
Livro sete: O Círculo dos Mahé, de Georges Simenon
Edição Cavalo de Ferro, 2026
140 páginas
O médico François Mahé, oriundo de uma família tradicional da Vendeia, é considerado um homem bem-sucedido: casado e com filhos, oriundo da pequena burguesia funcionária. Órfão aos três anos do pai, que ganhara fama em Saint-Hilaire como negociante de cavalos dotado de enorme coragem física, foi sempre muito protegido pela mãe, que morre a meio deste breve mas denso romance, tem ele 35 anos.
Percebe então, pela primeira vez, que nunca foi verdadeiramente senhor do seu destino. Isto coincide com o estranho fascínio que sente por Elisabeth, adolescente que também acaba de perder a mãe. Viu-a quando gozava pela primeira vez férias em família, na ilha de Porquerolles: o pai dela é alcoólico, a miúda toma conta de dois irmãos menores e vive da caridade de freiras enquanto faz trabalhos de costura.
Mahé volta nos dois verões seguintes a Porquerolles, a pretexto da paixão pela pesca: ambiciona capturar uma corvina e um corgo. Mas o que mais pretende pescar são sonhos: nenhum deles se tornará realidade.
Com o rodar dos dias, adquire plena consciência de ter agido sempre como marioneta nas mãos da mãe, demasiado protectora daquele filho único. Agora molda cada palavra e cada gesto à vontade da mulher, espécie de mãe substituta, como reflexo condicionado numa vida despida de paixões, quando se aproxima a passos largos da meia-idade. Em contraste absoluto com a imagem quase heróica do pai que lhe chegou relatada por terceiros.
«Tinham-se limitado a traçar à sua volta, como no sonho, um círculo de pedra. Casarás com Hélène porque ela é doce e dócil. Terás filhos dela. Farás as tuas visitas de motorizada para poupares gasolina. Serás médico de província toda a tua vida e a tua casa será bem governada… Ter-se-iam indignado se ele quisesse subir mais, por pouco que fosse. Então, para quê proibi-lo de descer, se não se sentia confortável onde o tinham posto?» (Tradução de Inês Dias.)
Como sempre acontece nas obras de Georges Simenon, a paisagem molda as personagens. Torna-se, também ela, de algum modo personagem. Inconfundível. Esta narrativa existencial, um dos seus romans durs que seduziram sucessivas gerações de leitores, nada tem de enredo policiário nem se nota aqui sombra do comissário Maigret. Nem por isso é menos fascinante.
John Banville classificou O Círculo dos Mahé «um dos cinco melhores romances» do autor de Bairro Negro. Conclusão arriscada, por um só motivo: a escolha é bem difícil. Simenon escreveu 192 romances e 158 novelas – com número inigualável de obras-primas. Esta é uma entre tantas. Depois dela, só nos apetece ler a próxima.
Sugestão 7 de 2016:
O Bosque, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água)
Sugestão 7 de 2017:
1933 Foi um Mau Ano, de John Fante (Alfaguara)
Sugestão 7 de 2018:
O Visitante da Noite & Outros Contos, de B. Traven (Antígona)
Sugestão 7 de 2019:
Um Futuro de Fé, do Papa Francisco e Dominique Wolton (Planeta)
Sugestão 7 de 2020:
Acordo Ortográfico – Um Beco Com Saída, de Nuno Pacheco (Gradiva)
Sugestão 7 de 2021:
O Silêncio, de Don DeLillo (Relógio d’Água)
Sugestão 7 de 2022:
Diários (1950-1962), de Sylvia Plath (Relógio d’Água)
Sugestão 7 de 2023:
«O Mais Sacana Possível», de António Araújo (Tinta da China)
Sugestão 7 de 2024:
Inglaterra: Uma Elegia, de Roger Scruton (Guerra & Paz)
Sugestão 7 de 2025:
Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva (D. Quixote)

Boa-tarde.
Vou querer ler.
