Vivendo no estrangeiro, estou um pouco de fora do teor desta polémica, embora já tenha lido algumas alusões pela net. Como sou uma apaixonada pela História (porque acho que só nos conhecemos, se conhecermos a nossa História) e como Salazar e o Estado Novo fazem parte da História de Portugal, decidi dar a minha opinião, principalmente, depois de ler o Editorial do “Público”, por Manuel Carvalho.
Tal como Manuel Carvalho, acho que um “Museu Salazar” não pode ser nunca uma homenagem branqueadora e normalizadora do ditador. Por outro lado, nas democracias não pode haver temas tabus, personagens apagados das fotografias ou lugares de esquecimento, porque isto também serve para branquear a História, apagando, ou fazendo por esquecer, aquilo que nos incomoda. Aliás, Portugal tem muita necessidade de trabalhar certos momentos da sua História de forma rigorosa e o mais objectiva possível.
Um “Museu Salazar” nunca deve ter como propósito homenagear um “grande homem” (como parece afirmar o autarca socialista de Santa Comba Dão), mas deve possuir o objectivo de educar e informar. Isso, sim, seria um centro interpretativo do Estado Novo. Aliás, o nome da instituição devia ser este, por exemplo, ou Museu do Estado Novo, em vez de “Museu Salazar”.
Um museu, ou centro, deste tipo, além de fazer um retrato da vida de Salazar, devia, obrigatoriamente, incluir:
– Uma secção sobre a Censura à Imprensa, praticada durante todo o Estado Novo, com imagens de notícias censuradas e informações sobre que tipo de artigos o eram (porque não eram apenas os políticos, também se censuravam notícias de suicídios, por exemplo, ou de crimes familiares).
– Uma secção dedicada ao Tarrafal (com imagens e artigos, talvez vídeos, se os houver) e à perseguição dos comunistas e sindicalistas.
– Uma secção dedicada à PIDE e às prisões de Caxias e Peniche, também com imagens, documentos, descrição das torturas, testemunhos, etc.
– Uma secção dedicada ao assassinato de Humberto Delgado (e a outros crimes que se tenham cometido em relação a opositores do regime).
– Uma secção dedicada à guerra colonial, com fotografias (que não faltam) e, proponho também, vídeos que mostrem, por exemplo, os embarques das tropas, ou as mensagens de Natal que os combatentes enviavam, todos os anos, pela televisão.
Estas são as minhas sugestões. Os historiadores especialistas desta época teriam mais e deviam ser contactados. Para que se fizesse, em Santa Comba Dão, um verdadeiro Museu ou Centro Interpretativo do Estado Novo, que nos oferecesse uma visão aberta da História. De visita obrigatória para estudantes!
Será que o autarca socialista de Santa Comba Dão tem arcaboiço para tal?

Concordo com tudo. Mas inclua-se também, em jeito de prelúdio, e em favor do entendimento histórico, a história da Velha, da Nova, e da Nova Velha República. Sem entender estas etapas, precedentes, históricas jamais se entenderá a génese do Estado Novo e os doze trabalhos de Salazar.
Tudo o que faça parte da História e ajude a perceber o “fenómeno” seria bem-vindo.
A opinião de Manuel Carvalho é assim tão valiosa? Estamos sempre a aprender!
O problema é que os avençados comem tudo e até as baboseiras parecem credíveis..
Que me lembre, vi o nome de Manuel Carvalho hoje pela primeira vez, neste Editorial, porque fiz uma busca “Museu Salazar” no Google (coisas de quem vive no estrangeiro).
Para mim, esta opinião foi importante, porque diz muitas coisas com as quais concordo. Por isso, o citei, em vez de tentar explicar o mesmo com as minhas palavras.
Nunca ao museu Salazar da celebração fascista.
E na mesma linha proponho a imediata eliminação de todos os monumentos à escravatura, imperialismo e ditaduras bacocas ou iluminadas.
Abaixo a Praça do Império.
Torre de Belém, demolir o palácio em Mafra construído com o ouro roubado ao povo brasileiro, estátuas do esclavagista da Gama, do ditador Pombal ou do assassino Afonso I, tudo ao chão.
Devemos ter orgulho nos nossos mais de 800 anos de História. Não é boa ideia apagar, seja o que for, pois, como referi no postal, apagar, ou fazer por esquecer aquilo que nos incomoda também serve para branquear.
Concordo, Cristina. Aprendemos sempre. Pela positiva e pela negativa. Aprendemos o bom e o mau. Devemos apreder tudo o que faz parte da nossa identidade como povo. É assim em democracia.
Felizmente ainda não temos Ministério da Verdade.
Por mim já me dava por satisfeito com o derrube da estátua da rotunda da Boavista no Porto.
Depois ia o templo de Diana em Évora: afinal o que é que os romanos fizeram por nós?
Deram-nos a língua portuguesa?
E tirando isso, o que é os romanos fizeram por nós?
E ainda por cima uma língua com conjunções coordenativas subordinativas copulativas, que eu sempre pensei ter a ver com sexo até que levei um tabefe à romana…
Além do legado do latim, os romanos marcaram a nossa civilização (ocidental/europeia) a vários níveis (como o filosófico e o político), para o bem e para o mal.
E a ironia, tão cultivada pelos gregos? Será que entende o que é ironia? NE8
https://www.youtube.com/watch?v=Pc5DlVZR
Apoio esse Centro Interpretativo, mas o autarca não tem arcaboiço.
Receio o mesmo, Maria Oliveira.
Na secção dedicada à PIDE não esquecer tudo o que se relaciona com os seus informadores (o vizinho do lado), incluindo estatísticas de natureza sociológica, etc etc …
Claro que nenhum autarca de uma santa terrinha tem arcaboiço para uma empreitada dessa dimensão. Portugal é um país pobre em capital cultural e financeiro.
Sim, receio que o seu desejo de “apresentar obra” o faça contentar-se com pouco.
Ponha-se à frente de um autarca de santas terrinhas e diga-lhe isso na cara e vai ver o arcaboiço e a dimensão da empreitada! Portugal tem é uma capital com gente pobre culturalmente.
Porquê? Só em Lisboa é que há gente culta e com arcaboiço para fazer qualquer coisa?
Não sei se a pergunta é a mim dirigida, mas a minha resposta é não.
Do que este autarca é, ou não, capaz, não faço ideia, não o conheço. Está nas mãos dele mostrar quais são as suas capacidades.
Desejo-lhe sorte. Mas espero que não construa um santuário a Salazar.
Sendo socialista, não tem arcaboiço para isso, como é óbvio.
Só tem para receber o salário ao fim do mês juntamente com o dinheirito da corrupção que, sempre compõe o fim do mês.
Finalmente encontro uma pessoa com pensar semelhante. Mostrem o que o homem foi, caramba. Como homem e como político. O que criou, as leis que fez e quem protegeu com elas; mostrem o viver português nos tempos de Salazar, aguerra nas províncias ultramarinas, a miséria que corria no país.
Que, se é para o louvarem e lhe circundarem a figura da aura que nunca teve, esqueçam. Mas apagar a história é que não se pode. É contá-la como foi.
Tudo isto padece de mesmo mal: não perguntarem às pessoas de S. Comba Dão o que elas querem fazer ali. Tal como não perguntaram aos penichenses se queriam um museu-prisão no Forte de Peniche que os prende ao passado e não os deixa rentabilizar um espaço com um potencial muito mais interessante do que preservar a memória comunista. Sempre os de esquerda de Lisboa a tomarem decisões sobre o que não lhes pertence (declaração de interesses: eu sou de Lisboa).
Os comunistas também são seres humanos, com direito aos Direitos dos ditos cujos.
Direito a ocupar edifícios públicos que não lhes pertencem? Então também quero um.
Esperamos todos que o museu-prisão no Forte de Peniche tenha uma secção com o regime que “homens bons” que por lá estiveram presos tinham em mente para o nosso país, por exemplo: uma secção sobre a censura à Imprensa, praticada em todos os estados comunistas; uma secção dedicada ao GULAG (por exemplo, para a Dra. Rita Rato ficar a saber o que é) e à perseguição e extermínio dos opositores praticada em todos os estados comunistas (enquanto escrevo isto haverá um milhão de uigures em campos de reeducação na China); uma secção dedicada à KGB, à STASI, à Securitate (se calhar é preciso mais de que uma secção); uma secção dedicada às execuções extra-judiciais praticadas pelo PCP de informadores, divisionistas e desviantes ou dos tipos que tiveram o azar de passar quando rebentaram bombas da ARA (dá-se alvíssaras a quem encontrar informação pública sobre o assunto); uma secção sobre as guerras, golpes e purgas em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor, envolvendo os movimentos de libertação comunistas (com uns gráficos, comparando as vítimas causadas por estes e pela Guerra Colonial). Esperamos, mas esperamos sentados e sossegados – o que, no fundo, até faz lembrar o regime do Dr. Salazar.
