
Joana Nave: «Somos partículas de um todo, pontos discretos de um conjunto. A cola que nos liga torna-nos contínuos no tempo e no espaço. Que cola é essa, capaz de unir fragmentos de um bem maior?»
José Navarro de Andrade: «Deve haver um Murphy que ponha em forma de lei natural o modo como os livros se acumulam junto à mesinha de cabeceira, cada vez que são retirados, sem regresso, da estante. Nem que seja para lhes consultar umas linhas que me apetece reler, um episódio que me ocorreu recordar, uma frase de cujo encadeado me quero apropriar, vou ao escritório acordar o livro do seu sossego, racho-o ao meio com os dedos à procura da página certa, roubo o que nela se preserva e depois abandono-o, de barriga para cima, como um animal saciado. Detesto ler na cama, fica quente de um calor desconsolado, mas adormeço com os livros ao lado – a gente cá se entende.»
Eu: «Esta é a história de um amor impossível. A história de um desencontro. A história de uma fotografia. A história de um crime que permanece sem castigo — ou pelo menos assim o imaginamos. A história de instantes irrepetíveis, capazes de mudar uma vida, qualquer vida, a minha, a tua, a daquela mulher que decide correr no último momento na plataforma da estação ferroviária, a daquele homem que a contempla a uma distância crescente do interior da carruagem.»
