
Ana Vidal: «Lá fui votar, que remédio. Por muita vontade que tenha sempre de render-me à sabedoria do Pessoa, ainda não consegui livrar-me do mui burguês sentimento de culpa quando não cumpro um dever (lá chegarei um dia, espero, ando a trabalhar nisso com o meu analista). Dizia eu, então, que lá fui votar. A Lisboa, ainda por cima, porque é lá que voto ainda apesar de já não viver na capital. Pois, mas não votei. Cheguei ao Palácio da Justiça e estranhei a confusão generalizada no enorme hall de entrada: longas filas de pessoas, impacientes e desorientadas, de cartão na mão à procura da sua secção de voto. Não esperava encontrar tanta gente numas eleições em que se previa um record de abstenção, e muito menos esperava dar de caras com aquela confusão. E logo eu, que tinha deixado o meu cartão de eleitor em casa.»
Bandeira: «Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.»
Fernando Sousa: «O senhor Manuel e a senhora Manuela, reformados, donos de uma antiga mercearia, vivem sozinhos na moradia em frente. Não recebem, em regra, visitas de ninguém; só uma vez ou outra, mas sempre, sempre de quatro em quatro anos ou noutras datas eleitorais. Hoje a casa deles encheu-se de filhos, filhas, noras e noros, todos vieram votar. De dentro – sente quem passa à porta -, vem um muito agradável aroma de cozido à portuguesa, outra forma de amar Portugal. Acabam de sair, em grupo, sorridentes e vestidos a rigor. Vão na direcção das suas secções de voto. Vão cumprir um direito, que entretanto passou a dever e que ameaça tornar-se uma obrigação. Mas isso pouco importa, porque pelo menos hoje a família está junta. Amanhã voltarão mais tranquilos às suas solidões.»
João Campos: «É impressão minha ou quando José Sócrates disse que “os portugueses optaram pela estabilidade” (cito de memória) conseguiu enxovalhar ainda mais um bocadinho Manuel Alegre?»
João Carvalho: «Já cá faltava a asneirola da Lusa, não é? «As urnas para as eleições presidenciais abriram hoje às 08h00 em Portugal Continental e na Madeira, encerrando às 19h00.» Certo. «Nos Açores, as urnas abrem e encerram uma hora mais tarde devido à diferença horária». Errado. Nos Açores, como toda a gente sabe, as urnas também abrem às 8 horas e encerram às 19. Os jornalistas da Lusa nos Açores também podiam escrever que “as urnas para as eleições presidenciais abriram hoje às 8 horas nos Açores, encerrando às 19”.»
Rui Rocha: «A situação dos eleitores com cartão de cidadão que tiveram dificuldades em aceder ao número de recenseamento (ou que não conseguiram mesmo fazê-lo) constitui um marco vergonhoso neste processo eleitoral. Muitos de nós constataram a desistência de outros eleitores. Pelo que vi, tenho a certeza que estaremos a falar de milhares de eleitores em todo o país que, tendo-se deslocado ao local da votação, acabaram por abandoná-lo sem exercerem o direito de voto.»
Sérgio de Almeida Correia: «Cavaco Silva– Foi reeleito Presidente da República. Venceu as eleições sem grande esforço e nenhuma glória. Sai reforçado enquanto Presidente da República e vê a sua legitimidade fortalecida. Fragilizado pelo facto de não ter conseguido alargar a sua base de apoio, de não ter sido capaz de mobilizar a abstenção, de não ter trazido nada de novo. Uma coisa é copiar Fangio ou Nuvolari, vencer à Prost ou aprender com Senna. Outra é ficar na história como um Raymond Sommer que ninguém sabe quem é, o que ganhou, nem quando. De qualquer modo venceu, merece os parabéns.»
Teresa Ribeiro: «O movimento pouco habitual em torno da escola, a um domingo, lembra-lhe outras eleições em que participara com um entusiasmo que agora lhe parecia pueril. Sai do carro e caminha contra o vento gelado, já com o pensamento longe dali. Na assembleia de voto meia dúzia de gatos. Estás a ver?, comenta com uma satisfação rancorosa, quase ninguém. Na cabine pega na caneta e olha para eles, de má vontade. Hesita. Já que se deu ao trabalho vai escolher.»
Eu: «José Sócrates – Surgiu duas vezes em palco, nos comícios de Manuel Alegre, apelando ao voto no candidato que o PS apoiou oficialmente. E viu um dos seus principais ministros, Augusto Santos Silva, protagonizar as habituais declarações dignas de elefante em loja de porcelana. Verá a coabitação com Belém ainda mais difícil daqui por diante num momento em que é cada vez mais patente o seu divórcio com os portugueses – incluindo largos milhares de eleitores socialistas, que ostensivamente rejeitaram a sua recomendação de voto. Confirma-se: é incapaz de acertar numa estratégia presidencial.»