Não há dúvida de que as ditaduras, sejam de esquerda ou de direita, têm muito em comum.
Álvaro Cunhal, que esteve muitos anos preso em Peniche, assim como outros, sabiam perfeitamente o que se passava nos países com regimes comunistas. Mas todos os presos o saberiam? Unia-os a vontade de lutar contra a repressão salazarista e só uma minoria levou realmente a cabo actos terroristas perigosos. Além disso, mesmo se tratando de terroristas, sou contra a tortura.
Para lembrar como Salazar lidava com opositores ao regime, não sei se é preciso explicar com muito pormenor como funcionavam os países comunistas, embora este seja também um tema importante, a ser tratado em locais a isso dedicados.
O regime do Dr. Salazar era uma ditadura que não tolerava oposição organizada, que via como uma ameaça à ordem, e que reprimia, se necessário, com violência. Era um regime comum quando apareceu, e era comum porque era desejado por muitas pessoas, pois a alternativa era a violência sem ordem, como sucedeu em toda a Europa nos anos 20 e 30, quando as várias esquerdas e direitas se combatiam nas ruas (só em Portugal, numa noite, matou-se a tiro e à cutilada, o primeiro-ministro e mais quatro políticos de relevo). Na Europa, apenas a Checoslováquia, a França e as democracias consolidadas do Norte não enveredaram por esse tipo de regime. Depois de 1945, sim, o regime do Dr. Salazar torna-se num abencerragem. A sua longevidade resultará, a meu ver, da persistência da memória do desastre político, económico e social que foi o regime que o precedeu. Todavia, obter um livro sobre a violência política em Portugal, entre 1910 e 1926 é mais difícil do que subir ao Evereste, o que é inglório para quem teve uma bisavó morta à bomba na Calçada do Combro e gostava de saber mais sobre o assunto.
O poder é viciante. Tendo tudo sob controlo, quer-se mais e mais. É o grande mal das ditaduras, mal, aliás, que também surge em democracia.
Pois, esse seria mais um período da nossa História a esclarecer, pelos vistos.
A sociedade, em geral, era muito violenta, antigamente. Com certeza já leu “Amor de Perdição”. O que mais me impressionou, nesse livro, não foi a história de amor, mas a quantidade de violência quotidiana. Impressionante.
Caro JPT, depois de escrever a primeira resposta ao seu comentário, pus-me a pensar e resolvi vir fazer uma ressalva: ao referir que a sociedade antigamente era muito violenta, não quis de maneira nenhuma menorizar o episódio trágico de que foi vítima a sua bisavó.
Sei, apenas por alto, que, a seguir à abolição da monarquia, o caos se apoderou do país. É pena que não consiga as informações que gostaria de ter.
Pois é bom saber em que circunstâncias,porquê, vão buscar um homem que vai
“desenhar” um Estado(Novo) e uma Constituição e os põe em prática.
Um BOT não faria melhor, cheio de copy paste’s. Texto sem substância ou originalidade. Como diria uma comentadora “por isso é que as máquinas nunca irão substituir o homem”.
Eu nunca irei substituir um homem, não senhor.
Afinal sempre sabe o que é ironia. E esta foi de primeira água.
Num Museu Salazar também deviam ser exibidos vídeos, não só para mostrar o Homem e as suas obras, mas também para mostrar outros grandes da nossa história, assim , p.e: https://www.youtube.com/watch?v=lS1QKA_k bGU
“Salazar nunca mexeu nos dinheiros públicos” foi o que disse Mário Soares e tem toda a razão. Quando morreu tinha 70 contos no Banco.
Vivi nos tempos de Salazar e também combati em Angola desde 4.1.68 a 20.5.70.
Como vivi sempre na santa terrinha, não me dei conta dos desmandos Salazaristas, nem da Pide nem de outras coisas “ruíns” que dizem de Salazar.
Nos tempos de Salazar, o último a entrar em casa é que punha a chave da porta na parte de dentro…
E os Portugueses não têm assim tão má impressão do Estadista porque em 2008 houve um programa na RTP onde se perguntava qual o melhor Português de sempre. Sabem quem ganhou? Esse mesmo…SALAZAR!!!
Que eu saiba, a PIDE, Legião, o Estado Novo etc. e tal, já não existiam em 2008…ninguém votou obrigado!!!
Sou Salazarista? Não sei. Sei é que sou anti-comunista primário. Tal como ele.
