O nosso José António Abreu fez abaixo um post demagógico acerca da diferença de salários médios entre público e privado. Digo que é demagógico não porque o JAA seja um demagogo, mas porque escrever o que escreveu, sem falar em mais nada (mesmo que invocando razões com que se possa discordar) é demagogia pura. Seria o mesmo que eu escrever que os CEOs portugueses ganham “x” vezes mais que o Presidente da República para indicar o mal que se paga aos titulares dos cargos públicos. Se queremos abordar o tema, temos que o fazer pelo lado da interpretação, caso contrário parecemos novos Grillos.
O primeiro ponto é simples: no público os trabalhadores têm qualificações superiores ao privado. Não sei valores actuais, mas sei que há uns 5 anos os trabalhadores com formação superior eram 10% no privado e 50% no público. A média europeia dos ganhos salariais por ano extra de educação superior é de cerca de 10%. Com cursos entre 3 e 5 anos, pode-se esperar que a formação superior traga benefícios salariais de 40%. Se aplicarmos um peso de 50% desta componente ao público (20% aumento em vez de 40%) para 50% dos trabalhadores, temos que explica cerca de metade do diferencial (1140 € – Privado; 1140 x 120% = 1368 €).
O segundo ponto volta às qualificações, mas no outro lado do espectro. Se o sector público terá mais tendência a empregar pessoas com qualificações superiores, também empregará menos com qualificações abaixo da escolaridade mínima. Aqui não tenho valores, mas posso facilmente imaginar que os trabalhadores com a 4ª classe ou um ensino secundário incompleto serão muito mais facilmente empregados como empregados fabris, lavadores de pratos ou terão outras funções não qualificadas que os do público. Isto aumentará também o diferencial.
Por último há um aspecto importante: o simples facto de existir este diferencial não significa que deva ser abatido pelo lado do público, como o JAA implicitamente sugere. Poderá não ter sido a sua intenção, mas ao escrever como o fez, dá a entender que o que está mal é o salário público, não o privado. Nos comentários fala da asfixia do sector público ao privado, o que vejo como um disparate em si. Há de facto uma enorme lacuna na legislação em Portugal que permita ao privado poder desenvolver-se, mas o público não asfixia o privado, antes o estimula (pelo menos alguns actores do mesmo) em relações muito pouco saudáveis.
Eu gostaria muito de ver o diferencial a desaparecer, mas pelo lado do aumento do salário do privado. Para tal é necessária legislação mas também mudança das mentalidades canhestras dos empresários portugueses. Enquanto continuarem a ver pessoas com formação superior como tipos a quem têm de pagar mais; mulheres como aquela gente que vai ter de ir parir; e os trabalhadores em geral como “colaboradores”, o diferencial continuará a existir. E os rendimentos (não necessariamente sob a forma de salários) mais elevados continuarão a existir no lado do privado. E aqui os diferenciais não se medirão em um salário mínimo.

“Digo que é demagógico não porque o JAA seja um demagogo”
Ora, porquê pruridos de última hora?
Caro JAA, não te considero um demagogo porque fundamentas frequentemente os teus posts (mesmo quando discordo profundamente – o que acontece muitas vezes), mas aquele post foi demagógico.
“Eu gostaria muito de ver o diferencial a desaparecer, mas pelo lado do aumento do salário do privado. Para tal é necessária legislação”
Fantástico, João. Descobriste a pólvora.
Teria sido mais interessante apontar a segunda parte da frase. Na legislação a esquerda e a direita discordam muitas vezes (com vários graus de discordância, dependendo das suas posições específicas) mas seria ainda mais interessante procurar uma solução (que não tenho) para a questão das mentalidades. Esta não se resolve com legislação.
A segunda parte acho que revela uma visão estereotipada e, nos sectores mais importantes para a sustentabilidade da economia, ultrapassada dos empresários nacionais. Mas muito típica e conveniente. Sei que existem péssimos empresários (*) mas também sei que o panorama evoluiu muito. A maioria das empresas, especialmente nos sectores exportadores, tem defeitos (nunca nenhuma organização será tão eficiente como gostaria de fazer crer) mas mudou imenso nos últimos 20 anos. Por necessidade, a forma mais eficaz de causar mudança. E poderia mudar e crescer mais – e pagar salários mais altos (veja-se como aumentaram no sector do calçado) – se o Estado deixasse. O mesmo Estado que recusa a mudança, mesmo quando a necessidade bate à porta.
