
Livro nove: Por Vezes É Preciso Trair, de Kamel Daoud
Guerra & Paz, 2026
77 páginas
Ser hoje escritor de língua francesa na Argélia tornou-se um acto heróico. Uma espécie de traição à pátria. A ditadura argelina, dominada pela omnipresente Frente de Libertação Nacional (FLN), enaltece o colectivo enquanto rebaixa o indivíduo. Presta culto ao livro único – o Alcorão. E despreza o francês, como idioma “colonial”.
Kamel Daoud – galardoado em 2024 com o prestigiado Prémio Goncourt pelo seu romance Houris – é um dos heréticos, que recusam renegar a herança linguística. Não presta tributo à mítica “nação árabe” em que a Argélia seria diluída. Afirma-se devoto do legado cultural que lhe rasgou horizontes e o fez cidadão do mundo ao ler clássicos como Molière e Racine.
Paga um preço elevado: o desterro. Ter dupla cidadania – argelina e francesa – equivale a ser cidadão de segunda no seu país natal. Sobretudo quando se é escritor e se professa a laicidade. Todo o intelectual, por lá, é suspeito até prova em contrário.
Que o diga Boualem Sansal, encarcerado aos 77 anos por suposto “atentado à segurança do Estado”, sem poder ler ou escrever na sinistra prisão El-Harrach, e só libertado em Novembro de 2025, rumo ao forçado exílio, após enorme pressão diplomática europeia junto do regime argelino, que lhe roubou um ano de vida como castigo por romances insubmissos como Le Village de l’Allemand (2008) ou 2084: La Fin du Monde (2015).
Daoud redige este panfleto inspirado no remoto brado de Zola no caso Dreyfus. Acusando a tirania da FLN, que desde a independência do país, há 64 anos, oprime os argelinos. As gerações mais jovens – incluindo a de Daoud, nascido em 1970 – permanecem sufocadas pela oligarquia que lhes impõe a pertença a um colectivo impessoal. Como se a História tivesse congelado em 1962.
«Os nossos filhos carecem de liberdade. Libertam-se remando em barcos em direcção ao Ocidente. As nossas mulheres estão fechadas. São violentadas e esmagadas. Os nossos homens não são livres.» (Tradução de Sara Sousa Gomes.)
É um grito de revolta. Também contra aqueles que em países como Portugal, mesmo geograficamente próximos, permanece surdos e cegos perante o drama argelino.
Como se a ditadura ali fosse mais suave. Como se não prendesse, nem torturasse, nem silenciasse, nem liquidasse todas as esperanças e todos os sonhos de quem ainda ousa escrever em francês.
Sugestão 9 de 2016:
Entrevistas da Paris Review, (Tinta da China)
Sugestão 9 de 2017:
Ao Largo da Vida, de Rainer Maria Rilke (Ítaca)
Sugestão 9 de 2018:
Só Acontece aos Outros, de Maria Antónia Palla (Sibila)
Sugestão 9 de 2019:
La Llamada de la Tribu, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara)
Sugestão 9 de 2020:
Estocolmo, de Sérgio Godinho (Quetzal)
Sugestão 9 de 2021:
Woke – Um Guia para a Justiça Social, de Titania McGrath (Guerra & Paz)
Sugestão 9 de 2022:
Carta à Geração que Vai Mudar Tudo, de Raphaël Glucksmann (Guerra & Paz)
Sugestão 9 de 2023:
A Vida por Escrito, de Ruy Castro (Tinta da China)
Sugestão 9 de 2024:
Por Amor à Língua e à Literatura, de Manuel Monteiro (Objectiva)
Sugestão 9 de 2025:
Visitar Amigos e Outros Contos, de Luísa Costa Gomes (D. Quixote)

Houris
La nuit du 16 juin 2018, à Oran. Le vois-tu ?
Je montre un grand sourire ininterrompu et je suis muette, ou presque. Pour me comprendre, on se penche vers moi très près comme pour partager un secret ou une nuit complice. Il faut s’habituer à mon souffle qui semble toujours être le dernier, à ma présence gênante au début. S’accrocher à mes yeux à la couleur rare, or et vert, comme le paradis. Tu vas presque croire, dans ton ignorance, qu’un homme invisible m’étouffe avec un foulard, mais tu ne dois pas paniquer. Dans la lumière, j’apparais comme une femme de taille élancée, exténuée, à peine vivante, et mon immense sourire figé ajoute au malaise de ceux qui me croisent.
Como se a ditadura ali fosse mais suave.
Deveria dizer isso a Manuel Alegre.
Kamel Daoud
“Nenhuma sociedade árabe avançará enquanto o estatuto da mulher não mudar. Esta é a verdadeira questão, é esta a verdadeira revolução”.
Entrevista a Alexandra Prado Coelho, Publico 17 Outubro 2025
Isso mesmo.
Parece ser muito interessante, como em geral são as suas sugestões literárias, Pedro.
Deixo-lhe aqui tambem uma sugestão: na banca G16 (Atlantic Books), o livro de estreia das minhas filhas mais velhas: O Dia em que o Escuro se foi Embora. Uma escreveu e a outra ilustrou esta história infantil para crianças que têm medo do escuro. Estou uma mãe babada! 😁
Parabéns, Susana.
Tem um excelente (mais um) motivo para isso.
Por falar em “traições” e “desobediências”:
“Se uma lei é injusta, desobedeça.” (Henry David Thoreau, um dos primeiros a formular o conceito de Desobediência Civil);
“Há alturas em que é preciso desobedecer.” (Salgueiro Maia, o maior “desobediente” da nossa História).
Não fosse a coragem e a determinação de alguns “traidores” e “desobedientes” muitos países e respectivos cidadãos continuariam na “Idade das Trevas”…
Vêm muito a propósito, Paula. Um e outro.
“Ser hoje escritor de língua francesa na Argélia tornou-se um acto heróico.”
E ser escritor de língua portuguesa e meter umas frases em amaricano? Também é um acto heróico?
Nada heróico é emitir opiniões anónimas