DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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João Campos: «Para todos os efeitos, Cavaco não disse mentira alguma: Portugal não é um país independente nem no plano económico, nem, deixemo-nos de ilusões, no plano político. Existe ainda soberania nacional, de facto, mas muita da legislação que interfere directamente no nosso dia-a-dia emana de Bruxelas, de Estrasburgo, qualquer dia de Berlim. E em termos económicos, existe de facto uma grande interdependência, quando não mesmo uma grande dependência. Se fica mal a Cavaco dizer aquilo? Talvez, concedo – já todos sabemos o talento natural do ainda Presidente para os debates (e não, isto não é uma desculpa). Mas fingir que o país é muito independente quando a Alemanha lhe puxa as orelhas a um ritmo quase diário como se este fosse um adolescente irrequieto chega a roçar a comédia.»

 

José Gomes André: «A maioria das pessoas gosta do Natal porque pertence a dois grupos plenamente reconciliados com a época: os crentes (que o festejam com maior ou menor religiosidade) e os secularistas (que se apropriaram do evento religioso, conferindo-lhe contornos puramente laicos e transformando-o numa grande celebração do real, da matéria e – curiosamente – da família). Os primeiros constroem presépios, vão à Missa do Galo e recolhem-se em oração. Os segundos invadem os centros comerciais, embrulham e etiquetam presentes, ornamentam árvores e enviam MMS com renas e céus estrelados.»

 

Rui Rocha: «Edo State fica na Nigéria, embora a descrição mais correcta seja aquela que diz que fica a caminho de lugar nenhum. Como acontece a tantos outros sítios que teimamos em querer esquecer. Ali, a vida é tão negra como a pele dos seus habitantes. Tão desesperada que há mulheres e homens que se metem em pouco mais que jangadas para se atirarem ao mar. Literalmente. Sem saberem para onde vão. Com a única certeza de que não querem estar mais ali.  Estes e outros tantos chegaram ao ponto em que a viabilidade das suas vidas se joga no interstício que fica entre uma existência desgraçada em terra e a enorme probabilidade de naufrágio no mar. O único aconchego que encontram na viagem, que dura quantas noites existem na alma de cada um dos passageiros, é o dos corpos que se esmagam uns contra os outros na exiguidade do espaço que lhes coube. E o dos corações que, manifestamente, não cabem ali.»

 

Teresa Ribeiro: «Antes de sair para a consoada parou para ajeitar o nó da gravata ao espelho. Estava bem, reflectiu enquanto se vistoriava. A cabeleira é que. Apertou os lábios. Como é que em tão pouco tempo ficou assim, quase toda branca? – reflectiu, com desgosto. “E anda um homem a criar Magalhães para isto” – desabafou. Ressentido, olhou para o embrulho da pastelaria que pousara na mesa e passou em revista alguma da sua rapaziada. “Estão diferentes. Mais esquivos. Alguns já andam a socializar-se em busca de “novas oportunidades”. Avançou para a porta sem pegar no embrulho. “Broas? Este ano não há broas p’ra ninguém”.»

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