![21658091_nFPtN[1].jpg 21658091_nFPtN[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21658152_z56Yj.jpeg)
Já contei algures, mas conto outra vez, a história daquele aluno que, a seguir ao vinte e cinco do quatro, chumbou num exame de escultura – quando quase ninguém chumbava.
Tinha um impecável aspecto de extrema-esquerda, com guedelha, roupa sebenta e coçada, calças por dentro da bota de meio-cano, e um ar geralmente porco.
Os coleguinhas examinandos iam ao sucateiro, soldavam uns ferranchos, juntavam-lhes umas pedras toscas e uma memória descritiva em que a classe operária levantava o facho do progresso social contra o facho propriamente dito, tudo embrulhado em muito palavreado artístico e pouca gramática, e em geral bastava. Se o conjunto fizesse lembrar vagamente alguma forma humana, melhor. D. Quixote, esgrimindo a espada da revolução contra os moinhos do falso discurso democrático-burguês, era um sucesso garantido.
O meu herói fez porém um armário cheio de escaninhos e em cada um pôs um frasco, devidamente etiquetado com a descrição do conteúdo: compota de pregos, de punaises, de anilhas, de outros materiais ainda, e um de dejectos, com inteiro rigor descrito como compota de merda.
Ao trabalho chamou “O compotador”, mas infelizmente ninguém descortinou no empreendimento uma jornada de luta contra o imperialismo ou as classes possidentes, nem muito menos era possível ver-lhe uma simbologia qualquer que autorizasse a interpretação de a “escultura” se inserir no necessário movimento para partir os dentes à reacção.
Tempos infelizes. Hoje, a obra de arte não está a favor da revolução, nem da democracia, nem de ideologias, e pouco contra as alterações climáticas ou a indústria de plásticos, mas ao serviço de si mesma: o passante é convidado a ver na instalação não o que lá está mas o que o artista com ela quis dizer. E como o objecto é enigmático precisa de um intérprete, que é o próprio artista, o qual explica, em palavras definitivas que os entendidos coonestam, ou, cúmulo do requinte, em palavreado pedante significando nada, o que devemos ver.
As vigas grotescas que desfeiam uma praia de Matosinhos, e que custaram ao contribuinte mais de 300.000 euros, são descritas como “apresentando uma nova perspetiva sobre a linha de horizonte do mar e sugerindo diversas interpretações através da forma e geometria e da sua sobreposição com o oceano”. Isto não quer dizer absolutamente nada, e é a moeda corrente no discurso artístico – aplica-se a tudo, que é apenas mais uma maneira de não se aplicar a nada.
Os mecanismos de adjudicação por trás deste e doutros trabalhos semelhantes, quem ganha com eles, quem os paga, tem-se Telmo Azevedo Fernandes dado ao trabalho de explicar, no Blasfémias e no seu mural no Facebook, com algum detalhe – histórias de amiguismo e de gestão local, a tal que, segundo alguns ingénuos, se distingue da central pelos benefícios da proximidade. E histórias também do que vale o Polígrafo. Telmo faz serviço público, é provável que seja pago em inimigos.
A mim interessar-me-ia compreender por que razão boa parte das artes plásticas contemporâneas é a tal ponto não-arte que os espectadores só as reconhecem como tais se disso informados; se é razoável desejar que os poderes públicos adquiram obras de arte para decorar espaços públicos; e a que critérios devem obedecer tais compras.
Dou a minha tentativa de resposta, a traço muito grosso, por partes.
A arte moderna, que durou desde fins do séc. XIX até ao fim dos anos 60, reagiu contra a representação aparentemente realista dos corpos, dos interiores e das paisagens, por esgotamento dos movimentos artísticos que a precederam e pela evolução tecnológica (fotografia e cinema, entre outras invenções) que lhe retiraram parte da utilidade prática. Os artistas passaram a interpretar a realidade com as luzes da sua intuição, as profundidades da sua alma e as inovações técnicas da sua imaginação, mais do que da sua perícia. Num certo sentido, a arte moderna representa o sucesso tardio e duradouro do romantismo, que endeusou o artista.
As artes plásticas contemporâneas levaram estas tendências ao paroxismo. E, ao fazê-lo, abriram a porta a uma infindável quantidade de trafulhas que para pintar não acham necessário saber desenhar, e para esculpir dispensam o longo aprendizado, e o duro trabalho, de transformar os materiais tradicionais.
