A preciosa mão que promulga os decretos


Pedro Correia,

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Já quase ninguém se lembra, mas o Governo chegou a anunciar um “Dia da Libertação Total” da pandemia. Ocorreu no momento que mais lhe convinha em termos de oportunidade política: divulgado escassas semanas antes das eleições autárquicas para se concretizar logo a seguir.

É a maneira típica de António Costa exercer o múnus governativo: isto proporciona bons títulos matutinos, dá-lhe crédito imediato, rende votos ao PS no escrutínio mais próximo. Sempre a pensar na eleição que vem, com o instinto do político profissional que sempre foi. Das gerações seguintes outros tratarão. Aliás de pouco vale invocar futuras gerações num país que regista o pior saldo natural negativo desde 1918 – o terrível ano da batalha de La Lys e do início da gripe pneumónica.

O problema, entre nós, não é morrer-se muito: é nascer-se quase nada. De covid – ou com covid – vai-se morrendo, como de tantas outras causas, sempre silenciadas: só o coronavírus existe para efeitos noticiosos. Numa desproporção chocante face aos restantes tópicos da actualidade.

 

Vamos a números, da semana passada.

Na terça-feira, a SIC dedicou os 21 minutos iniciais do seu Jornal da Noite ao monotema covid. Na quarta, 22 minutos. Na quinta, um quarto de hora. Em qualquer dos casos, voltou ao assunto nestes blocos noticiosos, os principais de cada dia.

O Jornal da CNN Portugal de terça-feira começou («arrancou», como eles preferem dizer) com 31 minutos em torno da pandemia. No dia seguinte, 34 minutos. Na quinta, 28 minutos.

Quase sempre em tom alarmista. Na quarta, foi esta a frase de lançamento do telediário da CNNP: «Vacinação e testagem – os números da pandemia vão subir nos próximos dias.» E a da quinta-feira: «O número de infectados por covid pode chegar aos 18 mil novos casos por dia.»

 

É pena que os jornalistas abdiquem de fazer perguntas incómodas, talvez com receio que alguém lhes chame negacionistas – palavra da moda em 2021.

Se ainda ousassem questionar o poder político, recordariam as promessas feitas e jamais concretizadas sobre a «imunidade de grupo» que levaram o Governo a fechar centros de vacinação, enquanto dispensava o vice-almirante Gouveia e Melo da coordenação do combate à pandemia. O mesmo Governo que hoje nos exige testes obrigatórios para entrar em cinemas e restaurantes. Como se a vacina em dupla e tripla dose já não servisse para nada.

 

Da “libertação total” prometida para o final do Verão, sobra uma triste caricatura: a do primeiro-ministro a cumprimentar à moda antiga o Presidente da República no Palácio de Belém e logo a sacar do bolso um frasquinho para desinfectar a preciosa mão direita do Chefe do Estado. Preciosa por ser a que promulga as leis.

Não há qualquer “pedagogia sanitária” nesta pantomima, ocorrida a 23 de Dezembro: é simplesmente ridícula. E agrava os índices de fadiga pandémica, já tão elevados.

O medo e o pânico, induzidos pelo fluxo de notícias alarmistas consumidas em sessões contínuas, enfraquecem o nosso sistema imunitário. Costa e Marcelo, cada qual a seu modo, contribuem para isto também.

 

Texto publicado no semanário Novo

60 comentários em “A preciosa mão que promulga os decretos”

  1. Marcelo atirou-nos para a endemia por engano ou ignorância, mas do alto da sua inutilidade virou-se para virar a página para uma vida nova.
    Só se for sem esta sumidade que assinou o livro todo por baixo e foi sempre o sustentáculo da caduca vida velha.

    1. Marcelo atirou-nos para a endemia por engano ou ignorância, mas do alto da sua inutilidade virou-se para virar a página para uma vida nova.

      Exato. Em março do ano passado praticamente não havia infeções e Marcelo insistia que tínhamos que permanecer todos fechados em casa devido ao “rigor pascal” (nas palavras dele, para mim inolvidáveis).

      É um traste católico e um cúmplice de Costa. Não passa disso.

  2. Tudo isto, em termos de números, é uma fantochada — estranhamente apoiado por alguns auto-intitulados especialistas em estatística. Eu na fac fui razoavelmente mau a Estatística, mas até eu sei que não adianta nada dizer que há um ano havia 7000 novos casos e hoje há 27000 se não introduzem também como variável o nº de testes. É porque sem isso não há relação entre esses dois números a não ser a sua perfeita gratuitidade. Se na altura tivessem sido feitos 100000 testes por dia como fazem agora, sabemos lá quantos casos mais teriam aparecido.

    1. Tem muita razão, até parece que os jornalistas andam todos vendidos, o que se calhar até é verdade, tendo em conta os milhões que o governo anda a distribuir pela comunicação social em publicidade, às vezes sem qualquer sentido e utilidade.

    2. não adianta nada dizer que há um ano havia 7000 novos casos e hoje há 27000 se não introduzem também como variável o nº de testes

      Isso é verdade. Mas também é verdade que, introduzindo como variável o número de testes, nem assim se progrediria muito. O número de testes aumenta porque mais pessoas que não têm qualquer mal-estar ou sintomas se testam; nessas condições, é de esperar que menor percentagem de testes dê resultado positivo. Portanto, mesmo que atualmente menor percentagem de testes dê resultado positivo do que há um ano, isso não sognifica que a epidemia (de infeções) esteja menor, somente significa que há mais pessoas a testar-se sem terem boas razões para isso.

      1. O número de testes aumenta porque mais pessoas que não têm qualquer mal-estar ou sintomas se testam; nessas condições, é de esperar que menor percentagem de testes dê resultado positivo.

        Certo. E também não estou a dizer que a pandemia esteja menor. Mas também devemos ponderar que como a maioria dos infectados são assintomáticos a dinâmica seria pelo menos equivalente. O factor crucial aqui é o volume de testagem (sempre foi a variável central disto tudo) mais do que a condição ou a motivação, e os dados comparativos nacionais, aliás deviam ser dados exactamente assim:

        x infectados por cada milhar de testes

        e não x infectados por 100000 habitantes (como vieram aqui sumidades em estatística defender) que como se sabe não representa nada de concreto, além de que a maioria dos 300 e tal concelhos em Portugal não tem 100000 habitantes — o que se traduz em números alarmistas (do género 600/100K em Celorico de Basto que só tem 900 habitantes).

    3. Caro V. o Pedro Correia alude no seu post á falta de perguntas por parte dos jornalistas ao poder de turno, imagine lá se começassem a fazer perguntas difíceis.
      Obviamente que ninguém quer assumir nada, fazem uns decretos, dão umas intruções, muitas vezes (quiçá deliberadamente) confusas / contraditórias e esperam que tudo se resolva por magia.

      WW

      1. falta de perguntas por parte dos jornalistas ao poder de turno

        Eu diria que, em Portugal pelo menos, a profissão de jornalista é uma das que mais ameaçada está pela crescente robotização.
        De facto, aquilo que os jornalistas atualmente fazem, qualquer robô minimamente programado conseguiria fazer: ficar longas horas à espera que alguém preste declarações, depois segurar um microfone à frente da boca desse alguém, e fazer algumas perguntas simples e pré-programadas a esse alguém.
        Para fazer coisas tão simples, estereotipadas e pré-programáveis não é necessário um ser humano. Qualquer robô ou drone o conseguiria fazer, com substanciais poupanças.

        1. Aplique essa regra aos funcionários públicos e, aí sim, haverá “substanciais poupanças”. Não para os empresários da comunicação social mas para os contribuintes portugueses.

          1. Aplique essa regra aos funcionários públicos

            A quais, concretamente? Polícias? Investigadores científicos? Professores primários? Enfermeiros? Cirurgiões? Quais são os funcionários públicos que você pensa que podem facilmente ser substituídos por robots?

