Desacordando ortograficamente


joaomsandre,

Sabendo que metade do país está à espera da minha opinião sobre o (Des)Acordo Ortográfico (e à falta de melhor assunto para escrever), deixo aqui o meu ponto de vista. Não tenho, como o Pedro, uma opinião apaixonada porque não é assunto que me apaixone. Não posso discutir (mais uma vez, como o Pedro) o ponto de vista científico porque os meus conhecimentos de linguística e semelhantes são quase nulos. Deixo apenas aquilo que penso.

 

Primeiro que nada, não vou mudar a forma de escrever por causa de um acordo. Habituei-me a escrever de uma determinada forma e não será o AO que irá mudar isso. Com o tempo, e à medida que vá lendo textos, artigos e livros escritos “ao abrigo do AO”, poderei começar a absorver essa forma de escrever. Não creio que retirarei todas as consoantes mudas porque a palavra me parece “coxa” sem ela, porque a consoante não é muda (pelo menos para mim, que leio o “p” em Egipto”) e porque de facto a consoante pode ser muda, mas altera a palavra. Não fecho no entanto, as portas a tal possibilidade.

 

Quanto ao ensino da língua portuguesa, isso não me incomoda minimamente. Aprendi um português diferente dos meus pais e dos meus avós (lembro-me de o meu avô resmungar por já não se escrever “pharmácia”) e não deixei de comunicar com eles. Os meus filhos e netos aprenderão um português diferente do meu. Isso incomodar-me-à a nível pessoal, mas não me fará diferença em termos de princípios.

 

A questão política já é um disparate. Outros países não adoptaram o acordo, não gostam dele, entendem que não faz sentido, etc, e no entanto Portugal aceita-o unilateralmente. Pior, impõem-o aos seus funcionários. Aqui entra também a questão legal: como impôr sanções a funcionários que não concordem com o acordo quando não há (nem pode haver) uma moldura legal para o enquadrar? Da mesma forma, quem não concorde com o acordo não pode impôr aos funcionários subordinados que não o use.

 

Resumindo: em princípio nada tenho contra o acordo, mas não farei qualquer esforço para o usar. As línguas mudam orgânicamente e um dia destes veremos o “qu” a cair e a ser substituído pelo “k” quando a “geração SMS” chegar ao poder. Nada disto é novo. O assunto não termina aqui. Daqui por 50 anos teremos outro acordo. E este desacordo parecerá coisa mínima.

31 comentários em “Desacordando ortograficamente”

  1. “Orgânicamente”? Nota-se porque se está a borrifar para o assunto (falta melhor, não é?). Ninguém quer saber de opiniões de meias-tintas de quem admite não saber do que fala.

    1. Já comentar sem ter opiniões nem nada para dizer faz perfeitamente sentido não é verdade? Tem alguma coisa para contribuir ou decidiu apenas tentar chatear alguém?

      1. mas homem ainda perde tempo a responder. Fez as delicias de quem se acha importante porque pode expressar uma opinião o que já é um feito de serviço civico, Assim os govrnantes mostrassem tanta determinação em resolver muitos problemas que nos levam para mais um periodo de dificuldades; isto se os opinadores hortalinos não acharem que os fazedores de tres autoestradas estavam certos.

    2. Não, a ortografia não muda. A questão é essa. Nem orgânica, nem inorganicamente. O que há de mais arrojado, no mundo, neste preciso momento, em termos de filosofia, ou de física, ou de medicina, de ciência em geral é produzido em países em que se escreve pharmacy e “pior” ainda, philosophy (em inglês) philosophie (em francês) ou philosophia em alemão. E as revistas científicas onde são publicados os trabalhos daqueles que ganham os Nobel, usam physics, chemestry, ou aludem às descobertas da pharmaceutical science – além de outros absurdos de que os acordistas brasileiros e portugueses se riem de alto.
      Mas é verdade: nesses países cultos a ortografia ou não muda há séculos (como é o caso do inglês) ou mudou ligeiramente há 250 anos, como foi o caso do francês.
      Perante estes factos, não acha que deve parar para reflectir? Não é preciso ser linguísta.
      O que se passará nesses países (Inglaterra, USA, Canadá, França) com níveis de analfabetismo ZERO?
      Será que a Inglaterra não evoluiu? Ou a França?
      O que é certo é que a ortografia das primeiras edições de Dickens ou de Balzac é a mesmíssima de uma qualquer edição de hoje. Já a ortografia em que Eça escreveu se modificou muito.
      Foi Portugal que açambarcou a “evolução”? Talvez a da iliteracia e do analfabetismo – com os aqueles portentosos 10% que nos mantêm na cauda da Europa.
      É um mistério, convenhamos, já que os defensores do acordo apresentam «farmácia” como uma “evolução» e uma melhoria em relação a pharmácia. Portugal e Brasil teriam, segundo eles, neste aspecto mais evoluídos do que os Estados Unidos ou a França -e não parece um atrevimento dizer que não.
      E a ortografia lá, na Inglaterra ou nos USA ou no Canadá ou na Austrália ou em França não muda. São mesmo atrasados?
      Tudo leva a crer que não.
      Por outro lado, não é menos certo que tudo muda (mas nem tudo evolui: o império romano não “evoluiu” com as invasões bárbaras: desapareceu e com ele uma brilhante civilização). Ora, se tudo muda e se a Inglaterra e a França mantêm a mesma ortografia há séculos e têm taxas de analfabetismo de 0% a resposta tem de estar noutro lado: a evolução da ortografia não consiste na mudança da grafia das palavras.
      Consistirá então em quê, afinal? A resposta é simples: numa coisa muito difícil, e que é a pedra de toque de um país culto com alta literacia, já que apenas é possível com um bom e consistente de ensino ao longo de muitos anos: na estabilidade ortográfica.
      A estabilidade ortográfica é, de facto, típica de países avançados, pressupondo um acesso fácil a uma norma exacta que é do conhecimento geral e generalizado.
      A ortografia de Portugal estava estabilizada e sem qualquer problema de maior.
      O acordo não é necessário e é prejudicial a essa estabilização, tão difícil de alcançar.
      Tudo o mais parece ser incapacidade e corrupção, tráfico de influências e alguma sedução pelo subdesenvolvimento.

