Diário do coronavírus (3)


Pedro Correia,

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Farto de estar em casa, dou um grande passeio matutino pela avenida. No supermercado, logo às 10 da manhã, uma grande fila no passeio: gente à espera de entrar a contra-gotas. Como diria um amigo meu, «parece Moscovo em 1980». A fila torna-se muito maior porque as pessoas, em vez de estarem separadas por apenas um metro, como recomendam as autoridades sanitárias, fazem intervalos de três e quatro metros. Um disparate.

Não tenho paciência para bichas. Preciso de ovos, azeite e cebolas: entro na porta ao lado – é também supermercado, mas de produtos biológicos. Nem um cliente. Abasteço-me, pago e saio em menos de três minutos.

Junto ao estabelecimento vizinho, a fila engrossou.

 

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Hoje cruzo-me com várias pessoas de máscara cirúgica na cara. Várias transportam também luvas hospitalares. Interrogo-me para que haverão de usá-las enquanto passeiam os cães pela trela, sabendo que os nossos hospitais continuam com falta destes equipamentos, o que talvez explique o facto de termos já algumas dezenas de médicos contaminados com Covid-19 – o bastonário assegura que 20% dos actuais infectados são clínicos – e de as farmácias no centro de Lisboa persistirem em alardear esta carência.

«Não há máscaras, álcool gel, álcool, luvas, termómetros», esclarecem várias, logo à entrada.

 

Vejo mais gente na rua. Isto provavelmente acontece por este ser o último dia antes da prevista declaração do estado de emergência – algo que nunca aconteceu desde a entrada em vigor da Constituição de 1976. O Público revela hoje que existe um conflito entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa: o Presidente advoga o estado de emergência, mas o primeiro-ministro não é nada entusiasta desta solução.

Nisto, alinho com Costa. Os nossos compatriotas têm dado um admirável exemplo de contenção e respeito cívico pela calamidade que o mundo enfrenta. Centenas de milhares de portugueses, sem decreto algum o exigir, confinaram-se voluntariamente às quatro paredes do domicílio, cumprindo de forma exemplar as normas sanitárias.

Para quê restringir ainda mais os direitos, liberdades e garantias? Para quê condenar à falência milhares de pequenos estabelecimentos comerciais que lutam em desespero pela sobrevivência e, se fecharem agora, poderão nunca voltar a abrir?

42 comentários em “Diário do coronavírus (3)”

    1. O chamado “isolamento social” vigora desde a declaração do estado de alerta, há cinco dias.
      Não foi necessário recolher obrigatório, não preciso mandar a tropa para a rua vigiar os movimentos dos cidadãos, não foi preciso implantar o estado de emergência.

      Convém não esquecer que há serviços essenciais do Estado central, da administração local e da iniciativa privada que devem continuar a funcionar. Sob pena de se quebrar, por exemplo, toda a cadeia de abastecimento público de víveres, medicamentos e combustível.

      Há que levar ainda em conta que a proclamação do estado de emergência condenará à extinção muitos postos de trabalho – mais ainda do que aqueles que já se encontram sob ameaça directa e concreta.

  1. Sabe que esta que lhe escreve, não entrou em modo “esquilo neurótico”. Nem um rolinho de papel entrou nesta casa, para além dos que já cá moravam. Mas a ser declarado o estado, vai ficar em maus lençóis. Se vier a ser declarado, espero que o seja com conta peso e medida. E que aqueles que esvaziaram prateleiras tenham a réstia de decência de deixar quem realmente precisa – porque não amealhou desenfreadamente – de comprar “qualquer coisa”.

    Se acorreram em massa aos supermercados sem uma medida destas, imagine-se o que será estando na iminência de ser declarado.

    Enfim.

    1. A população, cordata e cívica, respeita as normas do isolamento social ditadas pelo estado de alerta em vigor.
      Os serviços mínimos – e máximos, na saúde pública – têm decorrido sem abalo nem constrangimentos, salvo casos muito pontuais.

      Neste cenário, proclamar o estado de emergência pode complicar muito mais do que solucionar.
      Desde logo, corresponde à descida de um degrau por parte do Estado – o degrau que conduz do alarme ao pânico.

      Introduz, além disso, um precedente perigoso em matéria de supressão de direitos, liberdades e garantias. Questão que justifica reflexão séria e profunda, não um carimbo automático para picar o ponto.

  2. Concordo com o Pedro e com o PM.

    “Os nossos compatriotas têm dado um admirável exemplo de contenção e respeito cívico pela calamidade que o mundo enfrenta. Centenas de milhares de portugueses, sem decreto algum o exigir, confinaram-se voluntariamente às quatro paredes do domicílio, cumprindo de forma exemplar as normas sanitárias”.

