DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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José Gomes André: «A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de “decadência”.»

 

Eu: «Se há coisa de que sempre gostei foi de consultar jornais antigos. Sou capaz de estar horas esquecidas numa biblioteca ou numa hemeroteca, aprendendo em cada notícia sobre o passado – e, através dele, conseguindo perceber também um pouco melhor o presente. Sucedeu-me na tarde de quinta-feira, numa consulta à colecção do Jornal do Fundão, em cuja redacção fui muito bem recebido. Pretendia ler, fotocopiar e guardar notícias especificamente relacionadas com a minha família. Houve épocas em que os jornais – particularmente os jornais sedeados em cidades ou vilas da província – eram repositório de acontecimentos que constituíam marcos na vida privada de muitos dos seus assinantes e leitores, tornando-os notícia. (…) Recolhi várias notícias que de algum modo me diziam respeito. Incluindo a notícia do meu próprio nascimento, que não possuía em nenhum arquivo familiar. Seis linhas apenas, numa coluna do jornal que tinha imensa leitura, sob a epígrafe “notícias pessoais”. Uma coluna que registava nascimentos e casamentos, naturalmente. Mas também internamentos hospitalares. Ou alterações de estatuto profissional (“Foi nomeado tesoureiro da Agência Geral de Depósitos em Oliveira de Azeméis o nosso amigo sr. X a quem cumprimentamos e desejamos os melhores êxitos”), ou simples visitas em gozo de licença ou de férias (“cumprimentámos o sr. Y, natural do Alcaide, oficial da Força Aérea em Lunda, que no continente se encontra em visita de alguns dias à família”).»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. Recolhi várias notícias que de algum modo me diziam respeito. Incluindo a notícia do meu próprio nascimento

    Ou a família do Pedro Correia era uma família peculiarmente rica e importante na sociedade local, ou então custeava o jornal de alguma forma excecional. (As duas possibilidades não se excluem mutuamente.)

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