DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «As aves raras poisam em lugares comuns.»

 

João Campos: «Foi publicada uma nova edição do clássico de Mark Twain Adventures of Huckleberry Finn, na qual a palavra nigger, nas suas 219 ocorrências ao longo do texto, foi substituída pela palavra slave. Como se fossem sinónimos. A ideia, de acordo com o seu mentor, o académico Alan Gribben (especializado na obra de Twain), é tornar o livro “mais adequado para as salas de aula”, e, pasme-se, para “melhor exprimir as ideias de Mark Twain no século XXI”. Isto excede o politicamente correcto – é um disparate a roçar o grotesco. E não deixa de ser irónico numa época em que tudo o que é rapper se trata amigavelmente por “nigger”, “nigga” e afins. O politicamente correcto parece ser imparável, e não poupa nada.»

 

Luís M. Jorge: «Aqui, como a Europa não é a América, temos algumas questões resolvidas à partida: um político tem direito à reserva da sua vida privada desde que esta não interfira no poder. As velhas censuras a Sá Carneiro por causa da ligação com Snu Abecassis ou as alusões desastradas de Santana Lopes à escassa virilidade do actual primeiro-ministro engrossam a lista dos tesouros deprimentes recordados com embaraço por quem os testemunhou.»

 

Rui Rocha: «Há quem defenda que as eleições presidenciais não têm grande importância. Em geral, discordo. Mas as próximas eleições presidenciais são ainda mais importantes do que algumas que as antecederam. Pelos seguintes motivos: i) o ano de 2011 vai trazer situações limite que obrigarão a decisões centradas na Presidência da República; ii) a inexistência de uma maioria parlamentar estável; iii) o estado de erosão do sistema político; iv) o esgotamento de soluções parlamentares (sempre a rotatividade PS/PSD, o Bloco Central e a eventual muleta do PP); v) a ideia generalizada de falta de credibilidade dos políticos (quantas vezes já ouvimos o “estes são maus, mas os outros são iguais”); vi) a ostensiva falta de credibilidade do actual governo.»

 

Sara Coelho: «Vivemos num paradoxo terrível: cada vez somos mais, mais egoístas e cada vez precisamos de mais. Tudo isto em simultâneo com a sentença de que cada vez temos de dividir e partilhar, uns com os outros, um maior número de bens e espaços. Cada vez precisamos mais da saúde porque vamos vivendo mais tempo, e cada vez se tenta fugir mais aos impostos (diz-me a experiência que quem mais foge é quem mais tem). Cada vez mais somos empurrados para prédios de vários andares, cada vez mais caros e cada vez menos bem construídos, onde temos de ouvir o vizinho do lado a ressonar (por outro lado, podemos poupar em electricidade, aproveitando a TV do vizinho de cima). Cada vez somos mais nos mesmos lugares, ao mesmo tempo que outros sofrem com a desertificação. Vão partindo todos, porque ali não há nada. E nos grandes pólos vamos vivendo com cada vez pior qualidade de vida, porque há tudo mas não chega para todos.»

 

Teresa Ribeiro: «Agendas políticas, tricas partidárias e crimes passionais não valem o que custam na banca, mas o jornalismo de qualidade há-de ter sempre mercado, por muito que os seus coveiros digam o contrário. Porque o jornalismo de qualidade é um bem de primeira necessidade.»

 

Eu: «Do mal o menos, dir-se-á quando esta noite José Manuel Coelho se sentar defronte de Judite Sousa. É uma das frases mais gastas neste país onde todos nos habituámos a viver sob o signo do mal menor. O facto é que o princípio republicano da igualdade – no caso, o da igualdade de acesso aos órgãos de comunicação social – foi já seriamente ferido nestas presidenciais. Aconteceu com Coelho, candidato “menor”. Que clamor não iria por aí se tivesse sucedido com algum dos candidatos ungidos pelo sistema?»

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