Livro dez: Macbeth, de William Shakespeare
Tradução de José Miguel Silva
Edição Relógio d’ Água, 2016
149 páginas
Um clássico, ensinou-nos Italo Calvino, é uma obra literária que nunca cessa de dizer aquilo que tem a dizer. Felizmente ainda existem entre nós editoras que apostam nos autores clássicos – aqueles que conseguiram seduzir sucessivas gerações de leitores em diversas latitudes e continuam a possuir o dom de nos elevar acima da mediania.
Um dos mais recentes clássicos reeditados entre nós, em irrepreensível tradução de José Miguel Silva, é este Macbeth – que integra o quarteto de tragédias capitais nascidas do génio de William Shakespeare (1564-1616), em conjunto com Hamlet, Otelo e O Rei Lear. Ascensão e queda de um tirano assombrado pelas suas vítimas, este drama em cinco actos é uma viagem à face mais sombria da política, simbolizada no usurpador do trono escocês e da sua mulher, Lady Macbeth, uma das maiores vilãs da história da literatura, que implora desta forma aos espíritos malignos: “Despojai-me do meu sexo e cumulai-me / de terrível crueldade. Que meu sangue / se adense, impedindo a passagem ao remorso; / que nenhuma compaixão possa abalar / os meus ímpios desígnios, interpondo-se / entre eles e os seus efeitos.”
Todas as paixões andam à solta neste magnífico texto teatral em que Shakespeare leva mais longe do que em qualquer outro a sua indisfarçável “extravagância da imaginação”, como acentuou o crítico britânico William Hazlitt (1878-1830) num ensaio incluído em posfácio desta edição. A Relógio d’ Água, recorde-se, já deu à estampa Henrique IV, Ricardo III, Hamlet, Romeu e Julieta e O Mercador de Veneza, entre outros títulos do cânone shakesperiano, revisitado com justificado interesse neste ano em que se assinala o quarto centenário da morte do escritor.
Para George Steiner, Shakespeare era “um ser cujos poderes criativos, num certo e determinado sentido, rivalizavam com os da natureza e da divindade”. Na mesma linha, Harold Bloom enaltece-o como “único rival possível para a Bíblia em termos de poder literário”. Atributos bem patentes neste Macbeth, cheio de solilóquios que ilustram o enigma da condição humana no ilusório palco da vida, tantas vezes percorrido por torrentes de “som e fúria” em direcção ao nada.

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Lembro-me de há uns anos uma qualquer Universidade Dinamarquesa, penso eu, ter realizado uns estudos cientifico-forenses no suposto cachimbo usado por Shakespeare.
Tinham concluído que a possível originalidade desse poeta Maior seria o Canábis. Afirmavam ter descoberto resíduos desta planta no fornilho.
Recordo-me, na altura, de pensar, haver sempre gentalha disposta a banalizar o bem. Banalizando-o perdem a vergonha das suas próprias macacadas.
Cá está uma obra que me interessa, apesar de já a conhecer parcialmente da adaptação por Verdi, fico ainda a aguardar Rei Lear a outra que juntamento com Hamlet formam o trio do que mais gosto de Shakespeare.
Good. Realmente “nos Céus e na Terra há muito mais do que tudo o que possas sonhar com as tuas filosofias…”.