      Afinal, escrevia o brasileiro Diogo Mainardi:

      “Eu entendo perfeitamente o empenho dos brasileiros em deslatinizar a língua escrita. De certo modo, o latim representa tudo o que rejeitamos: os valores morais, o rigor poético, o conhecimento científico, o respeito às leis, a simetria das formas, o pensamento filosófico, a harmonia com o passado, o estudo religioso. Ele encarna todos os conceitos da cultura ocidental que conseguimos abandonar. Eliminando o C e o P de certas palavras, Portugal poderá se desgrudar da Europa e ancorar na terra dos tupinambás.”

  2. Meteu-se num assunto polémico, João André, prepare-se para as bordoadas!

    Eu gostei do texto, penso mais ou menos assim, com a diferença que já adotei (ups) o (Des)Acordo. Há pessoas que dizem que são contra porque não foi assim que aprenderam a escrever na escola. Outras dizem que não querem atraiçoar a língua de Camões, Eça, etc. Enfim, eu garanto-lhes que o que elas aprenderam na escola não é seguramente o Português de Camões, nem sequer do Eça.

    Quando defendo os animais, chamam-me “imbecil infantilizada”; sempre quero ver que insultos vão inventar, desta vez. Talvez deva colecioná-los (ups) e publicá-los num blogue. É de borla.

    1. Compare-se o comparável, minha senhora. Defender os direitos dos animais – o que começa por reconhecer a existência desses direitos e avançar no plano do Direito que os toma, aos animais, como meras “coisas” – é um acto (deveria ser) de elementar bom senso e – esse sim! – progressão civilizacional. E não é preciso ser-se vegetariano para pensar assim.

      Defender o chamado “acordo ortográfico”, aberração verdadeiramente sem ponta por onde se lhe pegue cultural, científica económica e politicamente (como o demonstra a própria atitude brasileira), como foi já demonstrado por gente verdadeiramente autorizada – como aliás Pedro Correia, num límpido punhado de linhas, demonstra em comentário a este tópico, nada tem que se lhe compare. Um caso é nobre; o outro iníquo.

      Não invoque o facto da ortografia de hoje não ser a de Eça, Camões ou quem seja. É evidente que um idioma e a sua representação escrita evoluem, modificam-se. E está muito bem que assim seja, quando fruto de uma progressão gradual, sedimentada, geral e espontaneamente aceite e sem cortes abruptos e surgidos do nada com a sua fundação etimológica (e por isso, a desgraça da “geração sms”, verdadeiro triunfo de uma novilíngua de pesadelo; mas quem nessa geração, arrogantemente inculta e orgulhosa disso, sabe o que significa “novilíngua”?…). A jacobina imposição por decreto (nem isso, porque os nossos governantes nem ao trabalho de um correcto processo legislativo se deram) de uma mistela como a que nos querem forçar a adoptar, isso, é inaceitável.

      E não meta os animais, peço-lhe, neste triste episódio da história de um país apostado em se humilhar.

      Costa

      1. Caro Costa, creio que a Cristina Torrão apenas quis demonstrar que este é um assunto que, tal como no caso dos direitos dos animais, exalta excessivamente os ânimos. Aliás, a sua reacção, não sendo nem de perto nem de longe do tipo que a Cristina Torrão referiu (não insulta, nem em acordês nem em pré-acordês), demonstra que se exaltou um pouco com o assunto. Acontece.

        Agora, é certo que com ânimos exaltados não haverá lugar a debate decente nem a solução para o problema. Nesse aspecto, o livro do Pedro é uma excelente contribuição.

        1. Não, meu caro, não me exaltei. Permita-me notar – sem minha exaltação, creia, ou desconsideração pelas suas palavras – que o recurso à invocação de uma hipotética exaltação do outro é uma forma consagrada de o menosprezar, ou aos seus argumentos, na falta de melhor arma argumentativa: questiona-se a seriedade ou o raciocínio do outro e “mata-se” o assunto (não é essa a sua atitude, bem sei, e não pense, rogo-lhe, que o tomo como um desses).

          Não comentei o seu “post” : nele V. expunha os seus argumentos e quanto a eles já tudo o que eu poderia dizer tinha sido neste blogue apresentado. Neste blogue, noutros locais e, claro, no livro que tão acertadamente cita. Tudo tinha sido apresentado e bem melhor do que eu o saberia fazer. E o João André lido tudo isso. Nada havia que eu pudesse acrescentar.

          Já a invocação dos direitos dos animais, por me parecer um deslocado argumento legitimador formal ou substantivo da posição de quem defenda o alegado AO, tamanha é a distância, no plano da dignidade, de uma e outra questões, levou-me a inscrever aqui um comentário. Numa linguagem algo acalorada, para si. Seja, então. Há coisas que o justificam. Conceder-me-á, concordando ou não com o que escrevi – não concordando, no caso – que terei sido capaz, ainda assim, de manter uma estrutura expositiva minimamente sólida.

          É que, bem vê, quem não sente não é filho de boa gente…

          Costa

          Ps.: mas tenho plena consciência de que esta é uma guerra perdida. A desgraçada “geração sms” já fazia o que queria do seu idioma (e outros) antes desta repugnante ortografia se tornar pública. Fazia o que queria e impunha essa vontade ignorante, inculta, preguiçosa, mesquinha em meios e circunstâncias onde o argumento da utilidade da abreviatura definitivamente se não aplica. Isso, por um lado.

          Por outro a barbárie do tal AO, pervertendo – ignorando – a etimologia e introduzindo toda a sorte de facultatividades , fará chegar o tempo (isto para lá de outras considerações sobre a história e a cultura de um idioma e de um povo) em que será impossível definir, e em função disso avaliar e classificar, e antes mesmo disso ensinar, o que seja um texto formalmente bem escrito. Tudo será admissível menos, parece, a ortografia que – insista-se – é a actualmente vigente (e não, como se insiste em dizer e escrever, “a antiga ortografia”).

          Há-de ser esse, então, o critério…

          Este é um povo e um país num mórbido turbilhão suicidário. E não só no plano económico.

          1. Caro Costa, fui injusto consigo. Li exaltação onde ela não existia e acabei por não demonstrar que concordo com as suas palavras. Só não partilho o seu entusiasmo, mas compreendo perfeitamente as suas razões (e revejo-me em boa parte delas). Como tal, as minhas desculpas, não pretendi minimamente menosprezar os seus argumentos.

            Infelizmente para nós, concordo consigo: a “geração SMS” irá certamnte triunfar. E não será a existência ou não de um AO – qualquer AO – que o irá impedir. Não se passará a escrever como nos nossos adolescentes o fazem (se lhe podemos chamar “escrever”) nos SMS porque o mercado de trabalho, com chefes e colegas mais velhos, acabará por impôr moderação. Mas com o tempo as abreviaturas e incorrecções triunfarão e passarão a fazer parte da língua portuguesa. Em condições normais isso não me incomodaria de um ponto de vista intelectual (sentimental é outra história), mas com a aceleração da mudança e a mesclagem das línguas acabaremos com um mestiço qualquer desenvolvido sem a contribuição do tempo e da literatura.

            Enfim, não é problema exclusivamente português. Vejo-o também em inglês e holandês, línguas que vão sofrendo com a pressão suicidária dos trolls da internet que se arregimentam contra aquilo a que chamam os “nazis/fascistas da língua”. Tristes tempos.

          2. Nada a desculpar, asseguro, mas muito agradeço as suas palavras. Invoca a literatura. E o que é isso para a geração mais nova? O que se suportou contrafeito, em dose mínima e com aprovação garantida, reduzido a “fichas” e resumos, em salas de aula onde o professor é “aquilo” que para ali está a perorar inutilmente e de forma geral alvo da mais prosaica falta de respeito.

            Tristes tempos, escreve. E nisso encerra tudo.

            Costa

          3. Confirmo que só comparei uma coisa com a outra por já ter sido insultada ao discutir os dois temas e por provocarem, em geral, discussões acaloradas nas redes sociais. Foi o único critério. O próprio Pedro Correia já aqui comparou, por exemplo, as touradas ao AO.

    2. Compreendo perfeitamente o seu ponto de vista Cristina, adoptar, não adotar, são coisas de cada um. Resistir só por resistir não faz qualquer sentido. As razões do pedro eu compreendo perfeitamente, mas as de quem de facto não quer mudar pura e simplesmente por não querer, a essas nem ligo muito.

      Compreendo a comparação com a questão dos animais. Há gente excessivamente exaltada em ambos os lados da barricada.

      1. Também compreendo as razões do Pedro Correia. E eu, pessoalmente, preferia escrever como aprendi. De resto, qualquer um pode escrever como quiser. Outro dia, alguém dizia, no FB qualquer coisa como: «continuarei a escrever como aprendi e não me importo com as consequências». Ora, mas que consequências? Terá a senhora medo de ser presa, ou coisa do género? (Não lhe perguntei, pelo que isto, no fundo, é especulação minha).