Sim, é-me conhecido que muita gente ignorava a existência da PIDE, do Tarrafal, das torturas horríveis e da Censura (a minha mãe era uma dessas pessoas). Isso não significa, porém, que todas essas coisas ruins não tenham existido. Elas existiram, sim, negá-las é entrar no reino da fantasia.
Precisamente por causa disso (por, ainda hoje, se esconder ou ignorar tanta coisa ruim), dá-se um branqueamento da História e as pessoas chegam à conclusão de que “Salazar não foi assim tão mau”.
E uma secção dedicada aos motivos que levaram Salazar ao poder.
Onde fosse explicado, com verdade, como se encontrava Portugal com a Primeira Républica numa miséria indescritivel, moral, social, económica. Ingovernável.
Onde fosse explicado que Salazar foi convidado para exercer o cargo e que não o obteve por golpes de estado ou golpes palacianos.
Que era professor universitário, brilhante, e que não tinha pretensões politicas.
Aceitou para salvar Portugal da mais vergonhosa página da nossa história, a Primeira Républica.
É preciso que os Portugueses conheçam estas verdades.
Hitler tomou conta da Alemanha por motivos semelhantes.
Claro, tudo tem de ser apresentado dentro do contexto, mas é preciso discernimento para se saber quando se vai longe demais.
Comparar Hitler com Salazar só por má fé.
É assim que se faz a intóxicação dos ignorantes, que infelizmente são muitos.
Salazar nada tinha contra Hitler. Até enviou agentes da PIDE a Berlim, para que estes aprendessem as técnicas de tortura da Gestapo.
Totalmente de acordo! De tudo o que falou, uma me tocou mais, as mensagens de Natal, que me recusei gravar, quando na guerra fui obrigado a participar, em Angola.
Um museu? Enfim, ponha-se-lhe o nome de museu; um nome é um nome e o que verdadeiramente interessa é o que lá está dentro.
Sobre Salazar? Porquê? Que se faça um sobre Portugal, ou melhor, sobre a Republica Portuguesa com destaque do que foi o “estado novo” mostrando todas as atrocidades então cometidas e onde Salazar e outras mais fossem mostrados com a relevância que os seus actos merecem.
Sobre Salazar, porquê?, o autarca de Santa Comba anda à procura de quê?
Sabe-se lá…
A historiografia portuguesa sempre foi muito provinciana e, dentro do seu provincianismo, adepta de episódios isolados. É assim que a Guerra Colonial não aparece integrada na vaga do fim do colonialismo europeu do século XX, nem sequer ligada à situação anterior do Império colonial português. É assim que a ditadura de Salazar aparece como um episódio maléfico desligado desligado dos movimentos antidemocráticos globais no início do século XX; e também desligado das convulsões do regime nacional durante todos os séculos XIX e XX (chegando até ao XXI, diria eu). Uma série de ideias feitas simplistas reduziram a compreensão da história recente a uma caricatura.
E não, não quero o museu. Segundo disse o autarca, aquilo era para dinamizar o turismo. Ou seja, ia ser o santuário de Salazar.
Não sei nem percebo porque chamam Estado Novo ao período do tempo do fascismo.
Acho isso uma redundância porque aquela política mais parecia herdeira do tempo da Inquisição do que outra coisa.
Também não lhe sei dizer, neste momento, apesar de já ter lido algo sobre isso. Mas a História explica.
A designação “Estado Novo” advém de uma ideologia. Precisamos de nos situar no espaço e no tempo para compreendermos um pouco o sentido do seu aparecimento. Portugal vivia uma ditadura militar, as finanças e a economia estavam um caos, as revoltas sucediam-se, a pobreza e miséria grassavam por todo o país com grande intensidade. Carmona precisava “como de pão para a boca” de um gajo capaz de endireitar as finanças. Falaram-lhe de um tal Oliveira Salazar, prof. catedrático da Universidade de Coimbra, deram-lhe as melhores referências e o Oscar mandou convida-lo para assumir a pasta das finanças. António recusou, o país andava em bolamdas, ninguém conseguia ser prior desta freguesia. Então o Presidente insistiu oferecendo a Salazar as condições que ele exigisse para aceitar o cargo. Salazar tomou posse e em menos de um ano equilibrou as contas públicas. Á custa de quê? Ora, de que havia de ser?… o homem não possuía uma varinha mágica, debaixo das pedras não saíam moedas de ouro e como sem ovos não se fazem omeletas… Mas se compararmos com os tempos actuais, não encontramos diferenças. Quem equilibra as finanças, quem financia os negócios ruinosos da banca, quem paga a dívida externa? Sempre os mesmos! Bingo!!!
