas vezes dramas de vida. Entre nós, na nossa cultura, é algo de incompreensível. 

 

Tão incompreensível como ver os nomes de simples técnicos de uma Câmara Municipal na lista de membros honorários de um clube de golfe que tem uma jóia de milhares de contos e que anualmente cobra mais uns milhares de euros a cada um dos seus associados para que mantenham essa condição. Que o Presidente da República seja membro honorário ainda percebo. Que o presidente da Câmara também, embora isso já me pareça menos curial. Mas que simples técnicos – chefes de departamento ou de divisões de urbanismo são para mim técnicos – gozem de igual estatuto numa lista de uma dúzia de felizardos entre o presidente da Federação Portuguesa de Golfe, ex-dirigentes e gente grada ao clube, já não me parece bem. E então quando me esclarecem que os ditos, de vez em quando, até vão jogar e levam os amigos mas não se dão com ninguém do clube, fico desconfiado. E mais desconfiado fico quando sei que há munícipes que conseguem agendar reuniões numa questão de minutos e outros que durante meses nem sequer resposta recebem às comunicações que enviam ao responsável máximo da autarquia, então fico a pensar se não haverá ali algo mais do que uma simples atenção, do que uma simpatia para com os senhores técnicos. A culpa deve ser da minha mania da transparência.

 

Por falar em transparência, lembrei-me da situação ocorrida no sábado passado com o preço da gasolina. Da 95. Quando atestei em Faro estava a €1,55 qualquer coisa. No mesmo dia e numa bomba da mesma marca, na linha do Estoril, estava a € 1,509. No dia seguinte, quando atestei em Cascais, ainda na mesma marca de combustíveis, que o Alfa não faz misturas, paguei o litro a € 1,45 qualquer coisa. O rapaz da caixa esclareceu-me que € 1,509 era o preço recomendado pela marca. Mostrou-me o aviso. A diferença correspondia ao valor da promoção daquele posto. Na auto-estrada, no regresso, estava em todas as áreas de serviço a mais do que € 1,55. Ao chegar ao Algarve estava outra vez a € 1,54 qualquer coisa. Em Faro disseram-me depois que os concessionários não têm todos o mesmo preço. Isso não era novidade. Ninguém me soube foi explicar por que raio no Algarve a gasolina é sempre mais cara do que em Lisboa. Até quando chove durante dias a fio. Tenho impressão de que o tal Sebastião não deverá saber destas coisas. Um destes dias vou ter com ele e pergunto-lhe se sabe qual o preço da gasolina. Se ele não souber escrevo ao Manuel Pinho. Ao Sócrates não, que era capaz de não me responder. Eles agora ofendem-se com tudo e mais alguma coisa.   

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