
Laura Ramos: «Os tempos não estão para palmas ensaiadas (foi com elas que chegámos aqui, ao Cabo das Tormentas em que estamos, numa espécie de caravela timonada por um Vasco da Gama alucinado).»
Leonor Barros: «E hoje apetece-me biscoitos. Chegar à cozinha e o pôr em prática as inúmeras receitas de biscoitos que me entretive a recolher. Chegar à cozinha e entregar-me sem culpas à indulgência de algo tão simples mas sempre tão alquímico, tão acolhedoramente intimo, tão primitivo e feminino, essa coisa de amar alimentando, nutrindo, envolvendo com beijos de açúcar e nuvens perfumadas que pairam invisíveis como um manto pela casa, reminiscência de memórias gratas de infâncias longínquas.»
Teresa Ribeiro: «Deixem-me ver se percebi: em vez de se preocuparem em governar bem, estes rapazes andam a brincar aos cóbois? Quer dizer que quando aparecem na televisão em pose de Estado, a debitar palavras sérias em tom gravíssimo sobre a crise e o futuro do país, é tudo a armar?»
Eu: «Este é o melhor lado da crise: aquele que incentiva o regresso ao engenho de cada um para dar a volta à sorte, para dar a volta à vida. Mas há o pior. Aumenta o número de pessoas a pedir esmola envergonhada nas ruas – gente sem trabalho, que deixou de conseguir pagar a prestação da casa, gente que devido a uma doença ou um divórcio viu tudo tornar-se de repente ainda mais difícil e caminha sem destino, implorando “alguma coisinha” para uma malga de sopa.»
