DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Ana Vidal: «Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida, toda ela, para que não nos esqueçamos de nenhuma das suas etapas. Que começam com uma aurora magnífica, uma verdadeira explosão de vida, e acabam num suicídio colectivo de estrelas desesperadas, como anjos caídos em desgraça. Pelo meio, uma tarde em que a morte nos reclama, lembrando-nos de que até os nossos sonhos lhe pertencem. Que só os temos de empréstimo. A prazo. Há dias assim. Em que a terra treme e se revolta sob os nossos pés. Em que nada, nem ninguém, pode preencher os interstícios da nossa solidão.»

 

João Campos: «Os White Stripes colocaram um ponto final na sua carreira. É pena: da banda de Jack e Meg White saíram algumas das grandes músicas da década que passou. Aliás, diria mesmo que o single “Seven Nation Army”, não sendo a melhor, foi a música mais memorável dos anos zero. Actuaram em Portugal uma única vez, em 2007, na primeira edição do festival Oeiras Alive – e foi um dos melhores concertos que tive a oportunidade de ver. Enfim, acabaram; para trás ficam seis álbuns recheados de algum do melhor rock que se fez nos últimos anos.»

 

João Carvalho: «Jorge Lacão não é um político especialmente simpático no tom das suas habituais intervenções, mas sempre tem a pasta dos Assuntos Parlamentares no actual governo. Era natural, por isso, que a sua proposta para futura redução do número de deputados fizesse parar para pensar os seus pares. Mas não: Francisco Assis recusou que o PS lhe desse atenção e já deu o caso por encerrado. O encontro que Lacão quer ter com o PSD sobre o assunto é, portanto, uma iniciativa sem qualquer significado que não seja afrontar os seus pares. Ele lá saberá porquê. Para os portugueses, fica a dúvida: entre os limites mínimo e máximo possível de deputados, mesmo com o país falido e com o saque institucional ao trabalho dos cidadãos, há algum motivo para o Parlamento continuar a ter o número máximo de deputados que a Constituição permite?»

 

Ricardo Vicente: «Perguntem às pessoas por desemprego, impostos e custo de vida: o desinteresse e o alheamento evaporam-se imediatamente. Os que decidem as agendas e as hierarquias dos debates optam amiúde por assuntos minoritários ou de pouco relevo para o quotidiano da maioria. E esta, não bastando já ter os seus problemas e as suas prioridades, acaba ainda por ser apelidada de pouco moderna e civilizada ou é mesmo acusada de fraca sofisticação mental – tudo porque se desinteressa dos temas preferidos pelas elites do pensamento. Não é justo que da desarmonia de interesses entre representantes e opinadores, por um lado, e as pessoas em geral, por outro, resultem aquelas acusações.»

 

Rui Rocha: «Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade.»

 

Teresa Ribeiro: «Se quisesse, o ambiente entre os dois mudava – pensou entre o apático e o divertido. Bastaria puxar outro tema de conversa para passarem do clima mais agreste à harmonia. Com a ponta do seu gume de três sílabas seria até possível restaurar a paixão e fazer o carrocel girar de novo, por entre abraços e suspiros. Mas no momento seguinte um arrepio de silêncio poderia instalar o desconforto outra vez e o elan desabaria à medida que fosse esfriando a sua voz, desfocando o olhar, para depois, in extremis, se desejasse, recuperá-lo com um beijo inesperado, uma promessa ou uma piada. Ah, o amor. Tão poderoso e tão plástico. Bastaria uma palavra sua, um instante de dúvida e o clima entre os dois mudaria.»

 

Eu: «No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do “marxismo” numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o “caos” em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a “firmeza” da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.»

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *