11 de Fevereiro
Creio que hoje em dia poucas coisas são susceptíveis de me abalarem. O fio dos anos vai-nos criando, quanto vezes de forma perfeitamente involuntária, um escudo que não nos protegendo de nada dá-nos distância e olhar. Não sei se existe alguma patologia que possa ser designada por secura humana e que não transbordando para o exterior, não sendo capaz de nos corroer aos olhos dos outros, nos torna pacientes de nós mesmos, espectadores da forma como a natureza que nos molda se vai inexoravelmente corroendo. Mais do que um estado de espírito. Menos do que uma constatação de enfermidade.
Um caso foi notícia. Os casos que são notícia têm sempre que ver com o fisco nas suas múltiplas formas e nuances. Com o que é tirado, com o que se põe, com o que se desvia; agora também com o que se descobre na sequência de um arrombamento. Uma penhora de um imóvel pode acabar na penhora de uma alma. Não vale a pena comentar. As imagens deprimem-me. Olho para mim. Depois daquele tratado do valter nunca as minúsculas fizeram tanto sentido. Neste país não há velhos. Sobram múmias. E quando estas acabarem há-de ficar o fisco. E um inquérito da Procuradoria-Geral da República.
Está tudo na mesma. Passou quase um mês. Escreve-se no presente o que se escrevia no passado. Tudo se torna repetitivo. A política em especial. Dedico-me a ver os rostos, a coleccionar expressões. O Parlamento. A página oficial da Presidência da República. O cartão do cidadão. Outrora dizia-se dos miúdos mais irrequietos, ou dos adultos mais adolescentes, que lhes faltava um parafuso. Na era das novas tecnologias, na sociedade do risco que Beck anunciou, dir-se-ia antes que este país tem um chip a menos. Ou vários.
É mais difícil regressar quando nunca se consegue verdadeiramente sair. Por momentos ouvi o Pacheco Pereira, o António e o Lobo Xavier. Percebe-se que o Bloco de Esquerda entrou em autogestão. Não tarda e implode. José Sócrates lá se vai aguentando. Dizem-me que vai haver um congresso. Para quê?, pergunto eu. E o senhor dos passos de coelho já fala estrangeiro com os amigos de Paris. Que será feito do Relvas? Ultimamente só vislumbro o Marques Mendes. Não há nada como pôr o homem em cima de um estrado e vê-lo debitar com um microfone. Cavaco Silva foi à “Autoeuropa” com o seu “homólogo” alemão. Voltou tudo à normalidade. Aos chavões. Os antigos que viveram um milhão de vezes sabem como é difícil avaliar o passado. “O que deixamos para trás não é o que ficou gravado na pedra dos monumentos, mas sim o que é tecido nas vidas de todos nós”, disse Péricles.
Não sei se alguma coisa está a ser tecida quando tudo se resume a pedaços de papel. Da penhora ao aviso da hasta pública, da petição à convocatória do Congresso. Se não tem família, quem subscreverá o requerimento para a colocação da lápide no cemitério? Ou ficará sem lápide? Há-de aparecer alguém. Nem que seja um sobrinho, com um papel na mão, a ver se anula a adjudicação. Depois que o Álvaro se finou já não são as memórias dele nem as cartas de amor que são ridículas. Ridículos somos nós. Ultimamente muito esdrúxulos. Definitivamente sem graça. De papel.

Que belo texto, Sérgio. Gostei muito.