
Ana Vidal: «L’important c’est la rose, cantava ele naquela voz que nos aveludava os dias, nos deixava as pernas a tremer e os olhos brilhantes. E cantávamos nós com ele, aveludados na premissa sagrada. Era tão fácil. A nossa vida era, toda ela, feita de rosas. Importantes, sim. O que podia haver mais importante do que os nossos magníficos, preciosos, deslumbrantes umbigos? Nesse tempo, o mundo real era a nossa imensa fantasia. Ainda as rosas não tinham espinhos. Ainda os espinhos não se tinham transformado em punhais. Ainda nós não éramos gente de carne e osso, mas apenas bolas de sabão planando no ar leve da manhã.»
João Carvalho: «Vão ser leiloadas obras de arte no Centro LGBT, que faz 13 anos e que a ILGA qualifica como «um espaço cultural e comunitário para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgénero e para a sociedade em geral», referindo-o como «o único em Portugal com estas características». Trata-se de uma confusão qualquer. Há montes de espaços culturais e comunitários por aí fora. Nem todos para “lésbicas, gays, bissexuais e transgénero e para a sociedade em geral”, é certo, mas quase todos para “a sociedade em geral”, que é muito mais simples e igualmente abrangente.»
Luís Aguiar-Conraria: «Em Julho de 2008, escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas usando os mesmos dados e publicado em Junho de 2009 na revista Electoral Studies, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%. Como já explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos, porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões – e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época – não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30.»
Pedro Magalhães: «Quem é o incumbente em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbente estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha (e, quem sabe, Pintasilgo) no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora. Por outras palavras, como não há uma relação de identidade estável entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbente [nas eleições presidenciais], no sentido estrito em que é usado habitualmente nos modelos de previsão – um partido, ou um candidato -, não faz sentido. Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Em breve explicaremos o quê e como. O que daí resulta, podemos desde já, em parte, adiantar: Cavaco Silva deverá ganhar à primeira volta.»
Sérgio de Almeida Correia: «Hoje é dia 11 de Novembro. Passa mais um aniversário da independência de Angola. A data não podia passar despercebida, em especial entre nós, depois da magnífica entrevista dada à TSF por Rafael Marques, um homem livre e corajoso que não hesita em dar a cara e o nome em defesa de uma cidadania justa e livre no seu país. Passado o tempo da guerra civil, iniciada a recuperação dos estropiados, e aberta uma nova página na sua história, é tempo de Angola se reabilitar. Em democracia. Não apenas na vertente externa, seja no âmbito da CPLP, das Nações Unidas ou no seio das demais nações africanas. Angola necessita urgentemente de se reabilitar internamente, muito em particular precisa de reabilitar as suas elites dirigentes.»