    3. O Brasil, que tem uma ortografia tão avançada…
      Compreende-se que Portugal queira acatar a imposição da ortografia brasileira: os resultados estão à vista!
      (Será que não é possível uma reforma por decreto da matemática e das ciências? É tão fácil, um decreto! Bastante mais fácil do que ter um bom ensino).
      http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/pisa-2012-a-aberracao-de-sempre

    4. O que levou à “reforma” de 1911 – reforma de um governo ditatorial, saliente-se – foi a crendice, divulgada em Portugal e no Brasil, de que o analfabetismo teria como motivo a ortografia etimológica. Já em 1907 o Brasil tinha ensaiado uma reforma fonética (a que a de 1911 acabou por ser uma resposta)
      Hoje sabemos – e já em 1990 se sabia – que a escrita e a leitura são actos extremamente complexos e que a apreensão das palavras se dá globalmente, sendo completamente indiferente o nº de letras “(mudas” ou não). O aprender a escrever é um acto tão radical que introduz, para sempre, modificações no cérebro.
      Mas, é mais fácil fazer um decreto do que resolver a questão: por isso, o Brasil, nos resultados do PISA divulgados hoje, apesar de uma ortografia tão evoluída regrediu em relação aos anos anteriores continuando na companhia da Jordânia, Tunísia e Albânia. O mesmo Brasil que fazia pressão para que Portugal (Cavaco dixit) para que o “acordo” fosse aprovado.
      E Portugal está, claro, não sendo a aberração brasileira ( como diz a Veja) continua abaixo da média, dos países PISA e muito longe daqueles que não fizerem “refomas” ortográficas.
      Por isso, seria interessante saber em nome de quê se muda o modo de escrever.
      O prazer de obedecer do Estado Novo?

      1. A Alemanha fez uma “reforma ortográfica” nos anos 90, em conjunto com a Suiça e a Áustria. Houve polémica, como em Portugal, estou em condições de afirmar que as discussões eram semelhantes. Nessa altura, tinha eu aqui chegado há poucos anos, essas discussões moíam-me o juízo, perguntava-me: mas esta gente não tem mais em que pensar? Estava de fora, não era a minha língua e tudo me parecia muito supérfluo. Reconheço que, tratando-se da nossa língua-mãe, vemos o caso por uma outra perspetiva. Mesmo assim, resolvi não me incomodar com o assunto.
        Ainda hoje, mais de 15 anos passados sobre a reforma alemã, assinantes de uma revista medieval anunciaram cancelar a assinatura por a dita cuja se ter, enfim, resolvido a adotar a nova ortografia.

        1. De facto, a Alemanha fez um reforma ortográfica. A ausência de reformas ortográficas parece ser uma característica de países que não conheceram ditaduras e, infelizmente, nem a Alemanha nem a Áustria estão neste caso.

          Quanto à reforma, teve repercussões que vão muito além do cancelamento de uma revista erudita – como não podia deixar de ser. O Supremo Tribunal da Alemanha – sim, esse mesmo! – declarou que o estado não pode obrigar os cidadãos – sim, esses mesmos – a escreverem segundo a reforma.

          Diga-se que a reforma tem muito pouco a ver com o “acordo” que o culto Brasil pressionou (Cavaco dixit)… Na Alemanha, a democracia está de boa saúde, o estado de direito é uma realidade – não se toma a fraude por lei… e não há corrupção.

          Quanto às regras em si: há um reforço da etimologia, já que todas as palavras com a mesma raiz deverão seguir a mesma ortografia (para evitar casos como o que se daria aqui, por exemplo, com estupefacto e “estupefação”. O resto, são pequenas mudanças, algumas delas, acrescentando consoantes (existência de três consoantes seguidas – fff e sss, por exemplo).
          É evidente que não se compara com a mutilação de milhares de palavras – por motivos políticos, como confessou o Malaca.

          Da reforma da Alemanha, são conhecidas todas as actas dos trabalhos, publicadas – seria impensável que não fossem públicas, numa democracia e num estado de direito (ah, pode indicar-me onde estão as relativas ao “acordo”? – estou interessado e não encontro, com certeza por insuficiência minha) e o tratado internacional é legal. Já quanto ao “acordo”, escreve o actual Provedor de Justiça e outro Professor de Direito Internacional: “Pois bem, se por um lado o II Protocolo Modificativo do AO, de Julho de 2004, ao arrepio daquele primeiro sentido normativo, alterou, em parte, a redacção originária do AO, fazendo, do mesmo passo, letra morta do n.º 4 do art. 24.º da CV [Convenção de Viena], que considera obrigatórias, desde a adopção do texto, as cláusulas relativas às modalidades da entrada em vigor, por outro – o que se nos afigura bem mais grave – consubstanciou justamente um acto (concertado!) que malogrou, sem apelo nem agravo, o objecto e a finalidade do tratado.”
          E concluem que […] “se justifica, quanto antes, sobrestar na decisão de o considerar já em vigor (em vigor, mas como?)”
          http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2300823&page=-1

          P.S. E não é que mantiveram o ph! Por isso, já ninguém lê philosophia alemã. Diz que o futuro é tudo filosofia CPLP.

          1. Não afirmei que a reforma ortográfica alemã teve como única repercussão o cancelamento de uma “revista erudita”, isso é uma interpretação abusiva. Dei apenas um exemplo. Além disso, a revista não foi cancelada, apenas aderiu à reforma, depois de uma resistência de quase 20 anos. Um leitor é que deu a conhecer que cancelaria a sua assinatura.