            A maior parte dos funcionários públicos trabalha no setor terciário, em face to face, em tarefas que só muito dificilmente são substituídas por robots.

          2. E os funcionáriios as funcionárias públicos(as) que estão em teletrabalho, mas passam grande parte do dia a passear o cão; e os que andam pelas repartições a coçar o cu pelas cadeiras; e os que marcam o ponto e vão de imediato tratar da sua vidinha. E muitos outros que o balio cohece, talvez mais do que eu, mas que quer esconder.

          3. Os mais inúteis são os que passam o tempo a comentar nos blogues e no messenger das redes sociais todos os dias, de segunda a sexta, das 9 às 17.

  3. mais 4 ‘anus’ à cabeça da manada que usa brincos em vez de chocalhos
    duvido que o país aguente tanta bazucada

    parede fac ciências Coimbra 52
    « fui fodido pela vida
    enrrabado pela sorte
    já tenho a língua da fora
    pra fazer minete à morte »

    quantos dirão o mesmo?

    1. Acho que é só com um r mas prontos. Coimbra precisa de mais gramática e de menos Super Bock (que é uma boa merda, por sinal).

  4. Tem toda a razão. O presidente Marcelo ainda se entende, pois, infelizmente para nós, é um hipocondríaco, mas as razões do Costa não são legítimas, uma vez que, como diz, são unicamente tomadas por táctica política.

  5. E a da quinta-feira: «O número de infectados por covid pode chegar aos 18 mil novos casos por dia.»

    Esta frase, se foi proferida na quinta feira passada, não foi nada alarmista: o número de novos infetados, na média dos sete dias anteriores, ultrapassou os 18 mil já ontem, domingo.

  6. enquanto dispensava o vice-almirante Gouveia e Melo da coordenação do combate à pandemia

    O vice-almirante somente coordenou a vacinação. Não coordenou o combate à pandemia.

    Se tivesse coordenado o combate, quiçá este teria corrido melhor. Pelo menos teria havido menos falhas de comunicação.

  7. O mesmo Governo que hoje nos exige testes obrigatórios para entrar em cinemas e restaurantes. Como se a vacina em dupla e tripla dose já não servisse para nada.

    A vacina serve para evitar doenças e mortes.

    Mas não serve para evitar infeções.

    Ora, a atual epidemia, em Portugal, é uma epidemia de infeções. Não é uma epidemia de doença, nem de morte. E contra a epidemia de infeções, as vacinas de pouco servem – como se está a ver todos os dias pelos números de novos infetados.

    1. Balio, deixe-se de tretas com essa de “A vacina serve para evitar doenças e mortes”. Você anda mal acompanhado se escutar o Costa e o Marcelo. São eles as pomposas autoridades de saúde que este país tem. Se pelo figurino na montra estamos onde estamos, imagine o armazém de “autoridades e cientistas” que os vestem.

  8. Não há qualquer “pedagogia sanitária” nesta pantomima, ocorrida a 23 de Dezembro: é simplesmente ridícula.

    Não é nada ridícula. É pedagogia: para evitarem ser infetadas, as pessoas devem (entre outras coisas) desinfetar as mãos. Isto tanto era verdade (ou tanto era falso) há um ano como é atualmente. O facto de as pessoas estarem vacinadas não as impede de se infetarem e de serem forçadas a estar em quarentena.

  9. Os 3 jarrões da foto parecem ser os mais fofinhos da nação. O primeiro jarrão da esquerda – na primeira foto – optou por capacete ao invés da máscara. E observa os outros dois a untarem as mãos com creme escorregadio.

    Quanto à SIC, parece que li que teria sido levado a efeito um “grande atentado à liberdade de imprensa” nos sites. Porém o que a investigação até agora me levou a concluir é que se trata de um simples assalto. Há jornalistas que exageram bué.