Daí a treta, e daí as redes de cumplicidades: se a obra de arte não é reconhecida como tal é preciso expô-la em lugares adequados, para a promover, e imprescindível que beneficie da recomendação do especialista, com frequência albardado de uma cátedra numa escola da especialidade, que utiliza um jargão obscuro. O cidadão, que a detesta, é vítima de chantagem: não gosta, diz o entendido, porque é ignorante; e como ignorante quase ninguém reconhece ser ou, pior, reconhece, curva a cabeça perante a autoridade, e, como contribuinte, paga.
Pergunta-se: as nossas cidades estariam pior ou melhor se nunca os poderes públicos (ou patronos) as tivessem decorado com obras de arte? A minha resposta é que estariam pior, e nem me dou ao trabalho de tentar fazer a demonstração.
Se era assim no passado justifica-se que seja assim no presente. Não posso dizer que o critério deva ser o gosto popular porque a imagem de Nossa Senhora de Fátima não é um bom exemplo de estatuária, nem o Menino da Lágrima um de pintura. E como os senhores edis são geralmente da mesma massa que os eleitores, não lhes recomendo que se guiem pelo seu gosto.
Na realidade, o grande mestre, que é o tempo, fará a devida selecção, mas não tem assento nos elencos municipais. Pelo que recomendaria às autarquias três coisas:
Publicitem nos boletins municipais e nos jornais das terras, em vez dos discursos ocos do Mirabeau local, dados sobre as finanças do município, os custos dos investimentos em arte (incluindo instalações e manutenções) e os critérios pelos quais se regeram as adjudicações;
Desconfiem militantemente dos experts: são parentes ou sócios de quem, que ligações têm ao artista, de onde lhes vem a autoridade?
Exercitem o senso comum: o artista é um tipo com um discurso abstruso quando descreve o seu trabalho, as obras parecem sucata ou restos de obras, ninguém em seu juízo as compraria para as oferecer à sua cidade, mesmo que tivesse meios, há ligações partidárias suspeitas? T’arrenego.

Muito bem. Subscrevo por inteiro as três recomendações.
Épà, um elogio teu, o ano começa bem. Obrigado, Pedro.
Bom senso , Bom gosto e , artigo muito em falta na paróquia, honestidade.
JSP
Essa do ‘vinte e cinco o quatro’ é a espinha atravessada na garganta, se calhar por ser ignorante e tretas ou por estar, agora, na moda essa paráfraseideologia.
Tretas, por inventar coçadas modernices de escrita (modernices?) como a mais patética descrição feita no segundo parágrafo. Se chumbou no exame de escultura estaria em Belas Artes, e logo a seguir ao tal vinte e quatro, seria filho de gente que não teria habituado o filho aquelas figuras. Mas a treta mais inacreditável é a do nome da obra ‘O compotador’. Como é que logo a seguir ao tal vinte e quatro do ano de 1974 alguém se lembraria de chamar compota+dor (trocadilho com computador) se nem sequer estaria, ainda, o uso normal de computadores.
Mesmo que seja, ou fosse, uma critica a certo comportamento em determinado tempo, não é dado como certo que esse comportamento fosse marcante e se manteve ao longo do tempo. Temos visto, ao longo dos anos, grandes ‘transformações’ de guedelhas, sebentos, botas de meio cano, porcos em doutores, engenheiros, arquitectos, advogados e outras profissões liberais e até grandes empresários da nossa praça.
Vá que o tal guedelhas não se lembraria de apresentar ‘O Urinol’, como o outro, ou até ‘Os Fracos de Merda’, que agora seriam considerados obras de arte a valerem muito dinheirinho.
Agricultor=fazedor de agricultura
Escritor=fazedor de escritos
Pintor=fazedor de pinturas
Comentador=fazedor de comentários
Comprador=fazedor de compras
Compotador=fazedor de compotas.
Qual a razão para compotador ter de ser um trocadilho (ou um trocadalho) de computador?
Excelente “post”, boa ligação ao Telmo Fernandes, enfim, são só apreciadores de arte mas com o dinheiro dos contribuintes.
Nada tenho contra a autarca de Matosinhos ser uma apreciadora de Cabrita Reis, encomende, pague do próprio bolso e encha o quintal com arte.
Compotador = fazedor de compotas ??????
Só no dicionário da escola da marreca, ou em arte modernista.
Mas o gadelhas, porco, e tal e coisa, a seguir ao vinte e cinco do quatro lembrava-se de lixar o capitalismo com uma modernice daquelas? Andou, anteriormente, a estudar/conviver em que Escola?
A treta é inventada e fresquinha.