            As reformas orotgráficas estão relacionadas com a existência de uma ditadura, em tempos passados? Enfim, é uma interpretação… Não sabemos se outros países, que não conheceram ditaduras, não as farão, no futuro. Quando eu andava na faculdade (Germânicas), nos anos 80, tomei conhecimento que linguístas da língua inglesa reclamavam uma reforma ortográfica, já que, em inglês, existem inúmeras consoantes mudas. Claro que a resistência é grande, tão grande, que, trinta anos passados, ainda não se ouve falar disso. E talvez não se ouvirá, nas próximas décadas, o que não quer dizer que não haverá gente que a considere oportuna.

            A reforma ortográfica alemã também não foi tão simples como diz, incluiu, por exemplo, o desaparecimento, em muitas palavras, da letra “ß”, substituída por “ss”. Por outro lado, uma minoria de palavras manteve o “ß”, numa dualidade de critérios difícil de entender, como certas decisões no nosso AO. E há aspetos que, ainda hoje, não estão esclarecidos, como a combinação, em orações finais, da preposição “zu” com verbos compostos de palavra-base e, digamos, “partícula” (chamo-lhe assim porque estão envolvidos vários géneros de palavras) que lhe modifica o sentido (à semelhança dos “phrasal verbs” ingleses). Enfim, nada disto será interessante para nós, apenas quis demonstrar que as discussões à volta do assunto são semelhantes.

          2. Esqueceu-se de indicar o sítio onde posso consultar toda a documentação referente à preparação do “acordo”, nomeadamente as actas dos respectivos trabalhos. Têm de estar publicadas – ou estaríamos pior que numa ditadura de uma republizeca das bananas. O facto é que não consigo encontrar nada.

            “As reformas ortográficas estão relacionadas com a existência de uma ditadura, em tempos passados? Enfim, é uma interpretação…”
            Desculpe, mas é antes uma mera verificação. Assim tem sido até agora. E atrevo-me a postular que não será acaso: a coisa prende-se com o entendimento que os grandes países democráticos têm dos limites do poder político e do que é e não é legislável.

            Quanto a Inglaterra discute-se tudo, mas parece que não têm a nossa clarividência. Há 270 partidos, alguns a propor o o vegetarianismo, deve haver gente que pense em “reformas ortográficas” (nada me move contra os vegestarianos). O óbice é que os deputados ingleses têm de prestar contas aos eleitores e podem perder o lugar por um voto e sem que o “leader” possa ajudar. Maçadas que aqui não existem.
            Aqui, o Dr. Salazar continua a influenciar a vida política, mormente no “respeitinho” ao chefe, e o “acordo ortográfico” é uma das matérias em que o velho respeitinho e mesmo o medo imperam.

            A reforma do alemão não foi simples? Bem, uma coisa sei: não houve palavras mutiladas. Nem uma: zero. E a coisa chegou mesmo ao Supremo Tribunal da Alemanha – o tal, sim. Que atendeu as pretensões dos cidadãos alemães.
            No português de Portugal as mutilações seriam aos milhares, algo de inédito no mundo inteiro, e por pressão política de uma potência estrangeira (o Malaca disse em entrevista que o “acordo” não era linguístico mas político (Expresso, 29/2/2008) e o Cavaco descaiu-se com as “pressões no Brasil” – onde, diga-se não há uma única palavra que perca uma letra que seja…

            Ah, lembro outra vez as actas dos trabalhos. Agradecia mesmo muito que me dissesse onde estão.
            Não acredito que obedeça a normativos de que desconhece – pior, de que não pode conhecer – a fundamentação. E como os pareceres técnicos conhecidos – exceptuado o do Malaca – são todos negativos, é a própria natureza da decisão em democracia que está em causa. O que não é de somenos.

          3. Não faço ideia onde estarão essas a(c)tas, caro SC, nem vou procurar. Admiro o seu empenho na pesquisa e no tratamento deste tema, mas confesso que o meu interesse não é tanto. Quis apenas expressar a minha opinião e tudo o que disse sobre a reforma ortográfica alemã baseia-se na experiência do dia-a-dia.

            Mas numa coisa estou de acordo consigo: em Portugal ainda há muitos “tiques salazaristas”, o nosso país ainda não se livrou da sombra do Estado Novo (pelo menos, em certos aspetos).

            Gostaria mais de continuar a escrever como aprendi. Mas adaptei-me ao AO. E, se, através da intervenção e da contestação de pessoas empenhadas como o SC, o AO for anulado, causar-me-ia um certo transtorno, mas voltaria ao Português pré-AO. Pode achar esta minha posição pouco patriótica, ou desleixada, mas é mesmo assim que encaro o assunto. Vejo a língua, falada e escrita, como uma convenção, um instrumento, que serve para comunicarmos uns com os outros. Desde que esse objetivo seja cumprido, dou-me por satisfeita. Apesar de ser licenciada em “Germânicas”, via-me aflita para comunicar com as pessoas, nos meus primeiros tempos na Alemanha. O Alemão é uma língua muito difícil. Isso, sim, afligiu-me e causou-me transtornos.