  10. “enquanto dispensava o vice-almirante Gouveia e Melo da coordenação do combate à pandemia.”

    O Vice coordenava o processo de vacinação, que é uma parte do combate à pandemia. A coordenação do combate é feita pelo Governo. Aliás, o processo de vacinação é técnico, o combate à pandemia é não só técnico mas também político. Há países que, nas palavras dos governantes, não querem saber de taxas de infecção e Rt, gerem o combate à pandemia exclusivamente pelos números de internamentos no seu sistema de saúde. Até pode estar 100% da população infectada, desde que haja camas livres, segue a vida. Pode estar um 1% da população infectada, se têm 100% de ocupação de camas, implementam medidas de restrição.

    1. Não percebi a sua posição.
      Vem aqui dar uma patada no vice-almirante esquecendo que antes dele reinava o caos.
      Nessa altura, Portugal era apontado a dedo pelos piores motivos.
      Depois dele, passou a ser apontado a dedo também. Mas pelos melhores motivos.

      Antes dele, o coordenador era um militante socialista. Que nada percebia daquilo, como se viu.
      Depois dele, Portugal tornou-se referência no combate à pandemia
      Como se viu também.

      Vocês gostariam que ele fosse militante do PS.
      Azarinho: não é.
      Mas algum mérito deve ter. Daí Costa tê-lo promovido a chefe do Estado Maior da Armada – e ao posto de almirante, por inerência.

      1. Patada?
        Vocês? Vocês, quem?
        Se não percebeu a posição, peça para esclarecer. Tente evitar essas infantilidades do “queres é o Passos de volta” que tanto critica.
        O Vice não coordenou combate nenhum, coordenou (com competência) o processo de vacinação. Foi para isso que foi “contratado”, cumpriu. O combate à pandemia, que Você (e nao vocês) tanto aqui critica vai para lá dele, e o seu sucesso ou insucesso não lhe pode ser imputado. Se interpreta isso como patada, só lhe posso pedir para abrir um bocadinho a mente para lá do preto e branco do prós e contras.

  11. – Senhor presidente trago aqui uma coisinha que vai gostar.
    – Então o que é amigo Costa?
    – Prove lá aqui uma pinguinha, esta veio directamente do Ganges.
    – Sério não me diga que é um produto lá da sua terra?
    – É verdade, só o álcool e o frasco é que são da China mas a porcaria é a mesma.

  12. Certeiro. Parece que o secretário de Saúde de Israel já prevê após a 4ª dose a imunidade de grupo do rebanho.

      1. Sr. Pedro Correia
        Informo-o que nada tenho a ver com o omnipresente nos blogues BALIO.
        Leio e comento apenas em 5 ou 6 blogues.
        Tenho personalidade própria.
        Vi-o uma vez na TV e aprecio a sua escrita e de alguns opinadores do Delito.
        V.Exa. pode não gostar do que escrevo. São os meus solitários desabafos de quem já galgou umas boas dezenas de anos.
        Cumps.

  13. (Ou)vi hoje 2 putativos candidatos ao Parlamento discutirem durante meia hora a quantidade de migalhas a distribuir, por entre insultos e acusações. Os próximos 4 anos vão ser de reformas e crescimento, está visto.

  14. Com excepção da mensagem de Ano Novo (Janeiro, Março, Inverno), a redacção é sempre em acordês.
    Abençoado CDS que promete reverter o AO90…

          1. Obrigado, caro Pedro.
            Não podemos deixar que nos destruam a língua…

          2. Não esperava outra coisa.
            No jornal “Cidade de Tomar”, mensalmente “disparo” contra o AO90, com uma coluna de nome “Em Defesa da Ortografia”. A página de Facebook dos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 tem divulgado esses escritos.

          3. Muito obrigado!
            Agradeço que me dê a sua opinião.
            Aproveito para lhe dizer que apreciei o seu livro sobre o AO, que comprei há alguns anos. Também louvo o seu trabalho de denúncia do linguicídio.

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