(*) Por exemplo: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/35 80223.html
Concordo contigo quando referes que as mentalidades têm vindo a mudar, só tenho a impressão que o terá sido menos que muita gente pensa.
Claro que é uma impressão pessoal que resulta de discussões com amigos e colegas e a ocasional experiência pessoal. Não há qualquer dúvida que há sectores que têm vindo a modernizar-se (na cultura empresarial, mais importante ainda qu ena tecnologia), tal como o calçado (normalmente o bom exemplo português). Há no entanto ainda demasiados que não o fazem, que continuam presos aos paradigmas antigos, dos salários baixos. Conheço vários exemplos nesse sentido de empresas que deveriam ser modernas e não o são, julgando que comprar equipamento basta.
Há certamente muita gente, mais ou menos jovem, que nos últimos 20 anos tem vindo a criar empresas bastante modernas no seu funcionamento e estrutura. Nisso tens absoluta razão. Só não creio que tenham ainda muita expressão no tecido empresarial português, especialmente porque não conseguem crescer, dado que o querem fazer de forma moderna e os financiadores (praticamente só e apenas bancos) exigem manter-se agarrados aos modelos antigos (garantias na forma de casas, salários de cônjuges e outros familiares, etc).
As coisas estão a mudar? Certamente. Mas muito mais devagar que aquilo que seria desejável. Parte disto diz respeito aos obstáculos ao empreendedorismo. Outra parte a mentalidades que não querem ,mudar ou não permitem, mesmo de forma indirecta, que outros mudem.
“o simples facto de existir este diferencial não significa que deva ser abatido pelo lado do público, como o JAA implicitamente sugere”
A menos que o Estado apresente défices crónicos.
E talvez fosse conveniente pelo menos não o aumentar, seja nominalmente, seja por via da redução do tempo de trabalho.
Os défices não existirão necessariamente pelo valor dos salários públicos. Poderão estar ligados ao número de funcionários (penso que é discutível, embora seja claro para mim que a função pública está mal estruturada) mas estarão ainda mais ligados a outras atitudes, nem sempre políticas, que sorvem dinheiro ridiculamente (parcerias público-privadas, subsídios, má gestão, compadrios, etc).
A menos que o Estado apresente défices crónicos.
Sim, mas esse é um argumento diferente. Não se deve aumentar os salários no setor público, não porque eles sejam inadmissivelmente altos, mas sim porque o Estado já não tem mais dinheiro.
Uma coisa é o patrão dizer ao empregado “Ganhas de mais para aquilo que fazes”, outra muito diferente é dizer-lhe “Gostaria de te pagar mais, mas não posso”.
Também temos muitos patrões no privado a dizer que não têm dinheiro enquanto compram um novo automóvel para substituir o outro com 3 anos e a seguir declaram falência. Talvez menos hoje que há 10 ou 20 anos, mas ainda vai existindo disso.
No público o pior são os que não permitem quaisquer promoções porque o funcionário não tem o cartão certo e depois promovem outro, menos competente (quando não gloriosamente incompetente) mas com o cartão certo e talvez até adepto do mesmo clube para a posição.
Ainda há outro problema embora eu não saiba qual o seu peso. Suponho que no privado há muita gente que ganha mais do que é declarado no contrato a fim de fugir aos impostos e segurança social. Suponho que isso não é possível no público. Digo isto com base somente em casos que conheço, não com base num estudo sério.
Bom ponto, do qual não me lembrei. Será ainda mais notório no caso dos salários mais elevados, com os empresários que declaram salários mínimos e fazem a sua vida à custa da empresa (casa da empresa, carro da empresa, outros custos…).
Gosto do seu comentário especialmente pela ponderação. Não tem dados específicos (nem eu) e di-lo logo, em vez de apontar um número “achológico” como tantos comentadores (não estou imune). O meu muito obrigado por isso.
Sim, os casos que conheço estão na zona dos salários mais elevados e funcionam como diz.