          4. A questão não é tanto de patriotismo, mas de defender o património cultural universal e português – que, penso, é estrita obrigação de cada um – e não aceitar ser tratado como se fosse súbdito de um ditadorzeco.
            É que, mesmo com nos países em que trabalhos publicados e toda a questão é rigorosa e pormenorizadamente explicada, a lei parece ser que quanto maior é o nível de literacia, menos mudanças ortográficas e maior a oposição dos falantes da língua (a ortografia é uma convenção, mas isso n convenções não são arbitrárias, nem modificáveis a bel-prazer de politiquetes ) de tal modo que uma linguista da Real Academia de Espanha considerava, realisticamente, que uma reforma ortográfica é impossível numa democracia avançada.
            Portugal, infelizmente, é país de muito baixa literacia e com índices escandalosos de analfabetismo – que ajuda a explicar o déficit democrático e a corrupção – incapacidades que acabam por afectar toda a sociedade, tornando-a por um lado menos crítica e, por outro, mais obediente aos ditames do poder. O “AO” é, a vários níveis, sintoma do nosso grande atraso, cultural e cívico.

            A língua, como diz, “serve para comunicarmos uns com os outros”. Mas muito mais: precisamos dela para criar e apurar conceitos já que não pensamos além ou fora dela. A visão que partilha ém por isso, um pouco redutora e outdated, não lhe parece?
            Como sabe alemão pode ler Wittgenstein no original, a este respeito.

            Ah, sendo a ortografia uma coisa tão descartável e de somenos, a gente até se admira do furioso fundamentalismo com que se encarniçam a impingir uma coisa “sem importância nenhuma”.

          5. Disse que não ia procurar, mas acabei por fazer uma pequena pesquisa (apesar de não me interessar grandemente pelo assunto, levo as suas preocupações a sério, caro SC 😉

            Reforma Ortográfica é, em alemão, “Rechtschreibreform”, pode pesquisar no Google. De qualquer maneira, dou-lhe alguns links:

            http://de.wikipedia.org/wiki/Rechtschreibreform – Wikipedia em alemão; interessante porque indica outros países, onde, nos últimos anos, se procedeu a uma reforma ortográfica

            http://en.wikipedia.org/wiki/German_orthography_reform_of_1996 – Wikipedia em inglês

            http://www.welt.de/kultur/article121635352/Doppelt-so-viele-Fehler-dank-Rechtschreibreform.html – artigo recente do jornal Die Welt, sobre o aumento da quantidade de erros entre os estudantes, 15 anos depois da reforma

            http://www.rechtschreibreform-neindanke.de/ – site de um livro contra a reforma (muito ao jeito do livro do Pedro Correia 😉

            http://www.schriftdeutsch.de/orth-his.htm – a história da ortografia alemã, onde, entre outras informações, se diz que, antigamente, cada um escrevia como queria (conforme a região), não havia um ortografia alemã uniformizada. Não causava grandes problemas porque, por exemplo, na Idade Média, mais de 90% da população era analfabeta. Martinho Lutero, ao traduzir a Bíblia, acabou por fazer a primeira reforma da História, já que a ortografia que utilizou, acabou por contribuir para a uniformizar. Hoje em dia, em que a taxa de analfabetismo é baixa, há necessidade de fazer tal reforma por decreto (não sou eu que o digo, é o site).

            Não sei se as páginas alemãs lhe servem para alguma coisa. Mas, por exemplo, na Wikipédia (tanto em inglês, como em alemão), encontra vários links, talvez noutras línguas.

            Cumprimentos

          6. Há reformas que tocam em 10 palavras (como a do invencível espanhol – tantos Nobel da literatura, tanto prestígio!) e outras, como a do “acordo” que mexeriam em muitos milhares de palavras.
            Falar em reformas pode referir-se a algo de muito diferente.
            A reforma alemã parece provar o que hoje se sabe, cientificamente: a apreensão das palavras é feita de modo global e a escrita está muito além de ser uma “transcrição fonética”.

            Ou seja, as consoantes ditas mudas, por exemplo, não apenas não prejudicam a aprendizagem como a ajudam, já que as letras são, afinal informação: bytes, que não podem ser nem de menos, nem a mais. Os triplos “fff” do alemão reformado, antes inexistentes, e injustificados por critérios etimológicos ou fonológicos devem ter contribuído para o aumento de erros – consequência necessária de perturbar a natural estabilidade ortográfica.
            Mas “bytes”, assim consideravam Gonçalves Vianna e o comité ditatorial de 1911, as consoantes ditas mudas e recuaram perante a supressão delas, por terem valor diacrítico que não podia ser dispensado. Existirão imensos estudos sobre o assunto, relativos ao período que medeia entre 1911 e 1990, pelos autores do acordo, mas não conheço nenhum que desminta Viana quanto a este assunto, nem estão mencionados em lado algum.
            Ao contrário, o que se pode ver são afirmações a raiar o puro delírio, tal como esta do ministro Pinto Ribeiro (aquele que teria ameaçado fechar a Academia das Ciências se esta se pronunciasse contra o acordo): «A reforma ortográfica que Portugal aprovou é consequência da vontade de Portugal participar na criação de “um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso”, e a participação nessa criação decorre da “resolução de problemas como coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança”, os quais serão resolvidos pelo “entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa” e pela divulgação da mesma.»
            Afinal a ortografia não é uma convenção, uma coisa de some – “que nem faz parte da lingua” (sic) ? Há por aqui qualquer coisa de misterioso, de iniciático, mas numa democracia não pode haver mistérios nem crenças de grupos particulares. Concordará, decerto.

