Os resultados do trabalho de investigação da Universidade Católica e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento, para os quais a Teresa Ribeiro já havia oportunamente chamado a atenção e de que a edição de 15 de Janeiro pp. do Público dá conta, para lá de enfatizarem aquilo que é mais chocante, ou seja, de que os portugueses quanto mais instruídos e mais ricos menos solidários são, revelam a falta de uma dimensão essencial, a mais importante da educação, que é a dimensão humana e relacional. Este aspecto é ademais sublinhado pelo investigador Lourenço Xavier de Carvalho quando refere que essa dimensão “está cada vez mais afastada dos currículos”e que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”. As pessoas embora tornando-se competitivas e tecnicamente preparadas tornam-se insensíveis aos outros.
Os resultados do estudo não constituem propriamente uma novidade para quem ande na rua, acompanhe o dia-a-dia, fale com adultos e menos adultos e, em especial, se predisponha a ouvir o que a maioria dos nossos dirigentes vai debitando.
A assinatura do memorando de entendimento com a troika, na linha do que já antes vinha dos “famigerados” PEC, o que em tempos fomos ouvindo a Teixeira dos Santos, ao ex-primeiro ministro e a alguns dos membros do seu executivo, ou que posteriormente escutámos a Passos Coelho, Vítor Gaspar, Hélder Rosalino, Mota Soares, Maria Luís Albuquerque e tantos outros, para só me referir aos mais próximos e aqueles cuja “desfaçatez” está mais presente, será apenas a ponta de um iceberg que foi paulatinamente crescendo sem que a maioria das pessoas se apercebesse das suas verdadeiras consequências e da dimensão, este sim, não o outro, do “monstro”.
É o “monstro”da insensibilidade que acompanha o desenvolvimento da ignorância global sobre a nossa própria condição e nos impede de ver o mal que daí resulta para o desenvolvimento e crescimento saudável de qualquer sociedade. Sou a favor da competição, sou um acérrimo defensor do mérito e da valorização das competências técnicas e profissionais, que fique bem claro. Mas continuo a não conceber que desenvolvimento e que tipo de sociedade será possível alcançar se os seus padrões de qualificação desvalorizam a dimensão humana das acções que nela se produzem.
E aqui, quer se queira quer não, voltamos a entrar na velha discussão sobre o papel da escola, sendo para o caso indiferente se essa é pública ou privada. Porque, se virmos bem as coisas, quando a família falha, quando o núcleo fundamental se desestrutura, seja por os tempos serem outros e vivermos numa sociedade “pós-modernista”, seja porque a indiferença se substituiu a um simples olhar para quem está ao lado, assistindo-se ao crescimento de manifestações de índole individualista que desviam a atenção do essencial e desvalorizam a dimensão humana da nossa relação com a economia, com as finanças, com a ciência, com a arte, enfim, com o mundo, falham os próprios pressupostos da formação.
O acto de ler, por exemplo, sendo um acto profundamente individualista, e não me refiro à leitura pública de textos, é um acto que nos aproxima dos outros e é incomensuravelmente mais humano e saudável do que os videojogos que invadiram as casas de todos nós e atiram adolescentes em idade de ler, ver um bom filme ou ouvir um bom disco para o recolhimento dos seus quartos ou para sofás de onde a custo se levantam na hora das refeições ou quando a bexiga aperta.
Quando a família falha e a escola também em igual medida, e ambas de uma forma crassa como se vê pelos resultados do estudo, é preciso que o Estado, que as suas instituições, aquelas para as quais os nosso impostos contribuem, fosse capaz de aparecer e colmatar o vazio, preenchendo essa vertente da formação.
No caso português a falha tem tal dimensão que não só nos mostrámos absolutamente incapazes de nos governarmos – o que significa que os dirigentes que a sociedade formou para a dirigir para além de serem recorrentemente mentirosos e aldrabões são igualmente maus do ponto de vista da gestão colectiva – como, ainda por cima, cultivámos um padrão de desenvolvimento que é a vergonha da herança de Erasmo, de Montaigne ou de Thomas More.
Dinheiro, poder, estatuto, cartões de crédito platina, bons carros, fatos de fino corte, sapatos de luxo, viagens à Cochinchina em classe executiva, refeições estreladas pela Michelin, tudo isso tem o seu espaço numa sociedade equilibrada sem que para corrigir excessos seja necessário cortar na reforma dos mais humildes, dos que mais trabalharam e dos que mais pagaram para não terem de viver os últimos anos das suas vidas sujeitos às contingências de lares e casas de repouso, sujeitos a maus tratos e à caridade de terceiros, nem despachar os mais capazes para o outro lado do mundo contando com as remessas deles e dos seus filhos para pagarem os vícios e os excessos dos incapazes e ignorantes que tomaram de assalto todas as zonas de conforto da política, da sociedade, da diplomacia e do Estado em geral, sem nunca nada de útil terem feito para merecê-lo. Não pode haver uma sociedade equilibrada enquanto se desvalorizar tanto o olhar sobre os outros, enquanto todas as críticas forem tomadas a peito pelos visados e vistas como ofensas pessoais, enquanto o humor for sempre interpretado como chacota, gozo e inveja, e, pior que tudo, se condescender com a disfuncionalidade social e juvenil ou comportamentos aberrantes dos titulares de cargos políticos, tratando-os como inevitabilidades do século XXI ou o preço a pagar pelo desenvolvimento.
Se não formos capazes de atalhar caminho começando por “educar” os nossos dirigentes e mostrando-lhes o caminho para onde deverão seguir, com troika ou sem troika, visto que aqui a componente económico-financeira até será a mais desprezível e ainda que não possamos descurar o cumprimento das nossas obrigações internacionais, o problema jamais terá uma solução adequada que nos liberte de fantasmas e nos faça reencontrarmo-nos com o nosso passado, sem necessidade de se continuar numa espera eterna por um qualquer vulto saído do mais tacanho sebastianismo, de um vendedor de pátrias e de credos, ou iluminado vendedor de banha-da-cobra que um dia acorda com vontade de ser primeiro-ministro.
Nunca a aposta na educação foi tão fundamental para se garantir a liberdade e a independência de um povo. Nunca o Estado moderno foi tão importante. Nunca os portugueses precisaram tanto de um Estado forte e de partidos políticos e dirigentes à altura do momento.


A Escola Publica – Única por isso Totalitária -não existe para distribuir o saber. Se o fosse a Escola Publica não destruiria pela força da violência a concorrência.
A Escola Publica existe para tornar tudo igual. Para congelar o saber.
E manter o Poder a quem lá está.
«– Bark Ubu, bark
– Woof, woof
– Good dog»
É pavloviano. Fala-se em escola pública e o camarada mp3 lucky lá despacha a ladainha habitual. Demorou muito o treino? Espero que não babe o teclado.
Sempre a um instituição opressiva.
E aos seus apoiantes.
Caro Sérgio,
De acordo em absoluto com o texto, mas queria chamar atenção para uma coisa: se quem é mais instruído e rico é menos “solidário” (não gosto do termo, daí as aspas), então uma “solução” seria promover a pobreza…
Isto para dizer ou discordar do quê, de que a cabe à escola esse papel formativo. Não cabe, cabe à escola complementar isso, mas a formação ética e moral pertence às famílias e, na falha destas, à Sociedade (primeiro, de proximidade, como vizinhos ou conterrâneos, e, em último caso, ao País como um todo). E a Sociedade está moralmente equivocada, porque esqueceu ou desprezou o sentido do colectivo pela supremacia do individualismo.
Enquanto não se regressar à ideia de que todos somos parte de um todo, que só valemos o que valemos nos reflexos que temos nos outros, não temos grande saída. Infelizmente, somos extremamente hedonistas e narcisistas. Todos os dias ouvimos falar de direitos (adquiridos ou outros) mas raramente se ouve falar de deveres. Achamos que a nos devem tudo e nós devemos nada, que os outros se devem sacrificar por nós mas nós nunca pelos outros. E isso reflecte-se em imensas coisas, desde os velhos abandonados nos hospitais ao apetite insaciável por reality shows e quejandos.
Trocamos a ética pela finança e a moral pelo Eu. O problema não está nas escolas (públicas ou privadas), está na Sociedade pós-moderna, relativista e “progressista”. Convencemo-nos que mudar tudo é progresso e, à custa disso, perdemos o rumo.
Caro Carlos,
É exactamente esse rumo que importa recuperar. E a noção de dever e do que este comporta pode ser um bom princípio.
Percebo o que diz, mas são as famílias que fazem a Sociedade.
Caro Sérgio,
Pois são, mas a nossa Sociedade priveligia os direitos do Indíviduo sobre os da Família, em vez de tentar encontrar um equilíbrio. A título de exemplo (e por favor não extrapole nada mais do que o que está escrito) não é natural, normal, que seja mais fácil um divórcio que o fim de um contrato de arrendamento. Não é aceitável que seja fiscalmente preferível um casal “separado” que um casado (e não discuto modelos de casamento, atenção). Não é justo que os filhos não (des)contém directamente para apuramento da massa tributável.
Outro exemplo (que agora anda à baila de novo), a (co-)adopção de crianças por casais homossexuais. A maioria da discussão centrou-se, infelizmente, nos “direitos” dos referidos casais por parte de quem defende a medida (salvo algumas honrosas excepções e lembro-me, de repente, do FNV do “Declínio e Queda”). Ora o que conta aqui não é o “direito” do referido casal, mas sim o interesse da Sociedade em ter miúdos integrados em unidades familiares. Portanto, a discussão deve centrar-se no se é (mais) benéfico para as crianças serem criadas por casais homossexuais ou permanecer o sistema como está. O resto é absolutamente irrelevante.
E este afastamento da família como divisão atómica da Sociedade reflecte-se em tudo, incluíndo nas Escolas. Se a família é desestruturada, a criança será (por norma) pior aluno e terá pior futuro. Mas não compete à escola “salvar” a criança, compete à Sociedade salvar a família.
Carlos,
Todos os exemplos que dá suscitam-me (suscitaram-me) reflexão, e embora tenha algumas convicções não possuo certezas, o que me garante a liberdade de poder continuar a pensar nas coisas.
A minha dúvida é se ainda temos uma Sociedade (com maiúscula como grafa), que seja capaz de desempenhar essa tarefa. Pelo que vejo, se existe está moribunda.
Mas vamos continuar a pensar e a reflectir sobre isso na perspectiva da sua melhoria.
Absolutamente de acordo com o teu texto. E, quanto ao último parágrafo, o mais preocupante é que essa necessidade de intervenção urgente não parece ser prioridade dos nossos governantes. Pelo contrário, aparentemente aposta-se num retrocesso aos tempos em que o povo era ignorante e assim não chateava muito. O que estamos a fazer da nossa educação é criminoso, não encontro outra palavra.
Ana,
É difícil compreender a urgência quando não se tem a mínima noção da dimensão do problema.
O problema, Sérgio, é que ficámos nas mãos de gente que acredita, tal como Margaret Thatcher, que “there’s no such thing as society”.
Teresa,
Bastar-lhes-ia ler Tony Judt. Seria um bom começo e uma leitura acessível a qualquer leigo.
A solução de problemas através do “Estado forte” foi profusamente tentada através dos seculos com especial relevo no sec XX com o aparecimento do Socialismo que reduziu todos (menos os donos do sistema, famílias e amigos) à pobreza eliminando assim os tais ricos que não se preocupam.
Para outras alternativas de Estado forte temos uma solução tipo Salazar, Franco, etc.
O que vai resolver o Estado forte?
Normalmente quem preconiza um Estado forte está a pensar em coacção (daí a necessidade da força) para:
– Confisco fiscal.
– Diminuição de liberdade (obrigatoriedade de comprar/utilizar produtos decididos pelo Estado).
– Diminuição de liberdade de movimentos (restrições à emigração, transferências de riqueza).
– Lavagem cerebral escolar. Pensamento único de acordo com a filosofia vigente (suponho que o autor do post estará a pensar na sua visão de mundo solidário).
Meu caro hcc “, emocrata, enfim, uma “salganhada” que nem os próprios conseguem definir, tal como temos um pensamento único e uma linguagem distante da realidade que nos é imposta em matéria educativa.
Quando falo de Estado forte não me refiro a dimensão no aparelho produtivo, económico ou social. Também não convém confundir Estado forte com autoritarismo, menos ainda com socialismo ou com falta de liberdade. Não se trata de eliminar ou alterar a base social, transformando-a. Trata-se antes de reflectir sobre os anseios, as necessidades, as demandas, da base social que ele é suposto servir, adaptando-o, fazendo-o evoluir para patamares mais consistentes com as nossas preocupações actuais e as realidades em que importa intervir. Trata-se de restabelecer canais de comunicação com a sociedade, aquilo a que alguns cientistas políticos referindo-se aos partidos chamam a “linkage”,a ligação à sua base, à sociedade.
E deixe-me que lhe diga que não só há estados fortes não socialistas – a Alemanha, a Suécia, a Holanda, por exemplo -, como há, houve, estados socialistas fracos e cuja única força lhes advinha da violência exercida sobre o tecido social.
Confisco fiscal, como diz, temos nós hoje em Portugal, com um governo que se reclama de centro-direita/liberal/neoliberal/social-d
Aquilo de que nos dá conta em seu texto gira em torno do egoísmo, da hipocrisia e do oportunismo latente e evidente no ser humano. A sociedade que nos apresenta é uma sociedade farisaica, ao melhor estilo dos escribas e fariseus, daqueles que ajem com falsas palavras e sentimentos e com nenhuma autoridade (a do saber).
Permito-me partilhar consigo a opinião por mim formulada no texto de Luís Menezes Leitão: ds-no-seu-labirinto-5986256#comentarios
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o-c