Dez livros para comprar no Natal


Pedro Correia,

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Livro sete: O Homem Fatal, de Nelson Rodrigues

Edição Tinta da China, 2016

368 páginas

 

Foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa do século XX. E um dos mais insuportáveis cronistas da imprensa brasileira para os seus alvos de estimação, que dardejava com impiedoso sarcasmo e um perfeito domínio estilístico.

Um desses alvos era D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”, dizia dele Nelson Rodrigues (1912-80), pré-moderno assumido, alérgico aos “padres de passeata” e à esquerda em geral. “O Reacionário”, assim se autodefinia – de tal maneira que deu este nome a um dos seus volumes de crónicas, surgido em 1977.

Desse e de outros dois – O Óbvio Ululante (1968) e A Cabra Vadia (1970) – Pedro Mexia recolheu 80 crónicas, a que introduziu prefácio e reuniu num livro intitulado O Homem Fatal. Um dos acontecimentos editoriais do ano em Portugal: era chocante a ausência no mercado nacional das obras deste dramaturgo, romancista e jornalista que mantém uma legião de leitores fiéis em ambas as margens do Atlântico.

Oriundo de uma família de repórteres tarimbeiros, que gostava de equiparar aos “remadores de Ben-Hur”, Nelson Rodrigues começou a trabalhar em jornais com apenas 13 anos. Fez o tirocínio da profissão como redactor desportivo e criminal: cultivava hipérboles e costumava dizer que manchete sem ponto de exclamação era “jornalismo castrado”.

Publicadas durante anos na última página do diário O Globo, as suas confissões bastavam para assegurar a popularidade do periódico, polarizando opiniões: ou se amava ou se detestava este admirador de Eça de Queirós que enriqueceu o léxico comum do Brasil com expressões da sua autoria. Exemplos: “óbvio ululante”, “cabra vadia”, “calor de derreter catedrais”, “mau tempo de quinto ato do Rigoletto”. Sem esquecer a “grã-fina com narinas de cadáver”, que no estádio do Maracanã perguntava: “Quem é a bola?”

Poucos como ele cultivavam com tanto requinte a arte do aforismo, que ia repetindo de crónica em crónica sem recear vencer o leitor pelo cansaço. Alguns ascenderam à glória do provérbio: “Toda a unanimidade é burra”; “todo canalha é magro”; “invejo a burrice porque é eterna”; “a televisão matou a janela”; “o dinheiro compra tudo – até amor verdadeiro”, “a companhia de um paulista é a pior forma de solidão”.

Frase imortais deste pernambucano de nascimento mas carioca adoptivo, um sedentário que só viajava nas letras, anacronismo vivo que supera incólume todos os testes do tempo.

4 comentários em “Dez livros para comprar no Natal”

  1. Bem sei que estou a abusar, mas em verdade lhe digo que, tendo em consideração a quadra, poderia incluir, na lista, a Bíblia, traduzida, do grego original, pelo Bem Aventurado Frederico Lourenço. Bem sei que este classicista adopta o acordo ortográfico, mas quero crer que não será este o seu único pecado.
    Obrigado Frederico, pelo excelente trabalho

    1. Agradeço-lhe muito a dica, Elias. E prezo o labor intelectual de Frederico Lourenço. Mas regras são regras: na rubrica “Sugestão: um livro por dia” só destaco obras com grafia pré-AO90. Felizmente não falta boa matéria-prima. Como diariamente se comprova.

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