            Ah, é um pouco estranho que o uso da ortografia legalmente em vigor – que a administração pública e a assembleia da república violam sem qualquer pejo (hábitos de ditaduras conjugados com os da impunidade) – a possa prejudicar. Como a pode prejudicar a ortografia em que escreveram Saramago ou Sophia ou Agustina, ou escreve Eduardo Lourenço – que assinou a petição anti-acordo?

          7. ‹‹Não afirmei que a reforma ortográfica alemã teve como única repercussão o cancelamento de uma “revista erudita”››

            Nem se afirmou que tivesse afirmado tal.

  3. Globalmente de acordo com o que escreves, João. Em pontos importantes que aproveito para destacar:

    1. Ninguém deve ser obrigado a escrever de forma diferente daquela que aprendeu. Ou seja, o Estado (isto é, o Governo), depois de ter imposto uma convenção ortográfica a quem frequentou os diversos patamares do ensino não pode revogá-lo impondo outro muito diferente aos mesmos cidadãos. O filósofo Fernando Belo defende mesmo, e eu concordo com ele, que todos temos o direito a continuar a usar a ortografia aprendida nos anos de escolaridade oficial.

    2. É totalmente abusivo o Estado (isto é, o Governo) pretender impor aos servidores públicos portugueses uma convenção ortográfica destinada a “unificar” o idioma na sua versão escrita. Desde logo porque se trata de uma mistificação: essa unificação não existe e jamais passará do papel (os PALOPs não aplicam o AO, nem Timor-Leste, e no Brasil foi prorrogado o prazo oficial para a sua entrada em vigor, devendo a nova data ser novamente adiada, talvez ‘sine die’). Portugal (isto é, o Governo) aplica-a de forma unilateral. Aumentando portanto as diferenças ortográficas já existentes em vez de as diminuir. Um exemplo ao correr da pena: dantes escrevia-se ‘ruptura’ ou ‘rotura’; o AO agora propõe ‘rutura’: três palavras para significar o mesmo.

    3. Acentuas, e muito bem, que as consoantes intervocálicas supostamente “mudas” afinal o não são, pois alteram a fonética das vogais precedentes. A sua inclusão não é irrelevante, muito para além das questões etimológicas.

    4. É um absurdo separar famílias lexicais, como o AO prevê com “Egi[p]to”, palavra que à luz do próprio (des)acordo entra em dissonância com egípcio, egiptologia ou egiptólogo. Um perfeito disparate, que mereceu a reprovação unânime da comunidade científica portuguesa.

    1. Como concordamos nem vale a pena eu acrescentar nada (o teu resumo é bem melhor que o meu post, aliás). Só chamo mesmo a atenção para o primeiro ponto que é, creio, o mais importante: a imposição de uma forma de escrever. Pergunto-me no que isto dará se contestado em tribunal.

      1. E perguntas bem. É a chamada norma imperfeita. Ou seja: uma norma sem sanção, uma norma que não produz consequências no plano jurídico. Vale o que vale. No concreto, vale zero.

  4. Eu detesto o AO e não o utilizo, mas vejo a questão por outro prisma, e também lamento a ignorância de vários opositores que tão facilmente expõem os flancos a acusações de, bem, ignorância.

    Comecemos pela ignorância. Não levou muito tempo para a Cristina desmentir a pessoa que afirmou que a França e a Alemanha nunca tiveram reformas, ou não as têm há séculos, penso que disse mesmo que a última da França fora há 250. Uma rápida pesquisa na internet pode confirmar que a França teve uma reforma em 1990, a Alemanha uma em 1901 e 1996; a Itália e Espanha, por sua vez, não parecem ter tido nenhuma desde o século XIX. Eu pergunto, ninguém percebe como isto fere a imagem dos opositores do AO? Nós temos de saber mais das reformas do que os nossos inimigos! Caso contrário acabaremos todos a fazer figura estúpida como aquele juiz que pensa que facto agora se escreve fato e cágado, cagado. Os defensores do AO devem ter esfregado as mãos de contentamento quando ele proferiu essas parvoíces.

    Quando aos que evocam as reformas das outras línguas como justificação para a da nossa, claramente passou-lhes ao lado – ou não lhes pareceu importante – o facto que Portugal, em menos de um século, já teve 5 reformas: 1911, 1931, 1945, 1973 e 1990 (sem contar com a gorada de 1986), é muita reforma… a França teve 1, a Alemanha 2, e com um espaçamento de 90 anos. Nós, a cada 20 anos, mudamos ou tentamos mudar a ortografia. Não acham isto preocupante? Não acham isto sintomático de uma patologia? Não acham que isto revela ansiedade, medo, desconcentração, incapacidade para ver as questões a longo prazo? Não é isto basicamente um espelho das piores qualidades da nossa identidade nacional?

    Quanto a ver a questão por outro prisma, não são os argumentos sobre a pureza da língua, ou a descaracterização das raízes greco-romanas que me preocupam. Já existem tantas palavras na ortografia de 1945 que estão descaracterizadas, e ninguém parece ter problemas com elas.

    Para mim a oposição ao AO é um dever puramente político e de defesa das liberdades pessoais. Eu não aceito que um estado regule a língua de um povo. Eu não vejo qualquer diferença entre isso e o governo da Coreia do Norte decidir quais os 28 penteados que os coreanos podem usar; ambos são interferências na vida privada dos cidadãos. E não me admira que a primeira reforma tenha sido conduzida por uma república que, efectivamente, foi uma ditadura: uma república que ia atrás de sindicalistas, católicos, monarquistas, trabalhadores e qualquer pessoa que fosse contra os programas do PRP, uma república que encheu as prisões com milhares de presos políticos e usou terrorismo de estado e milícias para realizar os seus fins autoritários. Não me admira que essa mesma república tenha unilateralmente, e sem consultar o povo, alterado a ortografia. E uma vez criado o precedente, seguiu-se-lhe o Estado Novo em 1945, o Marcellismo em 1973, e a II República em 1990: todas decidindo, unilateralmente e sem referendo popular, mudar a ortografia de milhões de escreventes. Ironicamente, e eu digo isto sem qualquer nostalgia pela monarquia, não conheço nenhum rei português, nem mesmo no zénite dos seus poderes absolutistas, que tenha tido a audácia de mexer na língua.

    Realmente têm razão aqueles que dizem que o português do Camões não é o que nós hoje lemos. Mas também é verdade que ele e os outros poetas renascentistas são um exemplo de como a língua deve mudar organicamente. Influencidados pelo classicismo reinante na Europa de então, introduziram ortografias com etimologias greco-romanas, que, dado o prestígio deles, foram adoptadas. Não foi preciso um édito real, os escreventes simplesmente quiseram escrever como um Sá de Miranda ou um Camões, quem não o haveria de querer? Esta, aliás, foi a forma como o inglês se padronizou, graças ao prestígio da figura de Samuel Johnson, que produziu um dicionário de inglês no final do século XVIII – dado o prestígio de que gozava entre as alas intelectuais, escritores, professores e afins livremente adoptaram a grafia recomendada pelo seu dicionário, pois todos queriam escrever como Samuel Johnson. Isto é bom, isto é democracia, não há aqui estado nenhum a dizer ao povo o que fazer. Isto é como uma língua realmente se desenvolve organicamente, não através de acordos.

    1. Comentador Miguel,
      Aproveito para perguntar se sabe onde estão as actas dos trabalhos do “acordo”, ou se também está no desconhecimento das mesmas.

      E vamos lá à “reforma” francesa: é facultativa – há, pois… – e está em grande parte esquecida. Foi atacada, na altura, pelas universidades e pelas editoras e motivou um protesto conjunto dos prémios Nobel franceses.
      A generalidade dos franceses era contra e até em França isso é importante.
      De qualquer modo, pegue-se numa 1ª edição de Balzac e numa de agora e veja-se onde está a reforma…
      O castelhano também teve uma, firmada entre 19 Academias e com a dignidade que os espanhóis dão aos seus assuntos. A reforma espanhola mexe na hifenização, na nomenclatura ( o nome do y, por exemplo) e fora isso, propõe a alteração de grafia de 10 ou 12 palavras. Para ter uma noção, consideram explicitamente, que se deve escrever Catar e não Qatar. Por respeito para com os utentes (sic!) a reforma é, também, meramente indicativa e de uso facultativo…
      Ou seja, essas reformas além de quase imperceptíveis, (salvo erro, nenhuma dela há palavras mutiladas) são geralmente, facultativas
      Em Portugal ( no Brasil nenhuma palavra perderia qualquer letra!) o delírio totalitário levaria à mudança de milhares e milhares de palavras, contra os pareceres técnicos e sem se saber porquê – podendo-se alvitrar, conjugando Malaca e Cavaco e Pinto Ribeiro que os motivos são políticos, e de pressão brasileira e se prendem com uma nova ordem mundial (sic), lugares na ONU, 5º e outras bizarrias típicas de gente de poucas letras….
      O facto de que o “acordo” tem uma dimensão gigantesca, sendo um acto inédito na história mundial é, geralmente, escamoteado. O poder, em Portugal, conserva quando não aumenta, a prepotência da ditadura que, em Portugal se fartou de reformar a ortografia – talvez por gosto pessoal de Salazar.
      Para se poder aquilatar das diferenças,mfica um resumo das mudanças ( em ortografia brasileira) onde é patente a brutalidade do “acordo” – o tal que o actual Provedor de Justiça considera difícil que esteja em vigor…
      http://leofontenelle.wordpress.com/2009/04/28/reformas-ortograficas-recentes-em-outros-idiomas/
      A reforma do castelhano: http://www.coisaparecida.com/2010/11/nova-acordo-ortografico-tambem-na-lingua-espanhola/

  5. Ouvi um imbecil na televisão dizer ‘óvio’, que era ‘óvio’. Mas restava ainda um pedacito do b, o ‘óvio’ não era completo. Acho que o ______ do Malaca ou lá como _______ lhe chamam devia propôr que passasse a ‘ólvio’ porque assim ainda restava a ______ da haste do b, embora a ______ da bossa já tivesse marchado. Sugiro também que preencham os espaços com palavrões adequados. Ah, e desejo aos defensores do Acordo mais cortes nos subsídios e que não tenham reforma.

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