
José António Abreu: «Mesmo os que, por defeitos de idade, não viram em directo se lembram de Rosa Mota cortando a meta para a vitória na maratona dos Jogos Olímpicos de Seoul, em 1988. Pequenina, magrinha, ar simpático, braços bem erguidos de justificado orgulho, sovacos por depilar. Rosa Mota já conquistara o bronze nos Jogos Olímpicos de 1984 e, em 1987, fora Campeã do Mundo em Roma (para além de ter conseguido vários títulos europeus e vencido uma mão-cheia de maratonas importantes). Mas convenhamos que, grande atleta que indiscutivelmente era, nunca o termo «sensual» se lhe aplicou. Pior um nadinha: Rosa, como Carlos Lopes, Aurora Cunha, Fernando Mamede, os gémeos Castro ou, na verdade, ainda vários dos atletas portugueses da actualidade, revelava um país mais parecido com os tempos de Salazar (esforçado mas pobrezinho, ligeiramente digno de pena) do que com o país em que, poucos anos volvidos, os portugueses gostavam de se imaginar a viver.»
Luís Menezes Leitão: «Efectivamente, não são nada comuns os políticos-taxistas, sendo esta uma invenção original, que deve ser juridicamente tutelada. Já os políticos-tachistas pelo contrário são extremamente frequentes, pelo que ninguém poderá arrogar-se a patente dessa invenção. Já é do domínio público há muitos anos.»
Eu: «Zapo pelos canais de notícias, por estes dias, e não encontro nenhum dos comentadores televisivos que ainda há bem pouco prediziam as maiores desgraças neste país assolado pela crise. Onde está a douta eminência que no pretérito Inverno sentenciava que “a crise do sistema político português pode fazer o poder cair na rua até ao Verão”? Onde foi parar aquela alma perturbada que proclamava com solene gravidade há pouco mais de um mês: “Estamos perante uma crise política de dimensões colossais, a nível de Portugal e da Europa.” E o que será daquela voz tremebunda que em Julho assegurava aos assustados compatriotas: “Há uma situação de manifesta irregularidade no funcionamento das instituições”? A banhos, dizem-me. Foram todas a banhos – a douta eminência, a alma perturbada, a voz tremebunda estarão neste preciso momento a estender a toalha ao sol enquanto douram as requintadas epidermes. Durante todo o mês de Agosto, o país terá de resignar-se à ausência destas sumidades. Apesar da crise. Apesar do iminente segundo resgate que já anteviam em directo nas pantalhas. Apesar da provável saída de Portugal do euro, que tiveram o desassombro de profetizar. Apesar da possível fragmentação da pobre União Europeia, como não se coibiram de prever em tom caviloso.»