O Tom Wolf, no The Painted Word, explica tudo de uma forma “reaccionária” e absolutamente divertida e verdadeira.
Pelo que leio detesta o vinte e cinco do quatro. Pelos vistos prefere o vinte e oito do cinco de mil novecentos e vinte e seis. Gostos!
Pois é…
Às vezes, o rei vai mesmo nu.
João de Brito
G’anda texto. (E sim, o Telmo Azevedo Fernandes está-lhes a dar …).
Obrigado, José.
Fantástico escrito, sr. Meireles e faz muito bem em responder a uns comentários e a outros não.
Já dizia o Orwell que os animais são todos iguais mas uns são mais iguais que outros.
Não tenho por hábito responder, o que pode parecer (e é, um pouco) arrogante mas decorre da convicção que da discussão nasce raramente a luz. O que nasce com frequência é acrimónia, e, embora às vezes me compraza numa querela, noutro meio, evito envolver-me se não reconhecer estatura no interlocutor ou se me parecer que parte de pressupostos muito diferentes dos meus, caso em que o exercício é dobradamente inútil. Além do que não tenho muito tempo, sou preguiçoso, e aprecio muito mais uma boa desconversa do que uma conversa. Finalmente, se reparar, respondi a colegas de blogue, pela mesma razão que aceito convites para jantar daqui oriundos, mas dificilmente aceitaria de leitores. Mesmo estando consciente que escrevo para ser lido, e portanto não me ser indiferente a opinião deles, a verdade é que o investimento em diálogo seria, para mim, demasiado exigente. Agradeço o seu comentário, com amizade.
Não tem de agradecer.
Aprecio as suas análises desde o Forte Apache, nomeadamente uma sobre a permanência ou não no euro.
Qualquer coisa do gênero, a euforia da entrada é sempre boa, o pior são as consequências.
Muito bem. Parece-me um excelente post, equilibrado.
Sobre as “ligações partidárias suspeitas”: é sabido que, ao longo da História, diversos artistas promoveram ligações suspeitas aos poderes da época (reis, Igreja, nobres, etc) que os patrocinavam e que pagavam a sua arte. Não é de hoje que artistas entretêm ligações suspeitas a poderes fáticos. E o facto de essas ligações existirem não significa que o artista seja mau, que a sua obra não preste nem mereça ser paga.
Exemplos: Rafael, Bach, Goya…
Os patronos renascentistas e mesmo até ao final do Romantismo, até as repúblicas virem perturbar a evolução da cultura ocidental no sentido do requinte, eram normalmente privados com enormes fortunas — e os trabalhos dos grandes mestres (sobretudo o dos paisagistas holandeses, para dar um exemplo concreto) não eram tanto uma exibição de poder e de riqueza, mas destinavam-se a transmitir a ideia de que o patrono dedicava o seu tempo à “boa governança” (como se diz agora) da paisagem humana e da paisagem natural. Nesse sentido, a função da peça de Cabrita Reis em relação ao seu patrono não é diferente. O que é diferente é que como o dinheiro é público isto deixa se ser uma demonstração de boa governança para se transformar em mais um episódio de propaganda socialista com dinheiro público. O que não é de surpreender porque, como diria Ana Gomes, “o dinheiro, o Estado… é do PS.” e portam-se normalmente como se fossem o Rodolfo II da Áustria.
Podemos contrapôr: ai então por essa lógica uma câmara dado que é sempre gerida por uma equipa que vem de um partido, nunca poderia fazer um investimento em arte pública… — e obviamente que não faz sentido isso ser assim se existe um orçamento aprovado que prevê esse investimentos. Mas há que garantir transparência nestas coisas (o que eu duvido sempre) e eventualmente entregar a decisão final a um painel de gente que perceba daquelas coisas e não ao tipo da maçonaria local etc etc… Portanto, nada de novo até aqui.
O que é novo é PCR fazer uma coisa um bocado manhosa: normalmente faz coisas muito boas. Até diria que nem foi ele que fez.
A ignorância sobre a História da Arte não me surpreende. Em Portugal funciona na razão directa da alta cultura de treinador de Futebol de bancada.
Ignorância sobre Historia de Arte?…. Ele há cada um!….
Eu sei desde há decadas que CMM é um antro de “despedidos” da politica cá do burgo. Agora tornou-se também um lar de “enjeitados” da dita cultura para as classes média baixa e classes baixas. Onde se situará aqui a edil cá da terra?…
Enfim, é o que dá o futebol… só compotas da dita…