DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «A moção de censura do Bloco de Esquerda não foi surpresa para ninguém. Incapaz, ao contrário do PCP, de votar favoravelmente uma qualquer moção vinda do PSD ou do CDS, o Bloco tinha rapidamente de encontrar o pretexto para sair do jogo das moções de censura sem aparecer como apoiante do PS. Para isso, nada melhor do que apresentar, o mais rapidamente possível, um texto inenarrável para garantir que nem PSD nem CDS votem favoravelmente a moção bloquista, que aliás vem num tempo pouco adequado. Quando, e se, chegar a hora da direita, o Bloco terá já saído do jogo. Se há coisa que o Bloco não quer são eleições. No entanto, que pena, o Bloco não é preciso para fazer aprovar uma moção de censura.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Como eu não percebo nada disto, aqui vai um académico independente, sobre um país com sensivelmente a mesma população que Portugal, o mesmo sistema de governo (é semipresidencial, premier-presidential para os mais exigentes). O PIB per capita varia um bocadinho (Áustria, 43.723 dólares/ habitante; Portugal 21.030 dólares/habitante, dados do FMI 2010). Há países que adequam a burocracia e staff à situação económica. E que põem limites ao enxame de assessores. Não são piores por isso. E não, não se trata de impor limites orçamentais à democracia. Chama-se bom senso.»

 

Ana Vidal: «Meu caro, deixe-se disso! O amor é mesmo o que parece: hoje assim, amanhã assado. O de ontem, quase sempre cru. Mas com o sabor intacto do que poderia ter sido, se fosse de hoje. Ou, melhor ainda, de amanhã. Olhe, não se atormente a procurar razões para o que a razão nunca conheceu. O amor não é razão, mas cada amor tem sempre razão, a razão toda de uma vez. Nem menos. E se é paixão, o amor não se pode analisar se não depois de morto. Só em autópsia. Porque enquanto ele está vivo, meu pobre amigo, você nem pode respirar, quanto mais raciocinar! Por isso, não se canse. Por mais que pense, por mais que se concentre, nunca lhe encontrará lógica ou rumo definido.»

 

Fernando Sousa: «O Facebook devolveu esta manhã à chilena Leslie Power a conta que lhe cancelou por ter publicado uma foto a amamentar o filho. O escândalo foi tão grande, que a empresa de Alto Palo não teve outro remédio senão emendar a mão. Mas como se pode ler na carta que mandou à lesada, a rede social, ancorada na leitura que faz da sua Declaração de Direitos e Responsabilidades, insiste na aberração e pede à dona da conta que “não publique fotos que incluam nus, gráficos ou outros conteúdos sexuais”. Isto é mesmo, mesmo doentio. Não dá para acreditar.»

 

Helder Robalo: «Ambicionamos por um futuro melhor e nem reparamos, ou fingimos não reparar, que nos estão a roubar o presente. Aplaudimos o aumento da escolaridade, lamentamos a subida do preço da gasolina e fingimos não reparar que a cada ano ganhamos menos. Queremos uma revolução, mas esquecemos que ela tem de começar em cada um de nós, que não podemos ficar à espera que outros a façam. Os outros que a façam que eu agora não posso. Cantem os Deolinda odes ao “mundo parvo onde para se ser escravo é preciso estudar”. Povo de doutores. E de engenheiros. Povo de mansos que tem medo de lutar.»

 

João Campos: «A diferença fundamental entre uma organização como os Anonymous e uma organização criminosa convencional é que os Anonymous, para todos os efeitos, não são uma organização, na medida em que 1) não aparentam ter uma liderança, ou, pelo menos, não parece que a liderança seja determinante para as acções do grupo; 2) os seus membros não são identificados, nem entre si, e 3) sendo um grupo aberto – qualquer pessoa pode entrar nos messageboards, ou mesmo nas salas de IRC e falar com eles, ou mesmo participar em algumas actividades -, a sua dimensão é volátil, dependendo da circunstância.»

 

Rui Rocha: «É lamentável, mas o papel do actual primeiro-ministro de Portugal é o de um jogral. Depois de nos conduzir às imediações do abismo, Sócrates tenta animar os serões com números. Ontem, apresentou os do fuzilamento fiscal. Entretanto, os juros da dívida vão alternando entre o altíssimo e o insuportável. ‘Boas notícias’ berra, entre gargalhadas do público incrédulo, o tunante. Ao mesmo tempo, paga-se o bilhete da pantomina: cortes nos salários, enxurrada fiscal e inflação de 3,6% em Janeiro. Diz-se que não há tragédia sem comédia. O momento burlesco é assegurado por Sócrates. A parte dramática discute-se no centro da Europa. Em 11 de Março, os líderes europeus vão reunir-se para apreciar o novo modelo de governo económico. Existe um debate sério a propósito deste assunto que vai desde o método (ultrapassagem dos mecanismos institucionais e da competência da Comissão Europeia) ao conteúdo (as medidas propostas são adequadas aos objectivos?). Esta é uma discussão em que Portugal não vai participar. O primeiro-ministro (e com ele o país) está colocado na posição do jogador calaceiro que o treinador afastou da convocatória para o jogo decisivo.»

 

Teresa Ribeiro: «Não se tivesse ela esquecido de fechar a janela e tudo seria diferente. Tê-la-iam levado, aliviada, de um túmulo para o outro, passados poucos dias, sem constrangimentos. Os sobrinhos – parece que eram cinco – reclamariam, enfim, os seus despojos. A vizinhança meditaria, por uns instantes, na tristeza que é ser-se velho e sozinho e tudo voltaria à santa paz do Senhor. O cão, a única pessoa que a amava, seria liberto ou talvez, por uma questão de higiene urbana, fosse eutanasiado no canil municipal. Mas um dos problemas dos velhos é que se esquecem de tudo. Um bico de gás, uma vela tombada, uma janela aberta e pode ser um transtorno para a comunidade. Eu, por exemplo, fiquei muito chocada quando li aquela notícia no jornal. Até dormi mal.»

 

Eu: «Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto – ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.»

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