“Não tem dados específicos (nem eu)” Não tenho mas gostaria muito de ter para saber o peso. Alguém que leia este comentário tem?
Tentar comparar alhos e bugalhos. Magnífico.
Está a falar da comparação dos salários ou da minha tentativa de explicar os diferentes valores (ou talvez ambos)?
É uma tentativa coerente mas permita-me …
Num País como por exemplo a ex-Alemanha Democrática, como mt. bem sabe, empresas do Estado e funcionários do estados, todos poderiam ter por igual 35 horas semanais e categorias de remoneração semelhantes. Não havia realmente sector privado.
Num polo opostos, teórico, nos EUA em certos estados até são proibidas greves (e “sindicatos”) de funcionários do estado!.
Referia-me, construtivamente, ao sistema misto vigente em Portugal, como sabe por esperiência própria quem medrou no privado. Difícil comparação.
Difícil haver pontos em comum. No quotidiano, no fim do mês e nos “fringe benefits”, de um trabalhador, por cá, do privado e no estado, autarquias … para posições minimamente semelhante, se as há.
Cordialmente.
Certamente que a comparação é difícil e por isso mesmo o meu post. A composição do tecido laboral é diferente, as regras também, os benefícios extra igualmente. No privado não havera limite teórico para o salário e no no público o salário mínimo de entrada será sempre mais elevado.
Claro que isto muda muito as perspectivas. Por isso o meu post para apontar a falácia e aquilo que vi de demaogia no do JAA.
Saudações, João.
Li o seu post e o do JAA. As médias estatísticas dizem que se eu tiver 1 Kg de arroz e o João tiver 0 KG o João tem 0,5Kg e eu 0,5 Kg. Mas a realidade revela que eu é que tenho tudo. Portanto, as médias são o que são.
Na realidade o sector privado, em regra, tem vindo a ser flagelado por uma classe de empresários, gestores, administradores, economistas e chefes e chefinhos que vêem o factor produtividade pelo olhar da quantidade de horas e não pela qualidade do trabalho que se desenvolve.
Em suma, estes possuem a mentalidade de cavadores de terrenos de batatas que esquecem existirem outras disponibilidades para aumentar a produção e rentabilizar o esforço.
Sendo verdadeiro o anteriormente afirmado, não menos certo também é o facto do funcionalismo público entender que o seu lugar é nas boxes e aqueles a quem devem servir serem o factor de produtividade que lhes falta. Para o agravamento desta política também contribuíram os anteriores refundadores e redescobridores Passos/Portas & Cia. Lda.
Prova disto é o encerramento de serviços de atendimento ao público, colocando os servidos pagantes a fazer o papel daqueles que recebem, assim como, e coadjuvando o encerramento, aumentando a carga horária dos recebedores. Não para melhorar a produtividade mas para fingir que a produtividade aumentava pela redução do valor/hora pago.
Na realidade o espírito empreendedor/gestor/administrador revelado a montante e a jusante possui uma fórmula parasitária, limitando-se a sugar do dorso do cavalo a energia que este possui.
Também é certo e sabido que o factor habilitações não é sinónimo de produtividade. É necessário qualificar, e esta qualificação é porta aberta para todos: quer os mais habilitados quer os menos habilitados sob o ponto de vista académico. Existe também uma arrogância do saber que impede ver que existem pessoas bastante qualificadas on job que são substituídas, preconceituosamente, por pessoas habilitadas mas pouco qualificadas no desempenho de suas funções.
Uma habilitação académica, profissional, média e/ou superior só refere que a pessoa deve estar habilitada para aprender até morrer. Em Portugal tem-se morrido estúpido por se pensar que se está somente habilitado, mas sempre pouco qualificado.
Concluindo, na realidade o sector público carece de melhorias, muitas mais melhorias necessita o sector privado. Mas estas melhorias não passam para que NO MOMENTO se despeçam ou reduzam trabalhadores, pois não existem condições no mercado para os poder absorver. O estado pode e deve melhorar os serviços públicos sem ter de os cortar e de diminuir trabalhadores. O dinheiro que estes recebem também ajuda na riqueza da nação.
Caro Vento, coom sempre pega nos meus posts e leva-os mais além.
