Diário irregular


Sérgio de Almeida Correia,

15 de Fevereiro

 

Não é saudável passar dias e dias seguidos enfiado num gabinete, rodeado de luzes artificiais, enquanto lá fora a chuva cai e um céu carregado, si gris et si bas, diria o Brel, nos espia pela janela. Não é só o tempo incerto, a atmosfera húmida, o ar doentio da cidade, que retiram luz às nossas vidas, aos dias em que tecemos segredos e preocupações. Lá fora sobram restos. Restos de um país, restos de um jogo de sombras.

 

Francisco Louçã é uma sombra dele próprio. A acutilância sem sentido não revela coragem. É mais fastio e desencanto. Um professor que anuncia um chumbo a um mês de distância ou desconfia das capacidades do aluno ou está ressabiado. O anúncio da demissão de um membro do directório do Bloco de Esquerda (os gajos chamam-lhe a “mesa”), por causa da campanha promocional da moção de censura que terá lugar lá para os saldos da Primavera, confere um ar grotesco a tudo isto. Um líder temido e respeitado que se transforma tão rapidamente em bicha-de-rabear devia ter a lucidez para se ver ao espelho. E rir-se. Ou ir-se. Qualquer uma das decisões seria sinal de sensatez.

 

O mérito leva muito tempo a construir. É como a reputação. Algo que se busca, que um dia se cola à pele e que depois persegue o indivíduo por todo o lado. De perseguidor passa a equilibrista. Ou fugitivo. Funciona como uma aura. Um selo de garantia. E que tem de ser trabalhado para não abalar. Nas cidades pequenas, em ambientes paroquiais, ele não é proporcional aos méritos. Às qualidades. O reconhecimento, como o sucesso, não chega a todos ao mesmo tempo. A alguns chega cedo de mais e aos trinta anos já lhes pesa a barriga no seu corpo de lambisgóias. A outros nunca chega. São os que nunca usam óculos coloridos e não trocam uma mulher por uma “esposa”.

 

Morais Sarmento sublinhou esta noite que há cerca de 85 queixas por dia de violência doméstica. Mesmo sem contar com o número de mortes, físicas e psicológicas, isto devia colocar-nos na primeira divisão dos incapazes de se governarem. Quem sabe se com o FMI estes números não desceriam?

 

Na política interna só há três períodos: o pré-eleitoral, o pós-eleitoral e o entretanto. No primeiro trazem-se os bombos para a rua e lançam-se os foguetes para a festa. No segundo guardam-se os bombos e limpa-se a casa. No entretanto inventam-se pretextos para tirar os bombos do armário e arranjar dinheiro para os foguetes. É como estamos.

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