DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Ana Vidal: «O tuga, exausto e saqueado, que já não acredita no Pai Natal nem na Branca de Neve vai para muito tempo, corre a pegar no comando da televisão para refugiar-se na Casa dos Segredos e meter na veia, embalado pela voz maviosa da Júlia Pinheiro, a doce anestesia de mais uma dose escaldante de meia dúzia de criaturinhas suburbanas entregues às hormonas e à perversão de outra Voz que as transforma em marionetas inconscientes, pobres ratos às voltas numa gaiola forrada a pelúcia. E assim nos vamos afundando alegremente, ou já nem isso.»

 

André Abrantes Amaral: «Foi um dia estranho aquele em que toda a gente, independentemente do que estivesse a fazer, numa reunião no escritório, a falar ao telefone, a conduzir um autocarro, a guiar o seu automóvel, a atravessar a rua, a limpar as sarjetas, a vender jornais e revistas mais os brindes a acompanhar, a conversar, a comer e a beber, parou. Pararam e viram o sol a pôr-se atrás dos prédios, dos telhados, dos candeeiros das ruas, das colinas da cidade, atrás dos vultos que se punham à frente. A luz começou com um amarelo forte, depois alaranjou, ficando vermelho a seguir, um vermelho intenso, o sol redondo como uma bola de neve feita por miúdos e pronta a ser atirada contra quem passasse.»

 

João Carvalho: «Um dos pontos muito discutidos nas conversações entre o Governo e o PSD foi o dos “alimentos humanos”, como referiu insistentemente o ministro das Finanças. Parece que alguém queria que tivessem preços populares. Quem seria o antropófago tão interessado em comprar ao preço da chuva “alimentos humanos”? E exactamente que parte(s) do corpo devia(m) ser as mais baratucha(s)?»

 

José Gomes André: «À falência moral (registada há largos meses) este Governo junta agora a sua própria falência técnica. As notícias sobre o absoluto descontrolo das contas públicas revelam uma incapacidade tão gritante que só o mais fanático socialista pode ainda confiar nas capacidades de Teixeira dos Santos & Ca. para resolver qualquer desafio político-financeiro. E falar de negociações e de compromissos com esta gente é o mesmo que dialogar com uma porta: serve para passar o tempo, mas não leva a lado nenhum.»

 

Luís M. Jorge: «A questão não é se o PSD deve ou não viabilizar o orçamento. A questão é se o PSD ainda tem algum instinto de auto-preservação. Se o tiver, viabiliza o orçamento. Se não o viabilizar, merece morrer como partido.»

 

Eu: «”Sei bem que a minha magistratura de influência produziu resultados positivos”, disse ontem Cavaco Silva no Centro Cultural de Belém, em jeito de balanço do seu mandato. Com toda a razão. Se não fosse a sua “magistratura de influência” o País talvez estivesse à beira da recessão, com o maior número de sempre de desempregados, o maior buraco orçamental de que há memória, uma dívida externa astronómica, um recorde absoluto do desemprego e mais de dois milhões de pobres.»

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *