
Ana Vidal: «Ficou o silêncio. Um silêncio ensurdecedor, feito de cinzas, povoado pelos fantasmas de todas as notas e de todas as palavras que tínhamos morto inutilmente. Um silêncio que alastrou como um rastilho e se riu de nós, descarado, terrível, satânico. Era imperioso emudecê-lo depressa e por isso queimámos o silêncio, já sem forças para tanto sacrifício.»
Francisco Curate: «De certo modo, cuidar dos mais velhos não é mais que uma tradução da base formulaica «Honra o teu pai e a tua mãe». O rabino Neusner pode ter alguma razão quando vê neste mandamento a base do núcleo social israelita. Outro judeu genial, Freud, reduz qualquer religião a uma busca pelo pai, a uma ambivalência edipiana que pode ter a sua origem nesta primeira achega ocorrida na Sima de los Huesos. Mesmo o sertão de Riobaldo Tatarana pode funcionar como um pai vicário; Tatarana vale-se das figuras paternas de Zé Bebelo, Joca Ramiro, Medeiro Vaz e novamente Zé Bebelo – mais do que se vale do diabo, que aliás nem tem a certeza que exista.»
João Carvalho: «Concordo com Teixeira dos Santos: a nossa situação é completamente diferente da crise que afecta os outros. Não andámos a mentir sobre a contabilidade pública, não houve qualquer problema com o nosso sistema bancário, não ultrapassámos muito o desemprego comunitário mediano e não desperdiçámos nem esbanjámos os dinheiros públicos. Já agora, desculpe lá, senhor ministro: então por que é que estamos em crise?»
Rui Rocha: «No meio desta torrente de notícias que nos afogam de neura e angústia, dou por mim a pensar que devemos a nós próprios não nos focarmos exclusivamente no lado errado das coisas. Florbela Espanca escreveu que ‘há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar’. A minha primavera são a minha mulher e os meus filhos, a quem não posso amar mais. E a quem nunca hei-de amar menos. Aos que já encontraram as primaveras da vida, digo que as vão beijar, abraçar, contemplar ou confortar. Que lhes falem se estiverem longe. Que lhes escrevam, se for apropriado. Que as recordem, se não lhes puderem falar. Em todo o caso, que as cantem.»
Eu: «Manuel Alegre, sem um verdadeiro adversário pela frente, tratou com amabilidade e sem sobranceria o seu camarada de partido, o que lhe ficou bem mas só reforçou a ideia de que não estávamos perante um debate a sério. Foi quando muito, nesta noite tão fria, um debate de aquecimento para outros confrontos. Alegre e Defensor [Moura] mostraram-se em sintonia nas críticas ao actual Presidente da República, nos reparos quase cavalheirescos às anunciadas alterações do Governo à lei dos despedimentos e na necessidade imperiosa de o País bater o pé aos mercados financeiros. Cavaco Silva, naturalmente, foi quase em exclusivo o foco das críticas, mas não terá chegado a ficar com as orelhas a arder.»
