
Livro seis: A Grande Ruptura, de Miguel Monjardino
Edição Clube do Autor, 2026
302 páginas
Professor de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e comentador de temas internacionais na SIC Notícias desde a fundação deste canal televisivo, há um quarto de século, Miguel Monjardino aproveitou o primeiro ano da pandemia, entre Janeiro de 2020 e Janeiro de 2021, para fazer anotações diárias sobre o «desconcerto do mundo», segundo a expressão camoniana. Daí resultou este livro de fácil leitura mas difícil digestão por nos confrontar a todo o passo com as convulsões globais. Não adianta alegar desinteresse: elas dizem-nos respeito também, mesmo quando decorrem em latitudes longínquas.
A partir da sua casa com jardim nas imediações de Angra do Heroísmo, na pendular pacatez do aconchego doméstico (mulher e três filhos rapazes), Monjardino observa os acontecimentos à escala planetária com suficiente distância para não se iludir com a espuma dos dias. Tem dois instrumentos de reflexão: a obra dos gregos clássicos, que visivelmente o apaixona, e a consulta da melhor imprensa contemporânea, complementada com torrencial leitura de livros especializados em geoestratégia, todos em língua inglesa, sem menção a autores nacionais.
A Grande Ruptura ganha interesse acrescido ao ser redigida em forma de diário, fornecendo informações esparsas sobre a rotina do autor que funcionam como chamariz para aquilo que realmente lhe importa: despertar a atenção dos leitores para os dilemas existenciais que enfrentaremos num futuro próximo. Dilemas que nos poderão apanhar desprevenidos por concentrarmos toda a atenção no momentâneo, no anedótico e no circunstancial, sem procurar a raiz dos problemas.
«Somos um país que vive no presente e onde o futebol é muito mais importante do que o futuro», anota a 18 de Junho. Por culpa, em larga medida, do jornalismo dominante: «Sempre me ensinaram que os jornalistas estavam encarregados de escrever o primeiro rascunho da História. Mas agora a História é uma coisa efémera, moldada para se adequar às necessidades de uma narrativa pré-determinada.»
A ignorância gritante de história e geografia, que alguns bitaiteiros exibem de manhã à noite nos estúdios televisivos, confundindo análise geoestratégica com conversa de café, contribui para sedimentar a iliteracia colectiva. Num mundo em que populistas desbragados como Donald Trump se comportam como «agentes do caos» e a imprensa dita de referência deriva para a defesa de microcausas tribais, indiferente ao cidadão comum. «Uma das ironias da novilíngua sobre a “diversidade” e a “inclusão” é a exclusão deliberada dos brancos pobres, que se sentem cada vez mais vítimas de uma guerra cultural que lhes é movida por uma elite urbana progressista com pretensões revolucionárias», anota a 10 de Junho de 2020. Faz hoje seis anos.
«A pandemia está a ser um grande laboratório sobre a condição humana», escrevera a 30 de Abril. Consciente, já então, de estarmos perante um daqueles acontecimentos que traçam linhas de fronteira temporal, segmentando épocas. Nada ficaria igual depois disso. Ninguém dirá hoje que o mundo mudou para melhor.
Sugestão 6 de 2016:
Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)
Sugestão 6 de 2017:
O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)
Sugestão 6 de 2018:
Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)
Sugestão 6 de 2019:
Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)
Sugestão 6 de 2020:
Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal (Assírio & Alvim)
Sugestão 6 de 2021:
Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva (Contraponto)
Sugestão 6 de 2022:
O Barulho das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)
Sugestão 6 de 2023:
Professor Unrat, de Henrich Mann (E-primatur)
Sugestão 6 de 2024:
Canção de Rolando (E-Primatur)
Sugestão 6 de 2025:
Se Eu Quisesse, Enlouquecia, de João Pedro George (Contraponto)

Sigo com alguma atenção o Miguel Monjardino e pretendo ler esse livro.
Bem lembrado, Pedro.
Recomendo vivamente, Paulo. Como se nota.
este mundo tornou-se numa imundice. há quem lhe chame o ”cabaré das coxas”.
estou cada vez mais convencido tecnicamente que ”Covid-19” foi um ensaio de guerra biológica.
”a bola é qu’intrói”.
«Woke (pronúncia em inglês: [‘wouk]), como um termo político de origem afro-americana, refere-se a uma percepção e consciência das questões relativas à justiça social e racial.[1] O termo deriva da expressão do inglês vernáculo afro-americano “stay woke” (em português: mantenha-se atento), cujo aspecto gramatical se refere a uma consciência contínua dessas questões.
No final da década de 2010, woke foi adotado como uma gíria mais genérica, amplamente associada a políticas identitárias,[2] causas socialmente liberais, feminismo, ativismo LGBT, cultura afro-americana e questões culturais (com os termos woke culture e woke politics também sendo usados). O seu uso generalizado desde 2014 é resultado do movimento Black Lives Matter.[1][3] Recentemente, tem sido alvo de memes, uso irônico e críticas, essencialmente por opositores dos movimentos sociais progressistas.[4][5]
É lógico que Miguel Monjardino só escreveu A Grande Ruptura depois de apanhar a vacina. Se lermos nas entrelinhas da sua “pendular pacatez do aconchego doméstico”, a justificação torna-se evidente.
A geopolítica a sério não se escreve em português; precisava do mRNA americano ou britânico a correr-lhe nas veias.
Um homem que convive intimamente com os gregos clássicos, ter de respirar o mesmo ar de um país onde “o futebol é muito mais importante do que o futuro”. Só a vacina lhe poderia conferir a imunidade de rebanho indispensável para suportar a “ignorância gritante de história e geografia” dos bitaiteiros matinais.
No fundo, a vacina foi o derradeiro “agente do caos” que o despertou. A vacina não o imunizou contra a pandemia; imunizou-o contra o resto de nós. E ainda bem, senão o “desconcerto do mundo” tê-lo-ia obrigado a ver a bola.
País de treinadores de bancada. Especializados em comentar livros que nunca leram e jamais lerão.
É assim com livros e com quase tudo.
Lá isso é verdade, além de um país de treinadores de bancada. Também somos uma nação de virologistas de café, estrategas militares de sofá e filósofos de caixas de comentários. A ignorância por cá não é uma falha do sistema, faz mesmo parte do ADN.