Ass: Bartolomeu (o padre voador)
Eu, até sugiro que em lugar de um museu, deveria ser instituída uma Fundação!
Fundação Estado Novo.
Salazar subiu ao poder, muito depois de ter “endireitado” as finanças públicas e devido a um conjunto de circunstâncias a que não pôde (e talvez não tenha querido) furtar-se.
O que conduziu Salazar ao governo, o que o manteve e aquilo que o derrubou (antes de ter malhado da cadeira), dá “pano” para muitos museus, onde imensas figuras políticas mais salazarentas ocupariam lugares de imenso relevo.
A minha dúvida é se a “cultura” dos nossos decisores para os assuntos da cultura, encontra motivos culturais que “justifiquem” a criação de um museu capaz de expor um Homem e o seu tempo de forma concreta isenta e transparente, de forma a que, quem o visite compreenda, sem ter necessidade de julgar.
Ass:
Bartolomeu (o padre voador)
«Dá “pano” para muitos museus», sem dúvida.
Concordo.
Lugar de romagem a propósito de tudo e de nada. Lugar de conflito.
Não há ditaduras boas! O atraso em que vivemos, à ditadura se deve. Em meados do século passado tínhamos quase noventa por cento de analfabetos.
Para Salazar só precisávamos de saber ler e contar, o importante era ter o Banco de Portugal forrado a ouro. Como, quando a guerra acabou, não sabíamos ler nem contar, Salazar criou os postos escolares, cujas professoras só tinham a quarta classe e só podiam casar, com autorização do Ministro da Educação. Foram três dessas professoras, que me ensinaram a ler e contar, às quais muito agradeço, não nessas escolas, que hoje estão abandonadas, mas em duas casa particulares, que abrigaram, uma o inicio da escola, e a outra a sua continuação. As aulas começaram com duas mesas e oito cadeiras, também da dona da casa. Só a quarta candidata, ao nascimento dessa escola, é que aceitou o lugar!
Nas casas que a autarquia adquiriu, nestes últimos 10 anos, existem milhares de páginas, livros e arquivos que não são mexidos há mais de 40 anos. Ninguém sabe o que está na adega, onde estão mais de 300 caixas, cheias de papel e com códigos, que dizem ser semelhantes aos usados pela PIDE para identificar os “inimigos e amigos do estado”.
Foi feito um pedido para transferir esses arquivos, para serem analisados na Torre do Tombo, só que a autarquia recusou. Serão tesouros para os historiadores e para investigadores que queiram analisar informação, não controlada, daqueles 37 anos. O “Santo Graal” podem ser documentos sobre a segunda guerra mundial, tais como fichas dos refugiados e contactos dos alemães, que estiveram em Portugal, nos anos 50. Algo que a Torre do Tombo não conseguiu encontrar nos documentos apreendidos, após 1974. Pensa-se que terão sido destruídos mas, há esperança que alguma documentação tenha sobrevivido em casa do ditador ou relatos pessoais, pois António Salazar eram conhecido por escrever diários sobre os assuntos que enfrentava no governo.
É esse o objectivo daquele centro de investigação. E o problema não é fazer… é ter doadores e apoios para manter uma unidade dessas a funcionar. Não é só gastar 350000 euros em terrenos, casas e reconstruir tudo. É preciso muito mais e pagar a especialistas para preparar o acesso à documentação, é algo que fica muitíssimo caro e não será fácil de fazer, pois são no interior e ter o nome ligado a algo do estado novo, afasta muitos investigadores, novos e, principalmente, os mais treinados.
Caro Manuel Rocha, muito obrigada pelo seu comentário, cheio de informações úteis. Espero que essa documentação preciosa não se perca e seja analisada de forma idónea.
Mas se «preparar o acesso à documentação» fica muito caro, o melhor seria a autarquia autorizar a transferência para a Torre do Tombo, ou não? Se realmente se trata de tarefa que não consegue realizar, porque não pôr à disposição de quem consiga? Ou uma espécie de parceria…
Acho que era de interesse nacional abrir esse centro interpretativo, fosse em Santa Comba Dão, fosse em Lisboa. Porque é que um assunto destes há-de assustar os investigadores? Na minha opinião, o governo até deveria intervir, tentando encontrar a melhor solução de organizar, analisar e dar a conhecer esse espólio.