O essencial está no último parágrafo, especialmente no que se deve subentender: independentemente daquilo que o público pague, o privado não sofre por isso. Ou seja, o privado não paga menos porque o público paga mais. Isto não é um zero sum game, por um pagar mais o outro não tem de pagar menos.
A produtividade, no público e privado é um problema que carece de soluções. Diferentes de caso para caso. Mas uma iniciativa (pública ou privada, estou-me pouco lixando para quem a começaria) para educar o país acerca de produtividade seria um primeiro passo.
Concluiu bem e rematou melhor. Abraço.
Eu consigo provar que deus existe, desde que introduza premissas falsas. A minha amiga funcionaria publica de grau 2 com 9º ano, ganha tanto como a secretaria do patrão com curso superior de línguas e administração. Se quiser pego neste exemplo e demogisicamente provo que os formados do privado ganham menos que os escriturário do publico. E não é que os recém licenciados recebem a maioria mil euros de entrada no privado?
Todos os profs que conheço no privado recebem menos que o meu amigo prof no publico; será que ele é uma excepção ou estou a tirar conclusões demagógicas?
Se eu disser o oposto vou provar o oposto do que o cristof diz? A sua pergunta inclui a sua própria resposta.
JAA: “E para que fique claro, eu não me importaria de que a média no público fosse de 3 ou 4 mil euros – desde que a economia o suportasse. Para isto, era necessário deixá-la crescer (o que levaria a um aumento de salários nos sectores do privado onde esse crescimento ocorresse) ANTES de transferir recursos para o sector público.”
Tiro ao Alvo: “…justificam tal disparidade, dizendo que o Estado tem um número muito mais elevado de servidores qualificados – por causa dos sectores da Saúde e da Educação -, é bom não perder de vista que o dinheiro não cai do céu e que tem que ser o sector privado quem tem que produzir as mais-valias necessárias para pagar ao seu pessoal (e também impostos), de modo a que os funcionários públicos também recebam os seus salários.”
Eu: O Estado tem muitos colaboradores com a 4ª classe e nenhum leva para casa apenas os 530€ (mais euro menos euro) do ordenado mínimo. Condutores, auxiliares, recepcionistas mal encarados, etc. Toda uma panóplia de serviços gerais que o Estado tem e levam para casa tanto ou mais dinheiro que muitos dos licenciados do privado.
No publico tudo pode funcionar mal ou até nem sequer funcionar. Tudo pode dar prejuízo e estar ao serviço do lobby inclusive até o próprio beneficiário do lobby pode estar no publico mas ocupado com o seu negocio ou esquema privado. Tudo isto porque não há Rei nem Roque, não há dono nem patrão, nem sequer há crise. O dinheiro é sacado às partes fracas da economia na forma de imposto e por isso nunca falta.
Nem há comparação possível de se fazer, são estratos sociais com estatuto especial, são castas distintas, são mundos dentro do mundo.
Em relação ao seu comentário (último parágrafo): eu rejeito simples comentários taxistas de “no público ninguém faz nada”. Se quer discutir o assunto, pegue em números de produtividade (se existirem) em todo o público e todo o privado e depois falamos.
Há gente inútil no público? No privado também. Esse é um problema diferente. Os salários têm pouco a ver com a eficiência, tal como o privado nos demonstra.
Até podia ser maquinista de comboio que você não recuava um milímetro na sua posição.
A sociedade portuguesa tem 3 classes. Baixa, média e alta. Na baixa está o grosso da população trabalhadora do sector privado. Na média, está o grosso da população trabalhadora do sector público e na alta os grandes proprietários e os grandes grupos económicos. A classe média deste país beija a mão da classe alta e em muitos casos serve-a o melhor possível por ambicionar fazer parte dessa elite e por isso mesmo, quando quer crescer só o pode fazer espremendo a classe mais baixa desta trilogia. De resto pode encher isto que lhe acabo de dizer com muitos números e estudos cheios de palavras sofisticadas que a mim não me demove um milímetro.
“Este tempo de antena foi da responsabilidade de Manuel. Os debates seguem dentro de momentos”.
Meu caro, em Portugal enriquece-se à custa do erário publico impunemente. Com a maior das naturalidades decreta-se e impõe-se esse modo de viver e quando impondo aos demais presentes já não chega para contentar todos os esganados ungidos pela constituição a solução é ir impondo às gerações futuras dividas que não são suas – coisa linda, não?
