Dia mundial do livro


João de Teste,

«Fargas meteu as mãos nos bolsos das calças e passeou junto dos livros, oscilando sobre a perna inválida, olhando-os um a um. Parecia um magro e desastrado Montgomery que passasse revista às suas tropas em El Alamein.

– Às vezes nem lhes toco nem os abro. – Detivera-se, inclinando-se para reajustar um volume na sua fila, sobre a velha alcatifa. – Limito-me a limpar-lhes o pó e a contemplá-los durante horas. Conheço em pormenor o que há sob cada encadernação (…)

Corso folheou um livro. Era um exemplar magnífico, também com margens muito largas. Devolveu-o ao seu lugar com cuidado antes de se erguer, limpando os óculos com o lenço. Aquilo era capaz de provocar suores ao mais frio.

– O senhor não está bom da cabeça. Se vendesse isto tudo, não teria problemas económicos.

– Eu sei. – Fargas inclinou-se para rectificar imperceptivelmente a posição do livro. – Mas se vendesse isto tudo, já não teria razão para continuar a viver e portanto ser-me-ia indiferente deixar de ter problemas.»

Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas

8 comentários em “Dia mundial do livro”

    1. 1 – Na palavra “morte”, está toda a ideologia “Ocidental”. E simultaneamente, todo o limite da linguagem, e toda a sua ditadura uniformadora (socializadora) das diferenças e idiossincrasias.
      2 – A linguagem e a comunicação mediadas pela “palavra” (pela escrita, pelos “livros”, pela fala) são o nosso algoz.
      3 – Todas os “livros” são um modo algorítmico de nos imporem os signos (palavras, símbolos, ícones, índices, significados, significantes, referentes, sinais de pontuação, regras gramaticais, etc.). São um modo “em sequência” de ordenar os signos, que impede o modo logarítmico (daí a cisão na Cultura Ocidental entre a matemática e a escrita; entre, de um lado, as Humanidades, e do outro lado, a Lógica e a Ciência). É esse mundo que está a morrer, também, quando afirmo: “o livro morreu”.
      4 – Por exemplo, nessa palavra “morte” (“morreu”) vemos, com extrema nitidez, essa escravatura a que a palavra e a escrita (a linguagem) nos submeteram/submetem. Cujo “livro” — esse cesto portátil de palavras — é o seu arcanjo implacável.
      5 – “Morte”, para mim, significa outra coisa muito diferente do que outros significados usados para o significante “morte”. “Morte”, não tem de ser necessariamente o “fim” absoluto de qualquer coisa. Pode ser apenas a mudança de um estado ou de uma fase de transição de uma mesma coisa, que continua e permanece num processo contínuo de metamorfoses.
      6 – A concepção Ocidental de “morte” (a que a esmagadora maioria das pessoas usa actualmente) iniciou-se com a destruição que Santo Agostinho fez à concepção anterior de “Tempo” (como Testot, e muitos outros autores prestigiados, tão bem souberam estudar e documentar).
      7 – Até à reforma Agostineana, o Tempo era concebido como um ciclo circular em permanente fluxo, que nunca acabava. Depois, passou a ser concebido como algo que tem «um princípio (passado), um meio (presente), e um fim (futuro)»; como algo que «nasce, cresce e termina». Foi essa ideologia absurda e ilusória que criou o relógio, que está na base do Império Ocidental da Industrialização e Colonização (os famosos “Tempos Modernos”, como Chaplin tão bem soube ficcionar em filme). Esse “relógio” passou a aprisionar o Tempo, e convenceu-nos de que o Tempo «começa, tem uma duração e acaba. Que o “perdemos” ou “ganhamos”, que o temos a mais ou a menos. Que nos «falta muito» ou «pouco», até finarmos nos túmulos.
      8 – Ora, o conceito de “morte” (“morreu”) ficou prisioneiro dessa ideologia medieval Ocidental, até hoje.
      9 – Em 2010, na universidade de lisboa, num trabalho sobre a Cultura e o Património, tive a oportunidade de apresentar uma teoria do Tempo e do Objeto (considerado como o referente de todos os objetos, coisas, factos, ideias, etc.), que designei por “conceito heptadimensional do Objeto”, exatamente para demonstrar as sete fases a que todos os Objetos estão sujeitos no Tempo, face à nossa actual capacidade cerebral (neuronal-sináptica), perceptiva e sensorial.
      10 – Nessa «teoria heptadimensional do Objeto e do Tempo» (e, por conseguinte, do próprio conceito de Real/Realidade), estão descritas essas sete fases de transição: desde a nossa primeira percepção e representação do Objeto na imaginação; passando pelos materiais e actos que usamos para materializar (escrever, desenhar, construir) essa ideia; até ao “objeto” que usamos para comunicar o Objeto (por exemplo, quando enviamos uma foto ou um ficheiro do Objeto pelos computadores; ou quando o descrevemos e comunicamos pela fala); até à codificação em memória do Objeto (que cria outro “objeto do Objeto”); e finalmente, até a um recomeço inicial, derivado dessa codificação em memória (seja em ADN, ou através das técnicas de Documentação e Musealização, ou num suporte magnético qualquer) influenciar a nossa imaginação na criação de “novos” Objetos (obras).
      …
      (Cont. até 14)

    2. (Cont. até 14)
      11 – Portanto, a minha afirmação, “o livro morreu”, significa uma coisa e uma consciência da realidade muito diferentes daquilo que as palavras pareciam querer dizer numa apreciação imediata e uniformizante.
      12 – Assim sendo, “o livro morreu” significa: «Outro tipo de livro há-de nascer».
      13 – Mas como ainda cá não chegou, nem sabemos ainda como será, não temos palavras nem linguagem para o dizer e comunicar. Logo, é ainda um facto IMPRONUNCIÁVEL e INDIZÍVEL. Mas não é por isso (ao contrário do que Wittgenstein afirmou, de “que nos devíamos calar para sempre”), que deixamos de saber (acreditar) que irá irremediavelmente chegar cá e existir.
      14 – E, nessa disparidade entre a Linguagem e a Existência, percebemos o quanto os livros e as palavras nos escravizaram e roubaram a Liberdade.

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