DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Uma casa vazia não me desafia. Fecho a porta sem sequer perder tempo a imaginar o que poderia fazer com e naquele espaço. O mesmo se passa com uma página em branco. Se a encontro em branco, em branco fica sem que me ocorra qualquer coisa de consistente para a preencher. Mas tudo muda se naquela casa, ou naquela página, existirem vestígios de ocupação. Um candeeiro ou um primeiro parágrafo podem, esses sim, convocar-me ao desafio.»

 

Ana Vidal: «Desde As Horas que um filme não me perturbava tão profundamente como Melancholia. (…) Mas não foi só a perfeição, técnica e estética (que raramente me chegam para gostar de um filme), o que mais me impressionou no último filme de Lars von Trier. Nem sequer a história propriamente dita, por muito desafiante que seja o mote: a iminência do fim do mundo pelo choque de um planeta com a Terra. No entanto, o que primeiro nos arrebata e nos agarra logo, sem remédio, é um pouco de tudo isto: dez longos minutos de uma beleza arrasadora numa sequência de quadros em câmara lenta, ainda incompreensíveis mas já muito inquietantes, que nos são oferecidos ao som do prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner. A densidade dramática da música, tão bela quanto terrível, é magistralmente aproveitada pelas imagens, num crescendo de tensão e angústia que prenunciam uma hora e meia de inescapável prisão.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Os homens do 2.º Modernismo, os da geração da Presença, sempre me pareceram umas figuras sisudas e ensimesmadas. Nada de mal nisso, eu até gosto de gente ensimesmada, que fique claro. Talvez o propósito quase folião de épater le bourgeois tivesse terminado com os poetas do Orfeu e os tempos fossem, então, de outras gravidades.»

 

João Carvalho: «Alimentar a existência de municípios marcadamente rurais (ainda subdivididos em freguesias) onde o tecido populacional não atinge os números de qualquer freguesia urbana média é sobrevalorizar a divisão administrativa que temos, irracional há muito tempo (para não dizer que é irracional desde Mouzinho da Silveira). A menos que se queira defender uma reforma de sinal contrário: rever apenas a malha urbana, como [António José] Seguro sugere, seria fazer crescer os órgãos autárquicos.»

 

José Maria Gui Pimentel: «É muito engraçado deambular por uma cidade chinesa, pelas ruas, pelos jardins, pelas lojas, e observar o comportamento dos nativos (exceptuando o daqueles que não estão a olhar para nós embasbacados, retribuindo o nosso espanto a observá-los). Uma das experiências mais desesperantes, mas, ao mesmo tempo, divertida é tentar encontrar quem fale inglês.»

 

Laura Ramos: «Há 31 anos estava eu numa certa sede de campanha, a cobrir a hora de jantar. Este era o frete reservado aos novatos líricos e não numerários. Quando a bomba rebentou, não acreditei, evidentemente. Precisei de atravessar a rua para entrar num café apinhado de gente desconhecida mas igualmente incrédula, de olhos cravados na televisão. E ouvir em directo a absurda notícia. No ar, por todo o lado, a mesma sentença terrível: «Mataram-no». «Mataram-nos», diziam os cautelosos em murmúrios e os temerários em exaltações. Numa mesa falava-se de Sidónio Pais: as memórias de um déjà vu nacional que nada me dizia. Hoje é quase impossível transmitir a brutal violência do choque que sentimos.»

 

Leonor Barros: «No tempo do Sócrates era comum que ele saísse pelos fundos, evitasse o confronto e, a partir de certa altura, acusasse terceiros pelas vaias e os apupos com que foi brindado ao longo do tempo de governação. Ido o tempo do Sócrates julgou-se que se teriam ido as desculpas esfarrapadas para admitir o óbvio: não há governação sem contestação a menos que se viva num desses regimes musculados que tanto respeitam as liberdades de cada um. Ao que parece, esse tempo voltou. Ser contestado não é o fim do mundo, senhores governantes.»

 

Rui Rocha: «Portugal  tem mais de 4.200 freguesias. Não é a redundância, o excesso e a fragmentação para lá do razoável dos poderes e dos recursos que defende o poder local. O que esteve em causa foi, por isso, a defesa do interesse pessoal de cada um dos que vaiaram. Miguel Relvas esteve ontem no papel de árbitro que marca uma grande penalidade contra a equipa da casa. A bancada revoltou-se. Mas, vistas as imagens em câmara lenta, conclui-se que o castigo máximo foi bem assinalado.»

 

Teresa Ribeiro: «Pelo som que lhe chegou aos ouvidos ainda entorpecidos pelo sono, percebeu que o gato estava mais uma vez no cimo do móvel, a ameaçar as suas estatuetas da Indonésia. Estupor! – chispa ao levantar-se do sofá direita a ele. O bicho baixa o dorso em atitude defensiva e imobiliza-se fitando-a fixamente. Sai daí! – grita-lhe. Ele não se mexe. Tentar agarrá-lo não é opção, pois na precipitação da fuga poderia derrubar uma das peças.»

 

Eu: «Houve uma época em que se tornou politicamente correcto proclamar que ninguém tinha heróis. Destacar uma individualidade no meio da massa informe era um luxo burguês, um pecado burguês: o que interessava então era “o colectivo”. Felizmente esses tempos foram passando com o virar das modas e o indivíduo dotado de talento singular, irrepetível, insubstituível, recuperou o lugar que lhe é devido nas páginas da História.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. “EU”
    Vivemos nos tempos do egoísmo do eu que ultrapassam tudo e todos e custe o que custar nesta sociedade de consumo desenfreado

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