“Áh mas o aumento de consumo interno é bom para a economia do país e para a retoma e tal e tal”: Treta, canção do bandido. Esse consumo interno é bom mas é para rapar ainda mais o país pela via das importações – e porquê? Porque vão continuar a fazer aquilo que sempre fizeram: comprar luxo estrangeiro – porque a cultura do invejoso só permite isso mesmo: copiar o luxo e a qualidade da vida alheia.
Ainda estes dias tivemos exemplo que retrata na perfeição a cultura da inveja nacional. A alegada vergonha que Marisa Matias sentiu pelas subvenções revelou, a quem conseguiu ver, que afinal temos políticos que querem é ganhar tanto ou até mais que os mais bem pagos da UE! Mas pasme-se, é que não são só os nossos políticos que querem estar ao nível dos mais ricos da UE, são os nossos grandes empresários, os nossos banqueiros, os nossos magistrados, médicos, professores, militares, pilotos, maquinistas, (…) e por aí abaixo até chegar ao badameco do meu vizinho do lado que é um recepcionista com inveja de muitas coisas, entre elas dos ordenados mínimos dos países mais ricos da Europa.
Querem ser todos iguais aos mais ricos desta UE, mas no passado ainda recente, ignoraram uma coisa muito importante e agora ignoram outra não menos importante: Ignoraram a oportunidade que tinham para criar e trabalhar sob uma estratégia de desenvolvimento com missão de preparar o país para a globalização – tiveram dinheiro dado para esse fim durante quase 3 décadas! E agora ignoram que já perdemos a oportunidade de fazer isso. Agora somos o que no fundo sempre fomos ou ainda pior: pobres e ainda por cima desonrados em todos os cantos do planeta. Estamos falidos e sem recursos para alcançarmos o nível de vida dos ricos desta Europa. Eu já digo até que não temos condições para nos mantermos nesta união europeia.
Sobre a diferença salarial entre os funcionários públicos e privados, quem não subscreveria uma afirmação destas:
“Eu gostaria muito de ver o diferencial a desaparecer, mas pelo lado do aumento do salário do privado”, como escreveu o André?
Eu julgo que toda a gente…
Bom seria é que nos fosse explicado como é que isso se faz, valendo nada ou muito pouco dizer que “para tal é necessária legislação mas também mudança das mentalidades canhestras dos empresários portugueses”.
Como é possível alguém, nos dias de hoje, defender que os salários do sector privado podem ser aumentados por decreto?
Que sentido faz acusar os empresários portugueses de canhestros (e muitos deles são) se é o sector privado quem tem que criar as mais valias para que os seus servidores recebam os seus salários e paguem os impostos necessários para manter as regalias dos funcionários públicos, regalias que não se esgotam na diferença de vencimentos, mas que passam por muitas outras benesses, especialmente pela garantia de emprego para toda a vida?
Antes de mais, mea culpa sem ironia: fui demagógico nessa frase. Não conheço soluções e expressei um desejo que qualquer pessoa provavelmente subscreveria (a não ser que se seja a favor do fim do sector público, como alguns libertários).
Eu não refiro o aumento dos salários do privado por decreto. Quando falo em legislação, é pelo lado do fim da burocracia que muitas vezes asfixia as empresas. Talvez também pelo lado de proteger os empreendedores que são asfixiados também pelo lado do financiamento, com os empréstimos bancários para iniciar um negócio a servirem de espada de Dâmocles presa por um fio mesmo muito fino…
Gostaria de deixar um comentário: os únicos “servidores” tanto no públcio como no privado são os funcionários do público (desde o varredor de ruas ao presidente da República) e são-no da população em geral (ou seja, inclusivamente deles mesmos). Os trabalhadores no privado não são servidores de ninguém: são empregados das suas empresas. Não as servem.
Em relação à garantia de emprego, seria bom ir ver a proporção de gente a recibos verdes. Verá que a garantia é menor que em qualquer momento do passado. É ainda superior? Claro. Se o empregador não pagar bem e não der condições, acabará a empregar apenas os piores trabalhadores. Algumas das regalias (não todas, bem entendido) até existirão porque sai ao estado mais barato oferecê-las que pagar salários mais elevados. O privado faz isso muitas vezes noutros países: oferecem por exemplo mais férias em troco de não aumentar salários.