    Prevendo já o Estado de Emergência vou tentar ir, amanhã, ao Gerês. Completamente só.

  3. Porque hoje são 450, depois 600, 800, 1000, 1200, 1500…….. e quanto mais sairmos de casa mais rápido os números vão subir e mais pessoas de grupos de risco vão apanhar.

  4. E não tem por aí uma hortinha da vizinha à mão?
    Ou tem e por azar não o olha com ar amistoso?

  5. O post é o bom retrato do momento.

    As duas ideias da entrevista de ontem: (mal) não estamos preparados para enfrentar o caos que se avizinha e adivinha a nível dos recursos físicos e humanos na saúde e (bem) há ou parece haver a preocupação em travar (atenuar) as consequências económicas para as famílias e empresas. Pensar em rendimentos e economia quando está em causa a sobrevivência parece frio, mas não é. É também tratar de vidas e impedir que a desorientação e desespero se instalem.

    1. De acordo. Sublinho, aliás, que um estadista nunca deve tratar da doença sem ter o pensamento fixo na cura.
      Acontece que certas “curas” são outra forma de doença. Convém não esquecermos isto.

  6. Onde vivo, o centro Comercial está praticamente deserto, com excepção do Supermercado, que ainda assim tem muito pouca gente.

    Não falta praticamente nada, excepto alternativas de preço mais baixo em 3 ou 4 produtos, e o álcool.

    Só há uma marca de papel higiénico, por exemplo, o resto das prateleiras estão vazias (continuo na duvida se hei-de esclarecer as pessoas que a água também lava os delicados rabiosques), só há ovos do tamanho S, as conservas são poucas, não há esparguete.
    De resto, não fosse a ausência do habitual ruído de fundo e do deserto de pessoas nos corredores, seria um dia normal.

    Há muitas lojas fechadas, o cinema, o Gato Preto, a SportZone, e outras têm aquelas fitas a impedir o acesso. A farmácia tem acesso condicionado, na zona de restauração, onde estão sempre mais de 100 pessoas, vi oito pessoas que se atreveram a almoçar, e o parque de estacionamento está por uns 10% de ocupação.

    Nas ruas, poucas viaturas, e as lojas maiores têm pessoas cá fora, e apenas uma ou duas lá dentro.Máscaras, luvas, e um afastamento anormal.

    Em minha casa tenho 2 velhotes a reclamar que isto é pior que o fascismo, e que estão presos e mais não sei o quê é o que dá estar quase nos 90.

    Eu e a cara metade trabalhamos em casa, como sempre, mas fechamos as actividades presenciais, agora é tudo via skipe.

    Os miúdos também estão em isolamento social voluntário, e também fazem tele-trabalho.

    O pior disto tudo é a distancia que nos separa, mas temos todos de contribuir para o bem comum, por isso cabe-me fazer as compras, que é a única coisa que me faz sair de casa.

    E é isto o meu diário, o que deve ser comum à maioria.

    Aproveitar também para ler o que ainda não tinha sido lido, para ver filmes, e por a conversa em dia.

    Como dizem alguns com alguma piada, como é que vamos agora sobreviver em família? Corremos o risco de nos conhecermos melhor!

    Saude para todos, e muita serenidade.

    1. Eheh. Calculo que depois disto vão disparar as separações, impostas pelo convívio prolongado e forçado.
      Costuma acontecer na sequência de férias, por exemplo.

      Convém ter calma. Como diz, aproveitemos para cozinhar, ler um bom livro, ver filmes e séries, fazer um saudável jejum do futebol.

      E recarregar baterias para o que virá depois destes atípicos dias de Março – que, apesar de tudo, poderão ser uma insólita bonança antes da verdadeira tempestade.

  7. condenar à falência milhares de pequenos estabelecimentos comerciais que lutam em desespero pela sobrevivência

    Pois, mas o facto é que o povo parece não estar minimamente interessado na sobrevivência desses pequenos estabelecimentos. Pois que, todo o povo acorre em massa aos hipermercados, prestando-se a ficar horas na fila para neles entrar, enquanto que os pequenos estabelecimentos estão às moscas.

    O facto é que as pessoas estão na fila porque vêem outras pessoas na fila e imitam-nas. É tudo o espírito do macaco: fazer o mesmo que os outros fazem. Se toda a gente está na fila para o Continente, as pessoas põem-se também na fila para o Continente; se toda a gente compra papel higiénico, então nós compraremos papel higiénico também.

    Entretanto, mesmo ao lado do Continente estão montes de pequenas lojas, que permanecem às moscas porque toda a gente decide imitar toda a gente e ir para o Continente comprar papel higiénico.