Muito obrigada.
gostei do 1º que li:
le chien jaune
John Fante in pergunte ao pó
«Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da
cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas
que me cercavam. Parecia que todo mundo estava fazendo jogos de palavras, que
aqueles que não diziam quase nada eram considerados excelentes escritores. O que
escreviam era uma mistura de sutileza, técnica e forma, e era lido, ensinado,
ingerido e passado adiante. Era uma tramóia confortável, uma Cultura-de-Palavra
muito elegante e cuidadosa. Era preciso voltar aos escritores russos pré-Revolução
para se encontrar alguma aventura, alguma paixão. Havia exceções, mas estas
exceções eram tão poucas que a leitura delas era feita rapidamente, e você ficava a
olhar para fileiras e fileiras de livros extremamente chatos com séculos para se
recorrer, com todas as suas vantagens, os modernos não chegavam a ser muito
bons.
É mesmo verdade: com Simenon a escolha é bem difícil. O lado bom é que não é preciso escolher, nenhum Simenon nos desilude; e são tantos que há sempre um novo para descobrir, e é como desembrulhar uma prenda…
Um consultório médico na província. Cheiro intenso a éter, e a sabão azul e branco. François Mahé está encostado à janela, a olhar para uma mosca que bate repetidamente contra o vidro. Hélène, a esposa-assistente-gestora-carcereira, arquiva fichas de doentes.)
Hélène — Gastaste mais meio litro de mistura na motorizada esta semana, François. Onde é que foste? Fazer piões para a rotunda de Saint-Hilaire para fingires que eras o teu pai a domar cavalos?
François (sem tirar os olhos da mosca) — Fui a casa do velho Dupont. Ele tem líquido nos pulmões, Hélène. Infelizmente, a quinta dele fica no topo de uma colina. Eu bem tentei convencê-lo a descer a rua, mas o homem é mais teimoso que uma mula.
Hélène — A tua mãe não aprovaria esta falta de rigor orçamental. Sabes perfeitamente que a motorizada consome mais quando levas a mala de cabedal cheia. Da próxima vez, levas só o estetoscópio e duas aspirinas. Se for enfarte, dizes que é refluxo. Ele morre na mesma, mas poupamos na suspensão traseira.
François (suspira, olhando para o calendário da farmácia pendurado na parede) — Que saudades de Porquerolles…
Hélène (bate com uma gaveta metálica) — Lá vens tu com a porcaria da ilha. Foste para lá armado em Hemingway pescar corvinas e a única coisa que trouxeste foi um escaldão nas orelhas.
François — Havia lá uma rapariga, Hélène. Elisabeth. Órfã de mãe. Vestia farrapos, cuidava de dois irmãos menores, vivia da caridade de umas freiras que tresandavam a couve fervida…
Hélène (interrompe, apontando-lhe uma espátula de madeira) — E tu, François Mahé, o médico de província que não consegue abrir um frasco de compota sem chorar pela falecida mãe, ia salvar uma menor do alcoolismo paterno.
François (com um sorriso letárgico) — Ela era fascinante. Ela… ela tomava conta do próprio destino.
Hélène — Ela tomava conta de dois pirralhos ranhosos e tinha sarna, François. É diferente. Tu confundes miséria com poesia existencial porque nunca tiveste de lavar as tuas cuecas. A tua querida mãe traçou-te um círculo de pedra no chão e tu ficas aí dentro, sentadinho, a ladrar aos carros que passam.
François (senta-se à secretária, derrotado) — Sabes, Hélène… o meu pai era um homem temido. Um negociante de gado com uma coragem física assombrosa.
Hélène — Sim, François. E tu lidas com bestas na mesma. É a evolução natural da genética. Põe mas é a bata direita que o vinco está torto.
Também gosto muito , li há semanas três duma vez , Betty , Crime impune , o outro não me lembro o titulo , e o senhor Simenon repete guiões : é obcecado por mulheres promíscuas e mortos que afinal não o estão e tiros que desfiguram faces , sobretudo o maxilar, mas tudo bem , Maigret compensa.
Betty e Crime Impune são livros sem Maigret.
Eu sei… queria dizer que os livros ” Maigret ” compensam esses dois livros com personagens replicadas.