DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Há várias formas de democracia. Todas têm vantagens e desvantagens, nenhuma é mais ou menos democrática. Eu, pessoalmente, prefiro a forma representativa, em que delegamos o poder soberano nos nossos representantes, eleitos directamente. Há quem prefira a via mais directa, dos referendos e plebiscitos. Agora, resta assumir as consequências dessa busca da vontade popular permanente.»

 

Ana Lima: «Diz-nos a mitologia (grega, pois claro!) que, após ter sido raptada por Zeus, Europa nunca mais foi encontrada pela sua família, que a procurou por todo o continente. O rei, seu pai, gritou por ela, desesperado, mas Europa não apareceu.»

 

Fernando Sousa: «Entre o fim da adolescência e os primeiros anos da idade adulta há um período, enfim, estranho em que pensar não é propriamente uma prioridade. Foi assim que um fim de tarde, abrasado, no regresso de um passeata a Nacala, eu e mais quatro camaradas decidimos dar um mergulho na Praia das Chocas.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Se Flaubert dizia: “Madame Bovary c’est moi”, nada me impede de dizer: “Cada livro que leio sou eu.”»

 

João Carvalho: «Chamar ao congresso da ASJP “congresso dos juízes” ou aproveitar esse palco para falar “em nome dos juízes”, como se viu, é (foi) não só abusivo como muito inesperado. A bem da democracia, nada melhor do que deixar tudo muito claro — mais ainda no seio do poder judicial e de órgãos de soberania.»

 

José António Abreu: «A confiança acabou. E não acabou por culpa dos estivadores holandeses nem dos políticos alemães. Acabou porque, ao longo dos últimos quinze ou vinte anos, os gregos não fizeram por merecê-la. Nem nós.»

 

Luís M. Jorge: «Há dois anos — dois — que a crise da dívida grega ameaça a Europa. E as instituições europeias tinham dois caminhos para a enfrentar: ou pagavam ou saíam. Em vez disso resolveram pagar um bocadinho, em condições que tornam o ressarcimento impossível, enquanto os burocratas alemães dissertavam sobre a ausência de virtude dos atenienses. Não há coisa pior do que a incompetência aliada ao moralismo.»

 

Luís Menezes Leitão: «O referendo grego constitui uma jogada política brilhante de Georgios Papandreou, que já deve estar completamente farto da prepotência dos seus “parceiros” europeus, que insistem em sangrar os gregos até à última gota, sempre que é necessário libertar mais uma tranche da “ajuda” externa. As últimas condições estabelecidas nessa “ajuda” são absolutamente humilhantes para qualquer povo, passando a Grécia a ser um país ocupado em permanência pela troika, e perdendo de vez o estatuto de Estado soberano. Ora, Papandreou já tinha avisado que os gregos são um povo orgulhoso e nobre e não permitiriam com facilidade semelhante tratamento.»

 

Rui Rocha: «E o que diriam todos aqueles que se entusiasmam com a jogada política brilhante de Papandreou e com os benefícios da democracia directa e de devolver ao povo grego a decisão sobre o resgate se, tomemos uma hipótese meramente académica, Merkel tivesse decidido convocar um referendo para ouvir a opinião dos alemães sobre o bailout da Grécia?»

 

Eu: «A Grécia entrou na CEE em 1981 sem convocar qualquer referendo. Aprovou os tratados de Maastricht, Amesterdão, Nice e Lisboa sem auscultar o eleitorado. Agora, à beira do caos político e social, o primeiro-ministro lembra-se enfim de pedir ao povo grego para escolher entre a desgraça e a miséria: uma decisão que conjuga o cúmulo do cinismo com o cúmulo da irresponsabilidade. O plebiscito não resolve um só problema da Grécia e pode agravá-los todos, mergulhando a banca e a bolsa num caos global, de consequências imprevisíveis.»

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