DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Gosto muito da noção de recomeço. A coisa talvez me venha da educação católica (“a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias”, escreveu Sophia) mas ficou para além dela. É por isso que aproveito todos os pretextos para ensaiar, ou legitimar, um recomeço. A passagem de ano é apenas um deles, e o menos original.»

 

Ana Lima: «Ontem de manhã, por ter de esperar a minha vez num consultório, dei por mim a ver um programa de televisão (vi agora numa pesquisa que se chama “Cartas da Maya – O Dilema”) no qual a taróloga Maya respondia às dúvidas de uma senhora que tinha ligado para o canal através de um número de telefone começado por 760. (…) Confesso que fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, por parte da tal senhora, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: “é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios”. E, pelos vistos, há várias “consultas” deste género por programa.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Portugal precisa de encontrar um rumo de justiça. E perceber que os sacrifícios não podem ser pedidos a todos igualmente. Este é um domínio onde a igualdade tem mesmo que ser substituída pela equidade.»

 

João Carvalho: «Os transportes podem ser como os cozinhados: uns são picantes, outros não…»

 

José António Abreu: «Como é que uma pessoa pode ser optimista se o ano da maior crise económica das últimas décadas, para além de ter menos feriados para todos e menos salário para alguns, taxas mais elevadas nos serviços públicos e bilhetes mais caros nos transportes públicos, ainda é bissexto?»

 

José Navarro de Andrade: «Até o comunismo do Império do Meio parece bem estranho ao nosso, tendo já sido capaz de trocar os olhos a Estaline, Brejnev, Durão Barroso (duas vezes) e George Bush. Acontecem coisas, por exemplo em Xangai, que os vizinhos coreanos nem sonham e os amigos cubanos sonham mas não pensam.»

 

Luís M. Jorge: «Chateia-me ver todos os dias o Crespo à conversa com uns senhores muito bons que esperam de mim uma vocação para o sacrifício enquanto acumulam prebendas ou aproveitam as vantagens da concorrência fiscal. É um problema que eu tenho: não gosto de ser espoliado por hipócritas.»

 

Luís Menezes Leitão: «Perante estas notícias que constantemente surgem, os diversos governantes da Europa limitam-se a fazer discursos apelando à mobilização dos cidadãos. A mim lembram-me aqueles que continuaram a tocar violino enquanto o Titanic se afundava.»

 

Teresa Ribeiro: «Nada como um estudo comparativo da UE para se perceber em que estão a destacar-se os lindinhos da troika.»

 

Eu: «”Crise? Que crise?”, perguntavam os Supertramp no título de um álbum muito escutado na década de 70. No Portugal dos nossos dias, ninguém precisa de perguntar se há crise: ela está hoje bem evidente, aos olhos de todos, mesmo daqueles que procuraram negá-la até ao último minuto. A palavra crise terá mesmo sido a mais pronunciada entre nós ao longo de 2011, sobretudo a partir do momento em que o anterior Governo, liderado por José Sócrates, solicitou assistência de emergência a um trio de entidades supranacionais: a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: “é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios”.

    Não vejo razão para ficar boquiaberta, pois tudo o que Maya disse é, em geral, verdade.

    É claro que há tratamentos mais sofisticados (e caros) para a dor nas costas, como a fisioterapia, e tratamentos mais brutais e adictivos, como a toma de opiáceos. Mas, em geral, os anti-inflamatórios são o tratamento da praxe.

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