DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Duas horas à espera de vez numa conservatória servem para perceber os requintes da novilíngua da burocracia, imposta pela todo-poderosa brigada do politicamente correcto. Por cima do balcão há uma placa onde se lê “Prioridade de atendimento a portadores de deficiência”. É justo. Mas fico a saber que a deficiência é uma coisa portátil, pormenor que até hoje me tinha escapado. Resta-me recomendar a todos os deficientes que nunca se esqueçam da sua deficiência em casa, para não terem de esperar muito nas repartições públicas.»

 

João Campos: «Talvez o artefacto mais curioso da minha ínfima mesa de cabeceira não seja algum livro, mas sim o relógio – um banalíssimo despertador digital, de dígitos encarnados, quase tão antigo como eu. É certo: na nossa época, e felizmente, vinte e oito anos não combinam muito bem com o adjectivo “antigo” no que às pessoas diz respeito; já o mesmo não se poderá dizer sobre aparelhos electrónicos. E nota-se. Está gasto, o aparelho: os botões funcionam mal há anos, o indicador de que o despertador está ligado já nem aparece no mostrador. Mas continua a funcionar, enfim, como um relógio (bem sei, o trocadilho é fácil, e pior, óbvio); e se o indicador falha, já o despertador continua a soar estridente como sempre.»

 

Eu: «Sócrates rumo ao Parlamento Europeu? Poiares Maduro a caminho da Comissão Europeia? Confirma-se a tendência geral para o aumento da emigração portuguesa. Resta-nos sempre Álvaro de Campos: “Nunca voltarei porque nunca se volta. / O lugar a que se volta é sempre outro, / A gare a que se volta é outra / Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.”»

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