A verdade é que o sector privado em Portugal é tão ou mais incompetente do aquilo que acusa o público de ser. Há bons sectores, mas poucos. Parte disto é estrutural, parte é relativo a mentalidades. E enquanto isto não for compreendido, passaremos muito tempo num jogo de passa culpas.
Há outro ponto que talvez seja relevante: o local de trabalho. Os trabalhadores públicos estão mais concentrados em Lisboa. Os trabalhadores privados estão sobremaneira no Norte e Centro do país. O custo de vida em Lisboa é marcadamente superior ao custo de vida no Norte. Os salários têm que ter em conta esta realidade.
Posso virar o argumento ao contrário caro Luís: o custo de vida em Lisboa é mais elevado em grande parte por causa do maior peso dos funcionários públicos que têm salários mais elevados. E etc e tal. Correlação, causalidade e tal. Sabe isto perfeitamente.
Neste caso penso que é um círculo vicioso. O custo de vida é mais elevado, os salários públicos aumentam, o que aumenta o custo de vida…
Você tem razão, João André, mas o argumento das qualificações também pode ser virado ao contrário: os trabalhadores públicos são mais qualificados academicamente porque sabem que, se o forem, o seu salário automaticamente subirá. Porque a função pública tem esta regra peculiar de que o salário de um trabalhador aumenta em função das qualificações académicas dele. Há muitos funcionários públicos que tiram graus académicos apenas como forma de fazer aumentar o seu salário.
Nem sabia que é assim, mas não tenho nada em princípio contra isso. Um grau académico, embora não possa ser um fim em si mesmo, normalmente demonstra que a pessoa é (geralmente) mais capaz de certas actividades que outras. Se esses aumentos salariais forem associados a verdadeiras avaliações de desempenho, então pode fazer sentido.
Note-se que estudar custa dinheiro e tempo. Mesmo dentro da lógica de “os funcionários públicos não fazem nada”, um curso não se tira do pé para a mão.
Tudo isto não invalida o que disse, mas não muda o sentido da causalidade: grau académico leva a maior salário. Pode ser usada em favor de um trabalhador, mas não muda o sentido da correlação.
E pronto tivemos o texto baseado no credencialismo e não na produtividade, criatividade e qualidade do trabalho. Um Aristocrata poderia dizer o mesmo.
Pura Nobiliárquia Educativa. Não se fez, criou nada mas já se acha com o direito aristocrata de ganhar bem mais que quem construiu, fez, etc…
E no fim ainda diz que o que se produz, se serve ou não, não interessa para nada, o que é preciso é legislação – ou seja Violência do Estado- para formatar a realidade à irrealidade da nossa vontade.
Haveria muito mais a dizer como a necessidade de preços no que o Estado faz. Na possibilidade de quem quiser concorrer com a maior parte das suas funções. Como os Funcionários Públicos nunca deveriam ter o privilégio de fazer a carreira toda no Estado.
E depois ainda dizem que estão com o Povo.
Caro lucky, um dia gostaria de tentar ver aquilo que se passa na sua cabeça. Deve haver ali algum curto circuito que é activado quando lê palavras como “estado”, “legislação” ou semelhantes.
Eu explico-lhe o que escrevi, porque está claro que não leu ou não percebeu ou quis ignorar. Aquilo que escrevi foi: «Há de facto uma enorme lacuna na legislação em Portugal que permita ao privado poder desenvolver-se(…)». Isto, para quem queira ler o assunto, percebe que eu defendo que é necessário dar espaço ao privado para se desenvolver, reconhecendo implicitamente que há aspectos da actual legislação que o impedem.
Ora, está claro que não vamos concordar na extensão necessária, mas até o lucky compreende que a legislação restritiva é removida através de legislação mais permissiva. Se eu tiver uma lei que diga “nao existirão empresas privadas” só a posso eliminar com outra que diga “a iniciativa privada é estimulada”. Isto é um exemplo, claro.
Espero que entenda agora. Em relação ao resto, é a algaraviada a que já nos habituou e que não faz quase qualquer sentido.