    1. O problema da declaração do estado de emergência é que essas lojas pequenas deixarão de ser alternativa: só ficarão mesmo abertas as grandes superfícies.
      E muitos postos de trabalho serão destruídos por via deste decreto musculado que o Presidente já prepara. Não vejo a menor necessidade disso: é uma resposta desproporcionada ao problema que devemos enfrentar por outros meios.

  8. “é também supermercado, mas de produtos biológicos.” Detesto produtos biológicos mas desta vez lá terá que ser. Boa ideia a que me deu.
    Também alinho pelo Costa a respeito do estado de emergência. Mas muita gente quer é medidas vistosas e que se notem bem. A racionalidade, se não se exibir com cores berrantes, interessa pouco. Máscaras vêem-se mesmo que ineficazes. Estado de emergência também dá eco. Escolas fechadas dão barulho nos media. Ainda nem percebi por que dizem que não devemos sair à rua. Se mantiver as devidas precauções, qual é o problema? Ser não se puder sair por muito tempo, isso não terá custos psicológicos elevados? Há notícias (sobretudo a maneira de as dar, a porcaria dos directos teatrais) que parece que são intencionalmente para deprimir.

    1. Vale a pena reflectir em tudo quanto escreve.

      Quanto ao supermercado que refiro, encontrei lá tudo quanto precisava – ovos, azeite, cebolas, fruta – sem confusão, sem espera, com um funcionário a desinfectar o balcão. Preço ligeiramente mais caro do que na porta do lado, mas por tão pouco valeu a pena e poupou-me àquela longa bicha no passeio, acrescida da inevitável demora lá dentro.

  9. Adenda: acho que circula na Net um abaixo assinado a favor da emergência. Os políticos não devem ceder se não houver razões para isso.

  10. Importante:
    “Mas todas as minhas inquietações se agravarão se o Estado de Emergência for decretado sem justificação clara e sem um apoio alargado nos vários órgãos de soberania.
    Em nome da coesão que tem marcado a forma como estamos a lidar com a emergência sanitária em Portugal, espero mesmo que ninguém se precipite nesta tomada de decisão.»
    Ricardo Paes Mamede no Facebook.
    Há mais opiniões neste sentido.
    Peço desculpa por pôr tantos comentários seguido: o assunto parece-me de extraordinária importância.

  11. Os bons portugueses cívicos são um espectáculo, hoje duas senhoras tiraram as máscaras para dar um beijinho. A OMS só recomenda o uso de máscaras a quem está infectado, mas o que é que eles percebem disso? Toda a gente sabe que esta epidemia é uma fabricação da imprensa e um golpe dos chineses, americanos e norte-coreanos.
    Os bons portugueses cívicos realmente enfiaram-se em casa, mas antes despejaram os hipermercados. Fizeram bem, eu devia ter feito o mesmo, em vez de ir na conversa do não açambarcar. Amanhã, para comprar fruta, legumes, e pasta de dentes, vou para a fila, até porque os nossos empresários, sempre na vanguarda das novas tecnologias, têm filas no online, que pelos vistos era só uma coisa para fazer vista.
    Também acho bem que reduzam os horários, nada como juntar mais gente em menos tempo para evitar enchentes.
    Abril vai ser pior, dizem. Maio vai ser o pico. Deve ser a fase em que se anda à naifada por uma lata de atum.
    Sem problemas. Quando se acabar a comida por aqui telefono para o SNS a pedir medicamentos em casa – ovos, tomate, laranjas, frango, e outros.

    1. Há sempre a alternativa de ir pedinchar à horta do vizinho, como sugeriu a senhora directora-geral da Saúde.

      Ou fazermos como aconteceu nos anos da II Guerra, em muitos prédios de Lisboa, quando escasseavam bens essenciais: as pessoas transformaram as varandas em capoeiras, onde faziam criação. Ovos, pelo menos, nunca faltavam.

      1. Quando tivermos cem mil infectados – faltam só 16 dias – é você a pedir o estado de emergência. Não é para manter as pessoas em casa, é só para ter água corrente.
        Não foi assim há tanto tempo que tínhamos 2 casos e a Cristina Ferreira brincava com a situação. Ainda há quem brinque, mas estão a perder a piada a cada dia.

      2. Leia o comentário do Cunhado do Acutilante. Não sei se é verdade o que ele descreve. É plausível. Daqui a um mês é muito provável. E eu acredito no que ele escreveu. Já. Você continua em negação. Quererá provas. Se vir um vídeo dirá talvez que é falso, que isso não é cá, que o povo é sereno. Se alguém lhe contar dirá que está a exagerar. Até ser a sua filha.
        Nunca se esqueça que é o mesmo povo que disparou um verylight numa partida de futebol e matou um adepto. O mesmo povo que ainda hoje imita o som do verylight nos estádios.

