DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Aqueles que durante meses se recusaram a prestar atenção às amizades de Sócrates, à omnipresença de Armando Vara e aos assuntos e negócios privados do PM são agora os mesmos que se dedicam a analisar as amizades de Cavaco, a desconfiar da omnipresença de Oliveira e Costa e a encontrar relevância nos negócios privados do PR.»

 

Ana Margarida Craveiro: «É esta a história do agora morto Metro-Mondego, que ninguém pediu. Havia estudos a comprovar a utilização da linha, a sua rentabilidade. Em vez de optar por uma simples requalificação, os decisores políticos optaram por uma mudança radical, transformando a automotora em metro de superfície. De novo, ninguém o pediu. Foi mais uma vez a loucura despesista, a fúria do progresso. Tudo o que as populações queriam era a continuação do serviço normal de comboios. Nem mais, nem menos. As grandes teorias sobre ferrovias, economias da ruralidade e afins são muito engraçadas, mas não têm rigorosamente nada a ver com o que está em debate. São bitaites de quem não faz a menor ideia do que está a falar.»

 

Fernando Sousa: «Devia ter lido o III Reich, de Bolaño, há mais tempo. Se o tivesse feito, em lugar do Nocturno Chileno, e outros, teria celebrado ainda mais o 2666, uma obra extraordinária, uma obra ímpar, uma obra de vida, do melhor que já li. Isto para dizer que, apesar de tudo, não encontrei na narrativa a “sinfonia de literatura” com que se anunciou na Póvoa do Varzim. Pode ser uma questão de ouvido. Mas como Estrela Distante não eriçou também alguém em quem confio, em princípio estou perdoado. Passar-lhe os olhos vale de qualquer modo a pena.»

 

João Campos: «A CP acabou com a ligação de Intercidades entre Lisboa e Beja. Ao que parece, a ligação ferroviária entre a capital e aquela cidade alentejana deverá ser feita no Intercidades Lisboa-Évora, até Casa Branca (quando este comboio retomar a circulação, actualmente interrompida por obras na linha), e depois um regional – uma automotora vintage, se me permitem o eufemismo – até Beja. Enquanto as obras não estão concluídas, quem quiser ir de Lisboa a Beja de comboio terá de apanhar um Intercidades até à Funcheira (para quem não sabe, a Funcheira é apenas uma estação, literalmente – não tem mais nada), e depois o Regional até Beja, num percurso que demora mais de três horas. Porreiro, pá.»

 

João Carvalho: «Consta por aí que o ministro Mendonça encontrou um mini-TGV e anda a ensaiá-lo. Parece que serve como uma luva para o arrojado projecto da nova linha Coimbra-Lousã. Com terminal no Portugal dos Pequenitos.»

 

Luís M. Jorge: «Trinta anos depois da morte de Sá Carneiro, o mais frontal e aristocrático dos homens, o que nos resta da direita portuguesa?»

 

Rui Rocha: «Manuel Alegre é homem de palavras. Aqui, ali e em todo o lado. Sempre as palavras. Em defesa do hemisfério norte e do seu contrário. Sendo que para Alegre este não fica no hemisfério sul, mas a sul de qualquer hemisfério. Mais ainda quando o substrato partidário de apoio da candidatura não tem o mais mínimo denominador comum. A operação matemática típica da campanha de Alegre é a divisão. O resultado é o lugar comum. O resto é zero. Nestas circunstâncias, o discurso é sempre Alegrórico. E aí temos a ideia de Esquerda. Tão vasta que acolhe Sócrates e Louçã. E outros acolheria se eles quisessem. Onde cabe um Estado Social do tamanho do coração de um Romeu apaixonado. Mas onde  também cabe o Orçamento do Estado para 2011.»

 

Vasco Campilho: «Vista como um todo, a União Europeia tem uma situação económica e financeira invejável. Maior mercado interno do mundo. Maior exportador do mundo. Balança de pagamentos da zona euro excedentária. Dívida pública inferior à dos EUA ou do Japão. Porque se fala então de crise do euro, e não do dólar ou do iene? Simples: a Europa não é um todo, nem os mercados a vêem como tal. A UE lembra aquelas equipas em que todos os jogadores querem ir à área adversária marcar um golo. Quando se está a ganhar por cinco a zero, ninguém leva a mal a sofreguidão do avançado. Mas quando se está a perder dois um, é vital saber jogar em equipa.»

 

Eu: «Num país onde os direitos dos cidadãos são espezinhados diariamente, onde muitas garantias constitucionais (com destaque para o direito ao trabalho) não passam de letra morta e onde as liberdades – nomeadamente no plano económico e social – estão sob ameaça permanente, há um candidato presidencial que tem como uma das suas principais bandeiras (a outra é a regionalização) a defesa dos direitos dos animais. Dir-se-ia que é um candidato fora do sistema, alguém apostado em tornar visível uma causa específica por falta de outro meio de acesso a uma tribuna pública. Nada disso: este paladino dos animais, Defensor Moura, é deputado do PS – o partido do poder – e co-responsável, através do seu voto no Parlamento, pelo Orçamento do Estado para 2011 – o mais restritivo e penalizador de que há memória num quarto de século em Portugal.»

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