        Uma grande amiga minha nasceu em Angola. Um dia os pais proibiram-na de sair para brincar com os amigos. Era miúda, um dia escapou à vigilância e saíu. Os amigos, miúdos como ela, tinham Kalashnikovs. Não foi isso que a marcou para a vida. Foi o modo como olharam para ela.

        As coisas, caro Pedro, mudam muito mais depressa do que parece possível.

    2. Caro António.
      A minha filha hoje foi ao Continente. Pouco depois chegou a casa sem nada.
      À minha admiração, explicou-me que para lá do acesso condicionado aos clientes, os que saiam com os carros das compras e enquanto abriam a bagageira das viaturas, eram roubados descaradamente por outros.
      Portanto as naifadas que preconiza devem ser já para amanhã.

  12. Retrato da nossa realida de hoje muito bem feito por Pedro Correia.
    Comecei a desconfiar do que ai vinha quando fui à farmacia do Bairro. Pela primeia vez, uma fila anárquica, tudo menos indiana. A Dª Consuelo(60/70 anos ,armada em dondoca) chega meia hora depois, mete conversa com os 2 senhores à minha frente, lado a lado, e fica lá como lapa. Questiono-me : mando-a lá para trás? Eh Pá aguenta aí : vão chamar-te machista
    Atrás de mim outra senhora(45/50 anos) diz :é preciso lata, depois falam dos jovens!
    Pois, duas mulheres de gerações diferentes, tão desiguias.
    Já o outro falava da epidimia grisalha…..
    SL

  13. Na farmácia aqui da zona, os balcões estão revestidos em U por acrílico, com abetura para passar os medicamentos e receber o dinheiro. Bem na linha que advogo para começarmos a trabalhar no pós quarentena. Não demorei 5 minutos. Todos respeitando e sendo respeitados.
    Na Espanha, na Itâlia, na Alemanha os números continuam em ascensão, imparáveis.
    Isto não sou eu a armar em arauto da desgraça nem em intelectualzinha de pé de chinelo. Limito-me a constatar factos do conhecimento geral.
    Boa continuação de quarentena a quem o faz de consciência ou não.

  14. as dezenas de médicos contaminados e outro pessoal sanitário e doentes, deve-se aos pacientes que estão dias nos corredores em macas , graças ao óptimo sns , cheio de recursos… tiveram um homem 8 dias assim , no corredor, nas urgências de Santa Maria ,sem ser diagnosticado, a infectar quem passava. insiide information.

    1. Há o receio crescente de eventual colapso do SNS. Receio gerado sobretudo pelo cenário italiano: o sistema de saúde da Lombardia, a mais rica região de Itália, já colapsou.
      Daí a necessidade imperiosa destas medidas profilácticas, que ninguém discute.

  15. “[A]s pessoas, em vez de estarem separadas por apenas um metro, como recomendam as autoridades sanitárias, fazem intervalos de três e quatro metros. Um disparate.”

    Tenho que o corrigir neste ponto. Independentemente do que diga a DGS (e que coisas tem dito…), os standards internacionais foram sempre cerca de 2 metros (veja-se as directrizes do CDC americano – “stay at least 6 feet away from others”, disponível em https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/downloads/Seattle_Community_Mitigation.pdf).

    Por outro lado, e especificamente em relação ao COVID-19, uma investigação recente de cientistas chineses (é preciso ver que o virus é novo e os dados escasseiam) aponta para que o vírus possa viajar 4,5 metros pelo ar “em ambiente fechado com ar condicionado” .(https://www.scmp.com/news/china/science/article/3074351/coronavirus-can-travel-twice-far-official-safe-distance-and-stay).

    Os tugas não estão a ser disparatados de todo (ainda que ao ar livre, neste caso…).

  16. Por outro lado, já não há “precedente perigoso em matéria de supressão de direitos, liberdades e garantias” a introduzir após Outubro de 2017.

    Nesse dia, as forças de segurança foram instruídas para levar velhinhos algemados para longe das suas casas se eles ali quisessem ficar para as defender do fogo que as ameaçava.

    Foram proibidos pela força cidadãos de correrem risco para defender a sua propriedade e os seus animais.

    Nos dois anos seguintes, esses animais que os cidadãos não podiam arriscar salvar da morte, dar-lhes uma pantufada passou a ser punível com prisão.

    E essas vidas próprias que as pessoas não podiam arriscar para defender o que era seu, passou a ser-lhes possível exigir ao Estado que lhas tire.

    Já não há mais nenhum precedente a introduzir.

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